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'A primeira coisa é mostrar que o Cruzeiro tem nova administração', diz Belletti

Novo diretor de negócios internacionais do clube mineiro, ex-jogador busca parcerias para gerar receitas para o clube

22 set 2020
08h10
atualizado às 08h47
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Belletti tem uma nova missão no futebol: ajudar o Cruzeiro a sair da crise em que se encontra. O clube tem quase R$ 1 bilhão de dívidas e está em situação delicada na Série B do Campeonato Brasileiro. O ex-jogador, que foi revelado no time de Minas, recentemente assumiu o cargo de diretor de negócios internacionais, visando novas parcerias através do conhecimento e dos contatos que adquiriu durante o período em que jogou em clubes do Brasil e da Europa, além da seleção brasileira. Em entrevista ao Estadão, Belletti explica como vem tentando desempenhar a função, suas credenciais para realizar o trabalho e revela como trabalha a nova diretoria do clube, comandada pelo presidente Sérgio Santos Rodrigues.

Como foram as conversas para o seu retorno ao clube?

Tive reunião com o presidente, com o Rodrigo Moreira, de inovação, com o Edinho (Edson Potsch), vice-presidente, sempre mostrando o que eu tinha feito nos últimos anos, como estava hoje em dia. Vimos que poderia ajudar muito o Cruzeiro nesse departamento de negócios internacionais. Eu e minha família estávamos planejando voltar a viver na Europa, quase tudo certo, mas aí veio o convite e, entendendo a situação que o Cruzeiro tem atravessado nos últimos meses e sabendo que ainda vai ter de enfrentar muita coisa pela frente, resolvi aceitar para ajudar nessa retomada.

O cargo que você exerceu no Coritiba era parecido com este?

Não digo parecido. Lá era uma coisa mais institucional. Aqui estou diretamente ligado a global business. E, com essa nova gestão, há uma interligação entre todos os núcleos, todo mundo trabalha junto, eu tenho também essa responsabilidade dentro do departamento internacional de contribuir em todas as áreas do clube. No Coritiba não acontecia muito isso.

Quais as primeiras atitudes que você tomou após assumir?

A primeira coisa a ser feita quando você chega em um trabalho novo é uma análise de cenário. Não adianta eu querer fazer nada se não sei como está tudo. Os últimos dias, desde que cheguei, o que tenho feito é isso: estudar todas as áreas do clube para saber como elas estão. Daí, como segundo passo, começar a atualizar os meus contatos para dizer que estou na função de diretor de negócios internacionais. Falo de clubes de futebol, entidades de esporte, empresas, instituições, algumas delas governamentais, agentes de futebol, empresas que lidam com marketing digital ou esportivo. Tenho de passar para todo mundo que estou aqui. A partir daí, dar um upgrade na apresentação, fazer as alterações que acho interessantes para se começar a criar alianças comerciais. Desde o primeiro dia, por causa da demanda, eu sabia que ia ser assim. Chego por volta das seis da manhã e deixo por volta das nove horas da noite. Não parece, mas tem muita coisa a ser feita principalmente no que diz respeito a atualizar as coisas.

O que seriam exatamente essas atualizações?

A principal atualização no momento é mostrar para todo mundo que o Cruzeiro tem uma nova gestão. Devido a esses problemas com a Fifa saindo toda hora na imprensa, clubes do mundo inteiro, organizações e entidades estão com certa desconfiança do Cruzeiro. Mas aí mostro, dentro do meu trabalho, faço networking para atualizar as informações, mostrar que o Cruzeiro tem uma nova gestão, completamente diferente da que tinha anteriormente. Prova disso, entre outras coisas, é que o Cruzeiro está resolvendo seus problemas, está pagando o que tem de se pagar, está ajeitando o que tem de se arrumar aqui dentro e isso tem sido fundamental para começar de novo a ter credibilidade e poder passar uma ideia comercial.

Além da desconfiança, há outros empecilhos ao seu trabalho vindos de problemas de administrações anteriores?

Empecilho é o que mais tem. Dada a situação que o Cruzeiro se encontrava e que estamos tentando arrumar a casa, isso aí faz parte do dia a dia em qualquer trabalho. O importante é como você trabalha para resolver tudo isso, e é o que a gente tem feito, quando falo que chego 6h30 e saio perto das oito ou nove horas da noite. Tem de se ter algumas coisas interessantes na diretriz, que é não só resolver os problemas. Você tem de melhorar o seu núcleo, trabalhar em um upgrade na sua área, começar a identificar oportunidades naquilo que está fazendo como instituição, principalmente na área internacional que é minha área. Num outro lado, não menos importante, por que não começar a criar novas ideias de gerar receita? Meu trabalho também passa por esse caminho. Em cima de tudo isso, sempre tem os empecilhos, sempre tem os problemas, mas se me contrataram, é porque confiam que posso ajudar a resolver tudo isso e seguir em frente.

Que tipo de negócios você tem buscado para o Cruzeiro?

Dentro do departamento de negócios internacionais, que já existe há 14 anos, sendo talvez o único no Brasil e na América do Sul que tenha, já existem alguns produtos. Nesse momento, o que tenho feito é atualizá-los, de acordo com a minha visão, de ter sido embaixador do Barcelona, viajar o mundo inteiro, trabalhando a nível comercial com empresas de todos os lugares. Nesses produtos, a gente dá uma pincelada.

Quais são esses produtos?

