Técnico argentino vira auxiliar e vê Magnano como "estrela" do Brasil
- Henrique Moretti
- Direto de Foz do Iguaçu*
Sergio Hernández é daquelas pessoas que gostam de falar. No hotel de Foz do Iguaçu onde a seleção argentina de basquete se concentrava para o torneio amistoso Super Four, ele cumprimentava todos os dias, seja na hora do café da manhã, do almoço ou do jantar, os jornalistas brasileiros os quais já conhecia de outros tempos, tempos nos quais era o treinador da equipe alviceleste.
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Sucessor de Ruben Magnano e medalhista de bronze na Olimpíada de Pequim 2008, Hernández não é mais o técnico da seleção. Em 2012, porém, dois anos após deixar o cargo porque estava desgastado e queria um contrato mais curto do que o oferecido pela Confederação Brasileira de Basquete (CBB), aceitou o convite do treinador Julio Lamas para voltar, desta vez como assistente.
Ao Terra, Hernández admite que o retorno para ser "subordinado" soa "estranho", mas coloca os Jogos Olímpicos de Londres acima de tudo. "A ideia é somar forças, pondo a equipe acima dos egos individuais", explica Lamas, que tem um discurso semelhante ao do colega.
Curiosamente, era Julio o auxiliar na campanha em Pequim, mas agora a situação mudou. Apesar da gastroenterite com a qual sofria, que o impediu de ir ao Ginásio Costa Cavalcanti acompanhar a final do Super Four nesta quinta-feira, Sergio concedeu à reportagem a entrevista exclusiva que havia prometido durante a semana. Falou ainda sobre o último de seus seis títulos nacionais (vencido exatamente contra Lamas), a forma como Magnano mudou o estilo de jogo da Seleção Brasileira e a possibilidade de trabalhar no Brasil ¿ a qual já teve, com o Flamengo, em 2010.
Hernández deixa Foz não tão bem de saúde e a Argentina tampouco, já que foi dominada pelo Brasil por 91 a 75. Até o início da Olimpíada de Londres, no entanto, ainda há duas semanas para ambos se recuperarem. E quem sabe trazerem mais uma medalha na possível despedida da ¿Geração Dourada¿ que triunfou em Atenas 2004.
Confira a entrevista com Sergio Hernández, auxiliar técnico da seleção argentina de basquete:
Terra: Você foi treinador da seleção argentina entre 2005 e 2010 e neste ano retornou para ser auxiliar técnico de Julio Lamas. Você admite que para quem vê de fora isso é um pouco estranho? Imaginaria Diego Maradona voltando à seleção de futebol como assistente de Alejandro Sabella?
Sergio Hernández: Não, definitivamente (sorri). É verdade que é estranho, muito estranho, sobretudo em países onde o futebol é o esporte número 1, como Argentina e Brasil. Eu não digo que o futebol seja ruim porque não fazem isso, cada um faz o que quiser, porém não se entende muito. No basquete se fez isso em muitos lugares. Agora fui ao Pré-Olímpico de Venezuela e o assistente da República Dominicana é (Dell) Harris, que treinou na NBA durante muitos anos, dirigiu o Los Angeles Lakers. Creio que o mais importante é somar forças, somar os melhores auxiliares que crê o treinador principal, com experiência, especialistas em determinados trabalhos, porque o mais importante é dar o melhor aos jogadores: a melhor informação, o melhor treinamento, o melhor planejamento. Então a seleção é o mais alto. Assim como alguém busca o melhor jogador, também busca o melhor assistente. O melhor nunca se sabe quem é, porém para a confederação argentina o melhor treinador é Lamas. E para Lamas os melhores assistentes são Gonzalo Garcia e eu. Ele ofereceu o cargo e como temos a mesma ideia e Julio já foi meu auxiliar em Pequim 2008, então ele se sente mais tranquilo tendo um assistente como eu, que estive nos dois últimos Mundiais e na última Olimpíada. Há treinadores muito bons na Argentina, mas não têm essa experiência de estar lá dentro, ter dirigido esses jogadores. Julio crê que essa informação que eu tenho seja muito importante. E aqui estou.
