Script = https://s1.trrsf.com/update-1765905308/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Em famoso ponto, "gangue" mantém a ordem nas ondas

23 jan 2009 - 14h58
(atualizado às 15h55)
Compartilhar

Eles são conhecidos como Wolfpak, ou simplesmente "os meninos". Usam o medo e seus punhos para impor respeito nas praias da North Shore de Oahu, um trecho de cerca de 11 quilômetros de costa que abriga alguns dos pontos de surfe mais renomados do mundo. Na célebre Banzai Pipeline, são eles que determinam que onda cabe a que surfista, e que punem os responsáveis por violações de seu código de respeito aos moradores locais e às ondas.

Os membros do Wolfpak tentaram moderar sua imagem bruta por meio de trabalho assistencial, mas aprenderam que a reputação que lutaram tanto por estabelecer agora é difícil de eliminar.

A Pipeline "é como qualquer ponto de surfe", diz Randy Rarick, diretor executivo da Vans Triple Crown of Surfing, evento que inclui o torneio Pipeline Masters.

"Temos os surfistas locais, e temos os surfistas locais que impõem regras não escritas", ele acrescentou. "E isso ocasionalmente gera violência, com alguns personagens um tanto dúbios ditando as ordens. É como uma máfia que controla as ondas".

Isso persiste mesmo depois que dinheiro pesado começou a chegar à North Shore, com o desenvolvimento do mercado de casas de praia.

"A intimidação era e continua a ser uma parte importante da experiência na North Shore", diz Shaun Thompson, campeão mundial de surfe em 1977 e produtor de um documentário sobre a importante cena do surfe profissional na North Shore, "Bustin Down the Door", lançado este mês em DVD. "As coisas são como são. Você chega lá, como surfista, sabendo que isso é parte da experiência".

O quadro de membros informais do Wolfpak é formado principalmente por homens oriundos da ilha vizinha de Kauai, e inclui surfistas profissionais como o tricampeão mundial Andy Irons, 30, e seu irmão Bruce, 29, um talentoso surfista estilo livre.

O mais notório membro do grupo é o encarregado da disciplina, Kala Alexander, um surfista profissional de braços musculosos e tatuados e uma tatuagem que diz "Wolfpak" nos nós dos dedos. Em 2007, Alexander estrelou "The 808", um reality show sobre o Wolfpak e a North Shore, e teve participações nos filmes "Blue Crush" e "Forgetting Sarah Marshall". Mas também ganhou fama devido a vídeos no YouTube que o mostram espancando surfistas na praia, anos atrás.

"O código é respeitar os outros", disse Alexander, 39. "As pessoas vêm aqui e não respeitam os outros. Se você agir assim, vai encontrar problemas".

Foi o que aconteceu com Chris Ward, 30, surfista profissional de San Clemente, Califórnia, e segundo colocado no Pipeline Masters do mês passado. (O vencedor foi Kelly Slater.) Em novembro, publicações australianas reportaram que Ward cortou um surfista local ao pegar uma onda em Pipeline. Ele foi banido da água e teve de voltar à areia, onde um integrante do Wolfpak o agrediu com tapas na cabeça. Sem oferecer mais detalhes, Ward confirmou que o incidente havia acontecido.

"As coisas são assim há quatro décadas", disse Peter Townend, que em 1976 ganhou o primeiro Campeonato Mundial de Surfe na North Shore. Em 1978, conta, ele foi expulso a socos de um ponto de surfe chamado Off the Wall. Naquele mesmo ano, precisou de escolta policial para competir no Pipeline Masters, devido às ameaças contra ele.

No Pipeline Masters de 2007, um desentendimento na água se estendeu à areia, quando o havaiano Sunny Garcia tentou agredir seu oponente na primeira bateria, Neco Padaratz, do Brasil. Padaratz fugiu, seguido por Garcia e alguns locais. A polícia terminou por escoltar Padaratz para fora do local de competição.

Esses incidentes criam debate quanto ao "localismo", uma forma de proteção territorial que é praticada em locais de surfe de todo o mundo há décadas. Mas a North Shore continua a ser um foco dessa prática, porque suas praias representam o campo de provas para os aspirantes ao profissionalismo que chegam ao local a cada final de ano, junto com as grandes ondas do Pacífico Norte.

"Estamos falando do centro do universo do surfe", diz Tomson. "É como o Monte Everest para os surfistas de todo o mundo. E Pipeline é o pico que um surfista precisa aprender a encarar se deseja ser considerado um grande surfista".

Com a popularidade cada vez maior do surfe, há quem diga que o temor de represálias violentas garante a ordem e a segurança em pontos de surfe congestionados e perigosos como Pipeline.

"O ambiente é perigoso, e sem um padrão de controle autodirigido, teríamos caos por aqui", diz Rarick.

Em Pipeline, ondas grandes e perigosas quebram sobre um recife em água rasa. Porque a área de entrada é pequena, não há muito tempo para a tomada de decisões cruciais, e dezenas de surfistas disputam as mesmas ondas. Pipeline é considerado como um dos pontos de surfe mais perigosos do mundo.

Não existem números oficiais sobre vítimas fatais, mas um livro de 2008 afirma que mais de 30 pessoas morreram no local desde que este começou a ser usado para o surfe, em 1961.

"O pessoal que compete aqui é muito intenso", disse Slater, 36, de Cocoa Beach, Flórida. "Um dos locais mais intensos do mundo, porque as consequências são sérias caso você invada o espaço de alguém e o surfista saia machucado, ou você leve um tombo e se machuque".

Tradução: Paulo Migliacci

Foto: The New York Times
The New York Times
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra