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Na Garagem: Lauda fica preso em bola de fogo após acidente terrível no GP da Alemanha

Niki Lauda perdeu o controle da Ferrari logo no começo da corrida em Nürburgring e sofreu um dos acidentes mais marcantes da história da Fórmula 1

1 ago 2021 04h02
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Há exatos 45 anos, um acidente mudou a trajetória de Niki Lauda
Há exatos 45 anos, um acidente mudou a trajetória de Niki Lauda
Foto: AFP / Grande Prêmio

Certos momentos no esporte se tornam clássicos instantâneos. São assim grandes corridas, no caso do esporte a motor, grandes batalhas, vitórias que podem ser adjetivadas até as páginas finais de dicionários. 'Clássico', na verdade, tende a ter conotação positiva. Mas são clássicos, também, momentos que marcam épocas, que se ficam guardados para o futuro e a posteridade como uma fotografia de um tempo. E os tempos podem ser turvos, podem ser tristes e de derrotas. Na Fórmula 1, alguns acidentes são clássicos. E um deles faz aniversário neste domingo, 1º de agosto. Num domingo como este, 1º de agosto tanto quanto, Niki Lauda perdeu o controle do carro no GP da Alemanha em Nürburgring. A Ferrari acertou em cheio o guard-rail, virou bola de fogo e transformou tudo que aconteceu depois em matéria inesquecível. Tudo há 45 anos.

Cada passo daquele acidente, causas e consequências, são parte da memória do esporte. Mas antes de chegarmos à Alemanha é preciso entender um pouco mais daquele campeonato.

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Niki Lauda na Alemanha logo antes do acidente
Niki Lauda na Alemanha logo antes do acidente
Foto: Reprodução/Pinterest / Grande Prêmio

O ANO DE 1976

Lauda entrava na temporada como defensor do cinturão. Campeão pela Ferrari em 1975, era o favorito de maneira absoluta desde o momento em que Emerson Fittipaldi tomou a decisão de deixar a McLaren e tocar uma equipe brasileira no grid. Por mais marcante em seus próprios méritos aquela decisão pudesse ser, tirava o bicampeão do assento em que tinha condições de incomodar pelo título. Sem um piloto para assumir imediatamente a disputa pelo caneco, a McLaren foi convencida pelo lóbi da patrocinadora Marlboro a contratar James Junt. Assim, fez.

Apesar de bons resultados esporádicos, Hunt jamais figurara numa grande equipe e tinha estilo de piloto indomável tanto dentro como fora das pistas. Era uma incógnita o que conseguiria fazer num dos cockpits mais desejados da F1.

Hunt até começou mostrando como era rápido. Foi pole nas duas primeiras corridas do ano, mas Lauda venceu ambas, no Brasil e na África do Sul. O companheiro de Ferrari, Clay Regazzoni, ganhou a terceira, no GP do Oeste dos Estados Unidos.

O conflito real que serve como marco da entrada de Hunt no campeonato apareceu no GP da Espanha, em Jarama, quarta etapa do campeonato. Novamente, Hunt fez a pole - e foi ultrapassado por Lauda na largada, como nas primeiras provas. Mas a Ferrari tinha problema na transmissão e diminuiu o ritmo. James ultrapassou e venceu pela primeira vez nas corridas oficiais do campeonato de 1976 - tinha levado a melhor nas duas provas que não fizeram parte oficialmente do Mundial. Lauda ficou em segundo.

Apareceu, contudo, um importante porém: as inspeções pós-corrida concluíram que o carro da McLaren estava 1,5 cm mais largo que o permitido segundo as então recentes novas regras esportivas. Hunt foi desclassificado, e a vitória ficou com Lauda. A McLaren imediatamente apelou para mudar o resultado da corrida, mas, enquanto isso, a F1 foi para a Bélgica, onde Lauda venceu de ponta a ponta e Hunt abandonou com quebra de câmbio. Depois, Mônaco: Lauda venceu mais uma e Hunt abandonou outra vez, agora por problemas no motor. No GP da Suécia, a Tyrrell roubou o protagonismo e fez dobradinha com o carro de seis rodas e vida curta.