Terra: O que mudou da sua equipe para a equipe de Julio?
Sergio Hernández: Primeiro mudaram alguns jogadores. Hoje (o time) depende muito mais do jogo perimetral, e na minha época (Luis) Scola e (Fabricio) Oberto eram dois dos melhores do mundo no jogo interior, hoje não temos esse conjunto, então dependemos muito mais do que podem fazer os perimetrais. Julio agrega muito a defesa por zona, à qual não recorro quase nunca, mas a ideia principal é a mesma, não? Ter uma equipe que não joga baseada em seu físico porque não o tem, comparados com o resto do mundo somos pequenos, somos frágeis fisicamente. Então temos de jogar baseado na inteligência, no jogo coletivo, e nisso nós dois somos iguais.
Terra: No fim de maio você se sagrou campeão argentino com o Peñarol de Mar del Plata batendo no playoff final por 4 a 2 o Obras Sanitarias, então comandado por Lamas. Como era essa rivalidade entre o treinador e o auxiliar da seleção?
Sergio Hernández: Até esse momento éramos rivais. Ele estava em uma equipe e eu em outra, os dois queríamos ganhar. Se ele me tem como assistente ele tem de querer que eu queira ganhar cada partida; e se ele é meu treinador chefe, também quero que ele queira ganhar de mim, senão desconfiaria. Não seria bom saber que a alguém não importa ganhar ou perder. Foi uma briga forte, uma final dura, e saiu para Peñarol, porém não há um antes e depois disso. Sabíamos que podia ser assim, não foi a primeira vez que jogamos uma final, e não foi muito diferente. Para as pessoas sim, mas para nós não.
Terra: Poderíamos dizer que você, Julio e Ruben Magnano são os três melhores treinadores da história argentina?
Sergio Hernández: É... (demora para responder), teria que ver. Acho que o principal treinador da história argentina é León Najnudel, que foi quem criou a Liga Nacional. Porque há coisas mais importantes que o resultado de um torneio. Você sabe quem é, como se escreve? (Escreve o nome de Najnudel, treinador morto em 1988 por leucemia, no bloco de notas do repórter). Para que você busque informações sobre ele porque é o número 1 ¿ depois viemos todos os demais. Em resultados, sim, Ruben, Julio e eu somos os mais importantes, mas só em resultados. Ou seja, há outros e houve outros técnicos muito bons na história e todos estamos atrás desse homem (Najnudel).
Terra: Sobre a Olimpíada de Londres, há uma sensação de despedida da "Geração Dourada", embora isso não esteja totalmente confirmado? De qualquer forma, Emanuel Ginóbili tem quase 35 anos.
Sergio Hernández: A seleção dourada está se despedindo faz quase dez anos (ri). Mas sim, dá-se a sensação de que este vai ser nossa última competição com todos juntos, com muitos jogadores da mesma geração, porém não há que se esquecer que já não estão Oberto, Pepe Sanchez, (Alejandro) Montechhia, (Hugo) Sconochini, (Rubén) Wolkowyski. Já passaram muitos jogadores e apareceram outros que foram bem também. Porque por exemplo (Pablo) Prigioni não esteve na medalha de ouro, Delfino não esteve em Indianápolis 2002 (vice-campeonato mundial), e agora são estrelas, então... Porém sim, são momentos especiais. E a Olimpíada é um momento especial para todos. Alegro-me por o Brasil estar nos Jogos Olímpicos outra vez, porque excede o esporte, está além de um resultado. É uma experiência de vida que todos teriam que ter alguma vez.
Terra: Em Pequim 2008 Ginóbili jogou, mas teve uma lesão na semifinal, contra os Estados Unidos, e não disputou a decisão de terceiro lugar, contra a Lituânia. Quatro anos mais velho você o vê melhor fisicamente?
