Pedro Piquet: a vida entre a escola e as pistas da Fórmula 3
Filho de Nelson Piquet lidera sua primeira temporada na Fórmula 3; aos 15 anos, carreira nas corridas dividem espaço com aulas na escola e holofotes
Como se o sobrenome não deixasse claro o parentesco, Pedro Piquet é facilmente reconhecível nas pistas da Fórmula 3 Brasil. O carro que pilota para a equipe Cesário Racing é inspirado no modelo Brabham BT49 que Nelson Piquet pilotou para conquistar o título da temporada 1981 da Fórmula 1. E assim como acontecia com o pai na década de 80, Pedro também é constantemente visto andando na frente em 2014.
Em seu primeiro ano correndo nas categorias de monopostos, Pedro Piquet tem mostrado um aproveitamento de fazer inveja, vencendo seis das oito primeiras corridas disputadas na F3 - o aproveitamento era de 100% até este final de semana, quando ele teve problemas com a chuva em Interlagos e deixou de ocupar o topo do pódio pela primeira vez no ano. Favorito ao título da categoria, Pedro é o mais novo herdeiro da linhagem de Nelson Piquet, e não deve demorar para alçar voos mais altos – o que inclui corridas na Europa em pouco tempo.
Mas já não será em 2015. “Eu pretendo morar aqui no Brasil até terminar os estudos. Talvez (disputar) algumas corridas fora do Brasil ano que vem”, contou Pedro, 15 anos, em entrevista ao Terra. Sim, Pedro ainda está na escola – está no 10º ano da escola de sistema de ensino americano na cidade de Brasília, onde mora. E conciliar a carreira com a escola tem sido um dos desafios de sua rotina ao longo da temporada.
“Geralmente, depois de corrida, tenho dever de casa, porque eu falto uns dias. Aí uso esse tempo (depois da corrida) para fazer dever de escola (...). Eu pego as coisas (lição de casa) antes, ai acabo fazendo aqui (durante as provas), ou depois. Mas não é muita coisa, não. Os professores sabem que eu estou viajando para correr, não para as férias, então eles entendem”, comentou Pedro Piquet.
Não se pode esquecer, no entanto, que o “aluno” Pedro Piquet é ainda um piloto de corridas. Que acelera seu motor 4 cilindros Berta 2. 3L de 260 cavalos em pistas do Brasil, carregando um dos sobrenomes mais famosos do automobilismo mundial. Que tem a dura missão de deixar de lado o papel de “filho de Nelson Piquet” para convencer como competidor. Pedro não pode fugir disso.
Até aqui, tudo isso vem sendo superado com sucesso por Pedro. “Muitas pessoas falam do nome, que o sobrenome dá pressão, mas eu tento esquecer isso, tento só focar na pista e fazer o meu melhor trabalho possível. Abrir portas, acho que não. O resultado é que abre portas. O nome não faz nenhuma diferença”, conta Pedro, que tem em Nelson Piquet o pai, o ídolo e o conselheiro. “Ele tenta não interferir muito - nessas horas, ele entende que eu tenho que achar meu próprio caminho”, completou.
Em bate-papo com o Terra, Pedro Piquet comentou não apenas de sua rotina de adolescente ou do sobrenome Piquet - falou ainda do "ídolo" Michael Schumacher, do problema que teve com a Confederação Brasileira de Automobilismo, do desempenho na Fórmula 3 e dos planos para a carreira. Confira!
Terra - Pedro, como começa a semana pós-corrida de um piloto? Como é a sua segunda-feira pós-corrida?
Pedro Piquet - Geralmente vou para a escola, normal, como sempre. Faço uma massagem na segunda-feira para aliviar a tensão nas costas, porque sempre acabo o fim de semana de corrida meio mal. Aí arrumo minhas costas. Na terça, na quarta, na quinta, geralmente vou para a academia. Faço um treino mais aeróbico mesmo, para pegar resistência física. Para guiar carro, você não tem que ter força, tem que ter resistência. Geralmente, no meio (da semana), ando de kart uma ou duas vezes, para ficar com os reflexos em dia.
Terra – Então você não consegue descansar, ver TV, jogar vídeo-game, jogar futebol durante a semana?
Pedro Piquet - Não, faço isso também. Geralmente à noite. Mas quando eu tenho... Geralmente, depois de corrida, tenho dever de casa, porque eu falto uns dias. Aí uso esse tempo para fazer dever de escola.
Terra - Atrasa muita lição?
Pedro Piquet - Não. Geralmente eu pego as coisas antes, ai acabo fazendo aqui, ou depois. Mas não é muita coisa, não. Os professores sabem que eu estou viajando para correr, não para as férias, então eles entendem.
Terra - No final de semana de corrida, quando você viaja? Você viaja com a equipe?
