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Como a Coreia do Norte vem dominando o futebol feminino de base

7 set 2026 - 15h21
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Resumo
A Coreia do Norte consolidou seu domínio no futebol feminino de base como estratégia de Estado para projetar sua soberania internacional e reforçar a propaganda do regime comunista. O país foca na base por ser mais fácil reduzir a distância técnica em relação às potências globais, aplicando treinos altamente disciplinados desde cedo. Para as jovens atletas, o sucesso esportivo representa benefícios transformadores, como residência e moradia em Pyongyang, mudando drasticamente suas vidas.

Jovens jogadoras norte-coreanas chegam à Copa do Mundo sub-20 na Polônia como atuais campeãs. O título de 2024 foi o terceiro da equipe. O que explica o bom desempenho do time na modalidade?Há um ano, a seleção feminina de futebol da Coreia do Norte defendeu com sucesso seu título da Copa do Mundo sub-17, após vencer a Holanda por 3 a 0 no Marrocos. Foi a quarta vez que o país conquistou a competição.

Agora, a seleção sub-20 do país chega à Copa do Mundo na Polônia como atual campeã, tendo conquistado seu terceiro título mundial em 2024. As jogadoras norte-coreanas consolidaram de maneira indubitável seu status como a força dominante no futebol feminino de base.

Mas o que faz com que um Estado que, segundo as Nações Unidas, "não tem paralelo no mundo contemporâneo" seja tão bom no futebol de base?

"O esporte internacional é uma das poucas formas de demonstrar sua soberania, existência e identidade à comunidade internacional; portanto, esse tipo de sucesso é, do ponto de vista deles, uma oportunidade importante para exibir a bandeira nacional diante do público internacional", explicou à DW o Dr. Jung Woo Lee, professor sênior de Políticas de Esporte e Lazer da Universidade de Edimburgo.

"Ao mesmo tempo, internamente, a Coreia do Norte frequentemente utiliza o esporte como ferramenta de propaganda para glorificar seus líderes e exaltar a grandeza do país."

Estratégia clara e consciente

O futebol é popular no país, mas, reconhecendo que é muito mais difícil superar a diferença de nível para a elite no futebol profissional adulto do que nas categorias de base, os líderes norte-coreanos voltaram sua atenção para o futebol feminino de base, onde essa lacuna é mais administrável. É também por isso que esse sucesso não se traduziu em benefícios para a seleção principal ao longo dos anos. Essa estratégia não busca promover um desenvolvimento de longo prazo; o objetivo é vencer.

"A diferença entre clubes consolidados e clubes em desenvolvimento também é grande porque, em muitos países europeus, existem ligas profissionais e os clubes recebem mais apoio de diversas partes interessadas", afirmou Lee.

"No futebol de base, acredito que as organizações esportivas europeias enfatizam mais a diversão ao jogar. Já na Coreia do Norte, mesmo aos 13 ou 14 anos, os jovens ingressam em regimes de treinamento extremamente disciplinados, sistemáticos e profissionalizados, o que lhes permite se destacar desde cedo."

No Marrocos, a seleção norte-coreana sub-17 sofreu apenas três gols em todo o torneio e marcou três ou mais gols em quatro partidas. Esse desempenho deu continuidade à boa fase da equipe, em 2024, por exemplo, a seleção feminina sub-20 não apenas goleou a Argentina por 6 a 2, como também conquistou três vitórias consecutivas por 1 a 0, das quartas de final em diante, para se sagrar campeã do torneio.

Com o apoio da Escola Internacional de Futebol de Pyongyang - onde as jovens são selecionadas, desenvolvidas e educadas segundo uma abordagem altamente disciplinada e científica -, a Coreia do Norte identificou uma oportunidade e soube apriveitá-la.

Propaganda do regime e privilégios

Aos olhos da Coreia do Norte, isso também representa uma vitória para o próprio Estado.

"É preciso lembrar que a Coreia do Norte ainda mantém um regime socialista e comunista muito forte", explicou Lee. "Especialmente sob o comando de Kim Jong-un [ditador norte-coreano], eles tentam comparar os regimes capitalista e comunista, apresentando o regime comunista como superior. Além disso, ao observar a cobertura sobre o desempenho esportivo norte-coreano na imprensa do país, é possível notar uma ênfase no fato de que, por estarem sob um regime comunista, os atletas fazem o que for preciso, mesmo quando estão fisicamente exaustos.

"Eles comparam diretamente essa mentalidade com a dos países capitalistas. No capitalismo, quando os atletas estão fisicamente exaustos ou lesionados, não há como continuar competindo; eles precisam ser substituídos pelo técnico. Mas, nos sistemas socialistas, a força de vontade é mais importante do que a opinião profissional do técnico ou da equipe médica. Dessa forma, a Coreia do Norte apresenta esse modelo como um sistema superior."

Esse fator psicológico parece ter conferido uma vantagem à equipe, mas, além do forte sentimento de patriotismo e de anos de trabalho disciplinado, há também a perspectiva de recompensas capazes de transformar vidas

"Embora muitas vezes vejamos a Coreia do Norte como um país bastante subdesenvolvido, essencialmente agrícola e com uma população que enfrenta privações, a realidade de quem vive em Pyongyang é bem diferente. Essas pessoas são, de certa forma, privilegiadas", explicou Lee.

Como incentivo, segundo ele, o regime pode conceder às jogadoras que vivem fora da capital certificados de residência, documento necessário para residir em Pyongyang. Além disso, muitos atletas recebem apartamentos.

Essa motivação não deve ser subestimada. A vida nas áreas rurais da Coreia do Norte é dura, com relatos frequentes de escassez de alimentos e de assistência médica precária. Viver na cidade grande é uma realidade bem diferente.

"É uma maneira de mudar de vida. É como ganhar na loteria, de certa forma", explicou Lee.

O que vem a seguir para as campeãs?

Para jogadoras de destaque como Yu Jong-hyang, artilheira da Copa do Mundo sub-17 de 2025, ou Choe Il-son, peça-chave nas conquistas das Copas do Mundo sub-17 e sub-20 em 2024, a reação imediata é imaginar qual time da WSL (primeira divisão do futebol inglês feminino) ou da NWSL (primeira divisão dos EUA) tentará contratá-las; no entanto, isso seria ignorar o contexto em que elas vivem e jogam.

"Não acho impossível, mas também não é tão simples", disse Lee sobre a possibilidade de qualquer uma dessas atletas de destaque jogar no exterior.

"Antes de tudo, há as sanções econômicas impostas à Coreia do Norte", observou. Além disso, houve alguns casos em que jogadoras norte-coreanas ingressaram em uma liga europeia de basquete, mas "o salário não era enviado para a conta pessoal da atleta ou do agente, mas sim para uma conta do governo norte-coreano; então, acredito que esse seja mais um fator de complexidade".

Embora muito sobre essas equipes - assim como sobre o país - permaneça envolto em mistério, é inegável que o sucesso nas categorias de base sempre fez parte do plano.

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