Sergio Hernández: Há quatro anos ele teve um problema no torneio, uma entorse no tornozelo que o deixou de fora porque tinha o tornozelo assim (faz sinal de algo gigante com as mãos), porém estava bem. E no último Mundial não pôde ir (devido ao nascimento dos filhos gêmeos), na Turquia (em 2010, quando a Argentina foi a quinta colocada). E agora o vejo como se tivesse 20 anos. É um desses jogadores que você não pode entender, ele está em um grande momento.
Terra: E o Brasil como você vê? Já vi você dizendo que Ruben mudou a maneira de jogar, com uma defesa mais forte do que antes.
Sergio Hernández: Acho que quando alguém fala do Brasil tem que separar a Liga Nacional e a Seleção. Porque a Seleção há muito tempo já vem tentando jogar mais parecido ao basquete internacional, europeu. Com Helio Rubens havia melhorado muito na defesa, com Lula (Ferreira) jogaram bem, com Moncho Monsalve jogaram muito bem. E Ruben pegou a equipe com todas as suas estrelas na idade certa, com Tiago (Splitter), Nenê, (Anderson) Varejão, Leandrinho, Marcelinho Huertas... no melhor momento. E dá a eles sua ideia de primeiro a defesa, depois o jogo coletivo ofensivo e, conseguiu que jogadores que são estrelas no mundo como os que citei pensem só para equipe e não para eles mesmos. Porém creio que na Seleção Brasileira já fazia algum tempo que as coisas estavam sendo feitas bem, e Ruben terminou de definir, não? Bom, não terminou ainda, está tentando conseguir isso que todos querem, que é se colocar alguma vez no primeiro lugar do mundo ¿ outra vez, como estiveram na época de Oscar, Amauri e Marcel, etc.
Terra: Mas antes do Ruben Magnano vocês viam o Brasil menos perigoso do que é agora?
Sergio Hernández: Sempre vimos o Brasil perigoso (sorri). Porém sim, hoje tem um dos melhores treinadores do mundo, então é como se somasse um jogador estrela ¿ sempre você vai ser um pouco melhor. A combinação do talento brasileiro com a disciplina e o trabalho de Ruben está fazendo uma equipe de primeiro nível.
Terra: E para você é um pouco estranho ver Ruben defendendo outras cores que não as argentinas?
Sergio Hernández: Não, não, estamos acostumados. (Marcelo) Bielsa dirigiu o Chile (no futebol).
Terra: Mas o Chile não é o Brasil, né?
Sergio Hernández: Claro, se falamos do Brasil é outra coisa. Sim, pode ser, eu creio que para ele também pareceu estranho o primeiro dia que se viu com a roupa do Brasil (olha para baixo, apontando para a camisa). Mas somos profissionais e não vamos deixar de ser argentinos ou brasileiros porque trabalhamos para outro país. Isso se leva dentro de você, e a camiseta está para fora. Não há muito problema.
Terra: Como estão seus planos para a carreira? Quando tempo tem de vínculo com a seleção e seu clube?
Sergio Hernández: Com a seleção só para os Jogos (Olímpicos). Tenho um ano a mais de contrato com o Peñarol, e depois veremos. Gostaria de ter uma oportunidade internacional. Hoje meus filhos estão maiores, posso fazer isso que antes não podia, então seria uma oportunidade para sair um pouco da Argentina, desde que seja um salto de qualidade. Senão não.
Terra: Você já teve uma oferta do Flamengo, não é verdade?
Sergio Hernández: Sim, porém faz muito tempo. Esteve Gonzalo (Garcia) lá, hoje está (José) Neto, e lhe desejo o maior dos êxitos.
Terra: Mas uma oferta do Brasil seria...
Sergio Hernández: Sim, seria contemplável. O Brasil está crescendo muito como liga. Creio que está em seu melhor momento, crescendo muito rapidamente. Veria com bons olhos uma possibilidade seguramente. Porém teria que melhorar meu português (sorri).
Terra: Mas a Seleção também seria uma possibilidade?
Sergio Hernández: De quem?Do Brasil.
Sergio Hernández: Não, não! Ruben está aí, não? Não quero problemas.
* O repórter viajou a convite da Confederação Brasileira de Basquete (CBB)
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