Pedro Piquet - Se fosse viajar com a equipe, eu perderia muita aula. Geralmente eu viajo na sexta, porque treino na sexta. Volto no domingo, porque domingo acaba de manhã, então acabo almoçando em casa no domingo. Então o final de semana não é muito puxado.
Terra - Quando você chega ao final de semana de corrida, você tem algum ritual, alguma preparação, um momento seu?
Pedro Piquet - Tento ficar sozinho, meio calmo, ficar concentrado, pensando na pista. Gosto de dar umas três voltas na pista, até para ficar com a forma boa e para conhecer a pista. Mas não tem nenhum segredo.
Pedro Piquet - Acho que o nosso trabalho foi muito intenso no inicio da temporada, e até em 2013. A gente desenvolveu (o carro), eu treinei bastante, fiz as seis corridas na Nova Zelândia (pela Toyota Racing Series) que me ajudaram muito - o nível lá era bem alto. Acho que aqui é uma consequência do nosso trabalho.
Terra - Você vê alguma diferença do seu carro, alguma vantagem que você leva na preparação em relação ao outros pilotos?
Pedro Piquet - Os carros são todos iguais, os motores podem abrir... Tenho um engenheiro que é muito bom (Felipe Vargas), e eu trabalho muito bem com ele. A gente consegue acertar muito bem o carro para todas as corridas.
Terra - De certa forma, essa vantagem do inicio da temporada te dá mais tranquilidade ou te coloca mais em evidência?
Pedro Piquet - Acho que ganhar todas as corridas agora dá um pouco de pressão, porque você não pode cair o nível. Tem que continuar com nível alto. Mas acho que levo do mesmo jeito. Quero tentar aprender o máximo possível para ir bem preparado para fora.
Terra - Você acha que o sobrenome Piquet te abre portas ou te coloca mais pressão? O que você sente?
Pedro Piquet - Eu não sinto nenhuma pressão. Muitas pessoas falam do nome, que o sobrenome dá pressão, mas eu tento esquecer isso, tento só focar na pista e fazer o meu melhor trabalho possível. Abrir portas, acho que não. O resultado é que abre portas. O nome não faz nenhuma diferença.
Terra - A relação com seu pai acaba sendo de pai e filho, de ídolo, de coach...?
Pedro Piquet - Acho que tudo junto, né? No final de semana, ele me ajuda muito. Ele já teve muita experiência nisso. E também ele tenta não interferir muito - nessas horas, ele entende que eu tenho que achar meu próprio caminho.
Terra - Ele é um ídolo seu, eu imagino.
Pedro Piquet - É, com certeza.
Terra - Você tem mais ídolos além dele? Gente que você admira, que gosta de ver correndo...?
Pedro Piquet - Eu admirava muito do Schumacher. Achava que ele era um cara bem concentrado, e ganhou tudo que tinha que ganhar. Mas tento não pensar muito nesse negócio de ídolo. Tento focar na minha carreira e tento levar minha carreira de um modo diferente.
Terra – Você já tem planos para as próximas temporadas - para quando correr no exterior, por exemplo?
Pedro Piquet - Ano que vem, a gente não se decidiu ainda. Mas tem que ver como vão estar os campeonatos no ano que vem. Eu pretendo morar aqui no Brasil até terminar os estudos. Talvez (disputar) algumas corridas fora do Brasil ano que vem.
Terra – Já por outra categoria, por exemplo, como uma Fórmula Renault 2.0 Alps...?
Pedro Piquet - Isso a gente tem que ver no ano que vem.
Terra - Você corre em uma equipe muito tradicional das categorias de base, que é a Cesário. Como foi essa conversa para acertar com eles?
Pedro Piquet - A Cesário sempre foi nossa primeira escolha. Sempre que eu falei com o Felipe (Vargas), eu falei: tem que ser a Cesário. Eles têm o melhor equipamento, a melhor estrutura. Até agora, eles estão retribuindo com vitórias.
Terra- A gente estava falando agora de correr no exterior, e você teve um problema na Nova Zelândia. Já está tudo resolvido, não tem mais problema?
Pedro Piquet - - Já, já. Foi um problema de idade, um mal-entendido com a CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo). Fiquei feliz por ter feito as seis corridas lá e ter aprendido bastante.
(Nota da redação: no começo de 2014, Pedro Piquet estava na Nova Zelândia para correr seis provas da Toyota Racing Series. Como ainda não tinha 16 anos, idade mínima para disputar a competição, conseguiu uma licença especial dada pela própria CBA. No entanto, diante de solicitação da FIA, a CBA cassou a licença do piloto, devolvendo-a pouco depois. Em nota, a confederação pediu desculpas pelo mal entendido.)
Terra - Você está com 15 anos. Você pega o carro escondido, seu pai já deixa você pegar o carro para dar uma volta na rua?
Pedro Piquet - Não, de jeito nenhum. Meu pai não deixa, é bem responsável com esse negócio. E eu nem gosto, porque chamaria muito a atenção.
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