Até ali, sete corridas haviam passado e ainda que o GP da Espanha estivesse sub-judice não havia muito um campeonato. Lauda disparara, tinha 55 pontos contra 23 do vice-líder Jody Scheckter, da Tyrrell, com um modelo de carro que seria banido logo em seguida. Hunt tinha oito pontos. A diferença entre eles era de 47 tentos e mesmo que a decisão da Espanha fosse alterada seria de 32 tentos.

Mas Hunt venceu o GP da França e Lauda deixou a corrida com problemas no carro. Dias depois, o apelo da McLaren foi aprovado, cancelou a desclassificação e devolveu a vitória da Espanha ao inglês. A diferença caíra, mas o tapetão daria novo 'olá' na prova seguinte.

Na Inglaterra, Regazzoni tocou o companheiro de Ferrari na largada, fez Lauda rodar e fez com que destroços de carro ficassem espalhados pela pista. Hunt e Jacques Laffite também se envolveram e, com a pista suja, a direção de prova acionou bandeira vermelha. Outra situação foi posta: os pilotos não poderiam relargar com carros reservas - que Regazzoni e Laffite fizeram assim mesmo e foram desclassificados. Seriam barrados também os que estavam fora da corrida no momento da interrupção. Hunt tivera o carro empurrado por mecânicos e passaram por um trecho da pista que não fazia parte do traçado utilizado pela Fórmula 1 em Brands Hatch.

Inicialmente, os comissários deixaram que todos relargassem. Hunt venceu, para delírio do público, que não via uma vitória nacional no GP da Inglaterra desde os anos 1950, mas Ferrari, Tyrrell e Copersucar protestaram. Demoraria algum tempo, mas Hunt seria desclassificado da prova. Lauda, pasmem, ficou com os pontos de vitorioso.

Duelo entre Lauda e Hunt na Espanha
Duelo entre Lauda e Hunt na Espanha
Foto: Reprodução/Pinterest / Grande Prêmio

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O INFERNO DE LAUDA

O GP da Alemanha era a décima etapa do Mundial. Já quarto décadas e meia após a corrida, já é caso conhecido que Niki Lauda apelou para que a Fórmula 1 não corresse naquela pista.

Na bucólica versão de Nürburgring, entre as montanhas de Eifel, a pista definitivamente havia se tornado estreita e perigosa demais para os monstros de velocidade que os carros se tornaram àquele ponto dos anos 1970.

"Eu disse: 'Os carros vão ser rápidos demais. Este circuito não pode ser mantido com os padrões atuais. Não acho que devemos correr lá'. Falamos sobre, e responderam que haviam assinado um contrato de três anos com Nürburgring e aquele era o terceiro ano numa versão modificada da pista. Os pilotos votaram sobre isso, e eu perdi, porque os outros caras mantiveram que tinham de respeitar o acordo de três anos", contou Lauda anos mais tarde.

O domingo viu mais uma largada ruim do outra vez pole-position James Hunt. Regazzoni tomava a ponta, mas o clima era uma questão. A chuva de antes da prova dava lugar a um traçado bem mais seco na hora da partida e, assim, a uma correria imediata para trocar os pneus de chuva por slicks - Niki foi um dos que trocou. Logo na segunda volta, Lauda perdeu o controle do carro, saiu da pista e bateu violentamente contra o guard-rail, virando uma bola de fogo instantânea e retornando à pista.

Não se sabe ao certo o que fez Lauda perder o controle da Ferrari, já que o piloto jamais recuperou a memória dos momentos imediatamente anteriores ao acidente, mas a suspeita é que tenha sido uma quebra de suspensão traseira ou aquaplanagem num trecho ainda molhado.

Niki Lauda em Nürburgring (Foto: Nürburgring Media)

Após voltar à pista, Lauda ainda foi acertado pela Surtees de Brett Lunger e rodou. O próprio Lunger, sem maiores lesões, foi um dos pilotos a partir em direção ao austríaco na tentativa de tirá-lo do incêndio impávido daquela Ferrari: Harald Ertl e Guy Edwards também apareceram, mas foi Arturo Merzario quem conseguiu extrair o colega.