A gente tem um programa de intercâmbio esportivo, onde recebemos dentro de um hotel que tem na Toca da Raposa I jovens do mundo inteiro para treinar de acordo com a metodologia de treinamento do Cruzeiro, que é 100% brasileira. Então, a gente atualiza os contatos com todo mundo, avisamos que somos da nova gestão e convidamos, dentro desse processo que a pandemia atrapalhou por causa das viagens, que logo estaremos recebendo em até melhores condições. Dentro desse programa de intercâmbio esportivo, o clube já trabalhou com cerca de 3 mil jovens de 23 países, o que começa a gerar um outro tipo de negócio, que são os camps internacionais, a abertura de escolas licenciadas fora do Brasil, sem falar nas licenciadas no Brasil que hoje são mais de 60 unidades.

O que mais?

Também faz parte do meu trabalho participar disso, para que existam possibilidades de fazer alianças comerciais com empresas, principalmente nos lugares onde já existam camps ou escolas do Cruzeiro ou que possam vir a existir, e também alianças com clubes de futebol de todo o planeta. E alianças com clubes de futebol podem ser de várias maneiras. Pode ser aliança digital, aliança comercial, aliança técnica, aí vai dentro de um conceito que pode haver de sinergia entre os clubes para que possam crescer juntos numa mesma área. Isso já está sendo feito desde o primeiro dia.

Você mencionou geração de receitas. Tem ideias para ajudar o clube nesse quesito?

Essas ideias eu já tinha nas primeiras reuniões. Tem de ter ideias de receitas porque o clube precisa de receita. Nessas semanas que estou dentro do clube. já trago possibilidade de gerar receitas para o Cruzeiro. Existe departamento comercial, existe departamento técnico, departamento de comunicação, e o departamento internacional, graças a essa nova gestão que tem uma visão diferente do futebol, todos trabalham juntos. Então trago ideias para todos os departamentos graças à minha vivência e experiência no futebol mundial, sem falar em tudo que estudei até agora para chegar até esse momento.

O que você estudou?

Fiz administração de empresas com psicanálise, estudei vendas, estudei marketing, marketing digital, estudei apresentações comerciais. Tenho know-how, talvez mais universitário, mas não é que fiquei sem fazer nada nos últimos 11 anos, muito pelo contrário. Esse know-how adquirido me traz conhecimento para compartilhar dentro de todos os núcleos, trazendo também ideias para monetizar em cima disso.

Dentro desse trabalho de buscar receitas, você corre atrás de investidores?

A palavra investidores fica meio vaga. O que tento fazer é mostrar a nível internacional para empresas, clubes que queiram investir no Brasil. Não é fácil. É difícil ainda investir no futebol brasileiro. E mostrar como o Cruzeiro, como instituição, como entidade, recebe esse investimento e como os parceiros podem trabalhar juntos para tirar proveito disso. É claro que vou apresentar o Cruzeiro como instituição, a história, os títulos, o melhor clube brasileiro do século 20. E preciso saber qual empresa está buscando investir no Brasil, e de que maneira. Então, se há uma sinergia entre essas duas coisas, eu apresento a instituição. Através dessa gestão existem outras maneiras de tirar proveito de uma aliança comercial a nível internacional que é principalmente por termos um departamento focado só nisso, que quase nenhum time tem no Brasil. E um departamento que já existe há 14 anos tem uma experiência suficiente para trabalhar nisso. Com essa nova gestão fica muito ampla a possibilidade de ideias de trabalho. Eu trago sim novos investimentos, não só empresas ou clubes, mas também pessoas que queiram trabalhar com esse tipo de coisa. Esses resultados começam a aparecer pouco a pouco.

Qual benefício você acha que emprestar seu nome ao projeto da diretoria do Cruzeiro pode trazer?

Mais do que o nome, tenho a imagem construída com o nome. Depois que parei de jogar futebol, fui me aperfeiçoando em vários assuntos, trabalhando em diferentes áreas, participando de eventos pelo mundo inteiro e criando networking que agora posso tirar proveito. Então, quando ligo para um empresa lá em Londres em nome do Cruzeiro, uma empresa que mexe com marketing esportivo e eventos internacionais, ela me atende. Eles vão saber que estou aqui, como trabalha essa nova gestão do clube e vão buscar algum tipo de negócio que possa ser interessante para ambos. Quando ligo para um time de futebol da Europa, ou da América, ou da Ásia, sou sempre bem atendido. Essa é a oportunidade que tenho de mostrar o Cruzeiro hoje, essa nova gestão e essas novas diretrizes de trabalho nacionais e internacionais. Só que também sei da responsabilidade de falar em nome desse clube, onde fui formado e que está passando por problemas, mas está reagindo.

Você vai ter alguma influência nas decisões do futebol?

Esse é outro diferencial do Cruzeiro, da nova gestão. Aqui não tem nada separado de um núcleo para o outro. Aqui é tudo mundo junto, de acordo com o que tem que ser feito, claro. E se eu puder contribuir com o Deivid (diretor técnico de futebol), é claro que vou contribuir. Quanto a isso não tem problema nenhum não, a gente conversa direto sobre isso, eu e o Deivid.

Se dentro de campo as coisas não estiverem indo bem, isso atrapalha na sua função?

Não tem que se pensar dessa maneira. Claro, o time estando bem as coisas são mais fáceis, o futebol é assim. Só que essa nova gestão toma um caminho diferente. Estamos criando possibilidades de se trabalhar de uma maneira efetiva também nos momentos ruins dentro de campo. É o futebol. Infelizmente, pode acontecer, mas já tenho uma experiência e uma vivência nisso. Estamos trabalhando numa gestão de crise, e é preciso saber trabalhar desse jeito, pelas dívidas que tem, pelos problemas causados pela última gestão.

Estadão
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