Pastor revela como começou a conversão de Daniel Alves após prisão: "A bíblia diz"
Especialista justifica relato de pastor sobre o ex-lateral como um arquétipo recorrente de redenção no meio evangélico
"Ele me contou que teve um encontro com Jesus na prisão". A frase é do pastor hondurenho Jimmy Martín e explica como Daniel Alves iniciou seu movimento em grandes eventos evangélicos após deixar a prisão na Espanha. Absolvido pelo Tribunal Superior de Justiça da Catalunha após condenação em primeira instância por agressão sexual contra uma mulher de 23 anos, o ex-lateral transformou sua conversão religiosa em um testemunho público.
Foi justamente Martín quem deu ao brasileiro o primeiro grande espaço para relatar sua mudança de vida. Segundo o pastor, Alves já frequentava pequenas congregações, mas a projeção ganhou corpo na igreja Elim: "Ele já havia frequentado igrejas menores, né? Mas ali que tudo realmente decolou, onde explodiu", contou ao El País.
A decisão de colocar o ex-jogador no púlpito, porém, gerou questionamentos. "O que um cara acusado de estuprar uma mulher está fazendo aqui?", disse Martín ao recordar as críticas recebidas pela presença do ex-lateral na igreja. Ainda assim, o pastor defende a participação do ex-atleta baseado na decisão judicial que anulou a condenação.
"A Bíblia diz que toda a autoridade na Terra foi dada por Deus", declarou.
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Apesar das críticas, Martín sustenta que sua igreja é um espaço aberto e comprometido com a defesa do público feminino. "Minha posição é clara: somos 100% defensores das mulheres. Eu, por exemplo, tenho três filhas", concluiu o pastor.
Como o pastor conheceu Daniel Alves?
Martín conta que conheceu Alves durante uma ação de distribuição de Bíblias em Barcelona. O ex-jogador, segundo ele, relatou ter vivido uma experiência de fé durante os 14 meses em que esteve preso. Pouco tempo depois, o pastor o convidou para compartilhar seu testemunho em um culto realizado em outubro do ano passado.
Embora insista que levar uma figura pública tão controversa para a igreja "não foi uma jogada calculada", Martín admite que a presença do brasileiro alterou a percepção sobre a congregação. Ele revelou que uma autoridade local em Girona o procurou após a visita do ex-lateral.
"Disseram-me: 'Depois da visita de Dani Alves, a igreja cresceu. Mais pessoas estão vindo agora'", relatou o pastor.
Desde então, o ex-jogador ampliou sua presença no meio evangélico. Ele participou de celebrações em diferentes países, incluindo um culto para mais de 35 mil pessoas no Estádio Metropolitano de Madri, em menos de seis meses após a absolvição. O pastor, porém, disse que a pregação mais impactante ocorreu em Guatemala, quando Alves falou sobre sua conversão.
Modelo recorrente no meio evangélico
Para o antropólogo Antonio Montañés Jiménez, estudioso das religiões ligado à Universidade de Oxford, a trajetória do brasileiro se encaixa em um modelo recorrente no universo evangélico: o da redenção de figuras públicas marcadas por um passado controverso.
"Muitos líderes e pastores têm um passado semelhante. Quanto pior a pessoa que você era antes, mais cristão você é agora, maior o impacto da sua história", afirma o pesquisador.
Segundo Montañés, o testemunho público de conversão costuma deslocar o debate para uma dimensão espiritual e reduzir o espaço para discussões sobre responsabilização social. "Alves buscou o perdão de Deus, mas não um ato social de reparação para com a vítima. É muito perverso", diz o antropólogo.
Salários por doações e impacto no futebol
O pesquisador também destaca que a capacidade de atrair fiéis é um elemento central para a sobrevivência das igrejas evangélicas. "Os salários dos pastores são determinados pelas doações dos fiéis. O sucesso depende inteiramente da capacidade de atrair pessoas. Por isso, é importante que tenham carisma e se comuniquem bem", afirma.
O caso de Daniel Alves, na avaliação de especialistas, também se insere em uma relação já consolidada entre o futebol brasileiro e o meio evangélico. Jogadores como Neymar, Kaká e Roberto Firmino fizeram da fé parte de suas trajetórias públicas.
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