"Merzario, o cara italiano, parou porque eu bloqueei a pista, veio ao meu carro, abriu meu cinto de segurança e me tirou do carro. Foi inacreditável", relatou.

Mas a espuma do capacete de Lauda escorregou para fora da proteção e deixou o rosto do campeão mundial exposto. Mesmo com queimaduras graves, fraturas faciais e muita fumaça tóxica inalada, deixou o cockpit consciente e caminhando por conta própria. A situação era crítica mesmo assim.

A corrida foi interrompida. De helicóptero, Lauda foi levado direto ao hospital Bundeswehr, na cidade de Koblenz. De lá, foi encaminhado para a Clínica Traumatológica de Ludwigshafen, especialista em queimaduras. Nos dias posteriores, esteve com a vida em risco, tanto que chegou a receber a extrema-unção enquanto esteve em coma. Por conta da fumaça, pulmão e sangue sofreram danos. O fogo tirou a maior parte da orelha, o cabelo, sobrancelha e cílios do lado direito. Pelo resto da vida, foram pouquíssimas as vezes em que apareceu publicamente sem boné.

Mesmo com as probabilidades contrárias e em sério risco de morte, o cérebro invejável de Lauda não sofreu danos. Dias depois, o austríaco perguntava à equipe médica quando voltaria a correr. Daí em diante, o retorno às pistas estava em contagem regressiva.

Em Nürburgring, com praticamente todos os carros reunidos no local do acidente, uma vez que não havia como passar, a direção de prova definiu que continuaria o evento. Chris Amon decidiu não participar e outros acidentes foram registrados com Ronnie Peterson, Patrick Depailler e Vittorio Brambilla, mas Hunt partiu para a vitória.

Lauda estava certo: Nürburgring se tornara problemática demais para a F1, ao menos naquele formato. E não apenas pela velocidade dos carros em pista tão estreita: ainda que o carro de resgate fosse um Porsche 911 equipado, o tamanho da pista, com voltas bem maiores de 7 minutos, tornava o atendimento altamente dramático. Não fosse o atendimento voluntário de outros pilotos, Lauda provavelmente não teria sido extraído do carro vivo pela equipe de segurança por conta da demora a alcançar aquele ponto do traçado.

No GP da Alemanha de 1976, a Ferrari de Niki Lauda pegou fogo após uma forte batida(Foto: AFP)

O DESFECHO

Era claro que Hunt tinha se encontrado e a McLaren fizera diversas evoluções no pacote de 1976. O carro era bom. Com Lauda fora de combate, passava a ser o favorito ao título mundial. Após a vitória na Alemanha, foi quinto na corrida da casa do rival, o GP da Áustria, quando novamente desperdiçou uma pole-position - John Watson ganhou para a Penske.

A Ferrari, sem Lauda e revoltada com a decisão da vitória da Espanha ser devolvida a Hunt - também numa pressão com relação à decisão sobre a Inglaterra, onde queria garantir a desclassificação de James -, ficou fora do evento austríaco.

Foi o bastante. Lauda convocou a imprensa, mostrou publicamente o rosto enfaixado e anunciou os planos de retornar ao cockpit no GP do Canadá, antepenúltima etapa do campeonato.

A questão é que Hunt se aproximava e não havia tempo a perder. Quando o inglês ganhou na Holanda e ficou somente três pontos atrás, a volta às pistas foi adiantada.

No dia 10 de setembro de 1976, exatos 41 dias após o acidente que quase colocou um ponto final em sua vida, Andreas Nikolaus Lauda estava de macacão e capacete, mesmo com o rosto repleto de queimaduras ainda vivas, para voltar ao trabalho. Fez os treinos livres da sexta, classificou melhor que Hunt no sábado e ainda ganhou um bônus: o rival foi desclassificado da tomada de tempos por conta de uma irregularidade com o combustível.

Lauda foi quarto colocado no GP da Itália e Hunt rodou sozinho e abandonou na brita. Uma grande vitória que, além do campeonato, tinha um elemento a mais: a rixa com o chefe de equipe Daniele Audetto, que assumira o cargo naquela temporada, quando Luca di Montezemolo foi promovido na Fiat. Audetto chegou a convidar Emerson Fittipaldi para a vaga de um ainda convalescente Lauda e contratou Carlos Reutemann, que deixara a Brabham após começo de temporada difícil. O argentino andou num terceiro carro na Itália, mas ficou fora no restante da temporada.

