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Com dívida dez vezes maior do que a receita, Cruzeiro busca sobrevivência esportiva

Elenco caro, salários elevados e corrupção estão entre os motivos da equipe mineira ficar em situação tão delicada

15 jan 2020
04h43
atualizado às 04h43
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A queda do Cruzeiro dentro de campo, com o rebaixamento à Série B do Campeonato Brasileiro em 2019, veio acompanhada por gravíssimos problemas financeiros. Sob nova realidade esportiva, o clube convive com uma equação difícil de ser resolvida, pois tem receita prevista de R$ 80 milhões para 2020, com uma dívida, segundo seus próprios dirigentes, difícil de ser contabilizada, mas que já teria chegado aos R$ 800 milhões.

O cenário de descalabro financeiro é fruto do aumento dos gastos nas últimas temporadas, em parte pela montagem de um elenco caro e cheio de estrelas, com salários elevados. Mas também por supostas irregularidades cometidas pela antiga gestão, presidida por Wagner Pires de Sá e que tinha Itair Machado como homem-forte do departamento do futebol, o que provocou a abertura de investigação pela Polícia Civil de Minas Gerais por acusações como falsificação de documento particular, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.

O rebaixamento no Brasileirão e as crises política, financeira e administrativa, além de protestos da torcida, provocaram a renúncia de Wagner e de seus vice-presidentes. O comando do Cruzeiro, então, passou para as mãos do Núcleo Dirigente Transitório, que vem encontrando dificuldades para tocar o dia-a-dia do clube e até já sofreu baixas em sua formação inicial, além de recuos no planejamento da gestão do clube.

Para viabilizar ações cotidianas do Cruzeiro, que teve várias receitas adiantadas pela gestão anterior, o grupo tem buscado recursos. Assim, o Cruzeiro espera fechar nos próximos dias um empréstimo de longo prazo entre R$ 80 milhões e R$ 100 milhões que lhe daria algum respiro financeiro para o pagamento de contas mais urgentes. "Se sair, pode ser nossa redenção para sair do CTI, ir para o quarto e começar a tratar da doença", disse Saulo Fróes, presidente do Núcleo Gestor Transitório, ao Estado.

Além disso, o clube pretende lançar em breve um reformulado programa de sócio-torcedor, com a expectativa de obter receita mensal de R$ 3 milhões, com a ideia de revelar publicamente como esses recursos estão sendo utilizados. A iniciativa, porém, esbarra na preocupação de que o valor arrecadado não chegue ao clube, sendo retido pela Justiça para o pagamento de dívidas, com o bloqueio das contas.

Enquanto isso, o clube fez mudanças em seu quadro geral de funcionários, com a demissão de 98 pessoas, muitos deles com salários em valores praticados acima do mercado, o que provocará uma economia estimada em R$ 25 milhões. E em busca de uma redução drástica das despesas, o grupo de dirigentes havia proposto um teto salarial de R$ 150 mil. A ideia, porém, foi abandonada pela gestão, que adotou outro limite, de R$ 4 milhões para a sua folha mensal a partir da chegada de Ocimar Bolicenho para o cargo de diretor executivo de futebol.

Tirar esses planos do papel, porém, não tem sido uma tarefa fácil para o Cruzeiro. Muitos jogadores do elenco vêm recusando uma negociação da reduzir os salários. Outros, com o atraso nos pagamentos, acionaram a Justiça para receber o que lhes é de direito e se desligar do clube.

O caos administrativo e financeiro tem provocado dois cenários: a incerteza sobre qual será o elenco para o início da temporada, sendo que a estreia no Campeonato Mineiro está agendada para 22 de janeiro, e a sensação de impotência e incredulidade nos membros do Núcleo Gestor Transitório.

Esse grupo é composto por empresários com status de sucesso em suas áreas, mas pouco afeitos ao cotidiano do futebol, se surpreendendo com suas características. Não à toa, Vittorio Medioli, definido como CEO do grupo, e Pedro Lourenço, inicialmente apontado para tocar o departamento de futebol, deixaram a gestão do Cruzeiro. E até Alexandre Mattos, que auxiliaria Bolicenho voluntariamente, se desligou após menos de uma semana de trabalho. "Ele ficou assustado com o mundo do futebol, com jogadores que não aceitam reduzir o salário, sem a sensibilidade de perceber o cenário de penúria do clube", diz Fróes, sobre a rápida passagem de Lourenço pela gestão do time.

Medioli, por sua vez, deixou o clube sugerindo uma ação bem mais dura do que a busca por empréstimos para viabilizar a temporada 2020. Para ele, o Cruzeiro precisaria passar por uma intervenção judicial que permitisse a adoção de uma moratória temporária para o time se viabilizar financeiramente. O empresário também é a favor da transformação da equipe em S/A.

"Hoje as contas do Cruzeiro são uma caixa d'água sem fundo. Isso geraria uma tampa provisória", disse, ao Estado, avaliando que a falta de pagamento das dívidas podem causar problemas ainda mais graves ao clube dentro de campo. "Tem dívidas que levarão o Cruzeiro à Série C por decisão da Fifa", alerta.

Para ele, a intervenção levaria uma avaliação precisa sobre crimes cometidos na gestão do Cruzeiro, uma definição sobre o real valor da dívida, também permitindo a adoção de um plano que viabilizasse o clube. "Entreguei um plano de recuperação com análise legal. Poderíamos arrolar bens imóveis e assumir compromissos de liquidar a dívida reconhecida como legal e justificada", defende Medioli, que é prefeito de Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte.

Nomes importantes da atual gestão, como Fróes, são contra uma intervenção judicial, mas há também planos de venda de parte do patrimônio do Cruzeiro, estimado em mais de R$ 500 milhões. A sede administrativa do clube no bairro Barro Preto e a Toca da Raposa I, CT utilizado apenas pelas divisões de base, por exemplo, teriam interessante potencial de negociação. Mas até nisso as dívidas tem atrapalhado o clube. "Alguns (terrenos) estão arrolados (em ações na Justiça), então precisamos fazer acordos com a Receita", explica Fróes.

De qualquer forma, a passagem do Núcleo Gestor Transitório pelo comando do Cruzeiro não deve durar muito. A previsão inicial era de que novas eleições presidenciais fossem realizadas em junho. O grupo indica que deseja a antecipação do processo, acreditando que a votação poderia ser viabilizada ao menos até maio. E garante que nenhum dos seus membros será candidato. "Não tem ninguém no núcleo querendo ser presidente, eu não vou ser de jeito nenhum. Mas podemos apoiar alguém sério", diz Fróes.

"Eu sou a favor da eleição logo, assume e põe as suas ideias em prática. A primeira parte, a mais dolorosa, está sendo feita por nós", comenta Fróes, apontando que ainda vai demorar para o Cruzeiro retomar o nível competitivo que o tornou uma das referências do futebol brasileiro. "Acredito que vamos sair disso em longo prazo, em quatro cinco anos. O objetivo principal agora é a volta à Série A", disse.

TRÊS PERGUNTAS PARA OCIMAR BOLICENHO

Diretor executivo de futebol do Cruzeiro

Como tem sido as conversas com os jogadores para negociar a redução salarial?

A conversa tem sido honesta, colocando a nossa realidade e o que clube pode pagar, explicando que eles têm a garantia de receber o valor que estamos oferecendo.

O Cruzeiro pretende aguardar a Série B para buscar reforçar o elenco?

Vamos buscar reposição para quem sair e temos conversas diárias com a comissão técnica. Não vamos gastar todo o orçamento no Estadual. Vamos fazer uma reserva para gastar no Brasileiro.

O trabalho no Cruzeiro é o maior desafio da sua carreira como gestor no futebol?

A situação é ímpar para um clube brasileiro. Mas a experiência me diz que é um desafio bom de encarar. E acredito que vou ajudar o Cruzeiro a voltar para a série que pertence, a Série A.

Estadão
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