James Hunt durante o GP da Alemanha (Foto: McLaren)

Com o retorno na Itália e a desclassificação de James na Inglaterra oficializada, o GP do Canadá podia encerrar o Mundial a favor do campeão vigente. A McLaren, porém, crescia e Lauda ainda estava debilitado. Hunt fez o trabalho de casa no Canadá: pole e vitória. Voltou a vencer nos EUA e pôs a desvantagem em somente três pontos.

O GP do Japão chegava junto a um verdadeiro dilúvio em Fuji que complicava a realização da prova. Numa situação como aquela, os pilotos votaram sobre se deveriam ou não deveriam correr. Lauda era contra, mas, assim como em Nürburgring, foi voto vencido. A despeito da história daquelas tratativas apontar para Hunt lutar pela largada, o chefe da McLaren em 1976, Alastair Caldwell, deu outra versão da história no documentário When Playboys Ruled the World, de 2010.

"Estava chovendo loucamente, e James estava no comitê de segurança da Associação de Pilotos. Eles estavam argumentando a favor de não haver corrida e eu, claro, estava defendendo que houvesse a corrida, porque só poderíamos ganhar o campeonato se corrêssemos", apontou.

E, então, largaram. Encarar aquela espeça parede de neblina d'água era demais depois de tudo que Lauda passara em 1976. Ao fim da primeira volta, levou o carro aos boxes, estacionou e saiu do cockpit. Para ele, era o fim do campeonato. Sua vida não terminaria em Fuji 1976 numa corrida que, acreditava, sequer deveria acontecer. Com ele, Larry Perkins, José Carlos Pace e Emerson Fittipaldi, todos nas primeiras dez voltas, também preferiram abandonar.

"A decisão não foi difícil, porque o circuito estava encharcado. Havia tanta água que ninguém podia guiar. Foi completamente estúpido. Outros caras também não quiseram correr. James foi campeão, sem problemas. Quando você não foi afetado por um acidente, o risco que dá para aceitar é maior que no meu caso, que tinha acabado de escapar da morte", declarou muito tempo depois.

Foi com dramaticidade, porque Hunt perdeu posições conforme a chuva parou e a pista secou. Teve de parar nos boxes com pneu furado apenas dez voltas antes do fim, mas ainda conseguiu ultrapassar Alan Jones e Clay Regazzoni para terminar em terceiro e se tornar campeão mundial.

"Eu sinto muito por Niki, sinto muito por todos que correram nessas circunstâncias ridículas. As condições estavam perigosas, e eu respeito completamente a decisão de Niki. Depois de tudo o que enfrentou, o que mais poderia fazer? Eu senti que merecia vencer o campeonato. Também senti que Niki merecia vencer e gostaria que pudéssemos dividi-lo", falou Hunt ao fim da corrida.

James Hunt no dia do título, em Fuji (Foto: Reprodução/Pinterest)

"Se alguém mais devia ganhar aquele campeonato, fico feliz que tenha sido James. Eu gostava dele. Podíamos não ser íntimos, mas éramos amigos. Tomávamos conta um do outro de um jeito muito legal. Era de coração", abriu Lauda nos anos 2000.

Lauda, claro, voltou a ser campeão pela Ferrari em 1977 e conquistou o tri pela McLaren, em 1984, depois de voltar da primeira aposentadoria. Os problemas causados naquele acidente, entretanto, jamais se dissiparam completamente. Danos oriundos da respiração da fumaça tóxica do incêndio em Nürburgring forçaram dois transplantes de rins - em 1997 e 2005 - e um de pulmão - em 2018. Após a última cirurgia, Lauda deixou a vida pública uma vez por todas e morreu cerca de um ano depois, em maio de 2019, aos 70 anos.

Seus últimos anos de F1 foram como presidente não-executivo da Mercedes, protagonista na contratação de Lewis Hamilton no fim de 2012 e responsável por lidar com os pilotos ao longos da formação do domínio do time alemão.

Em 'Rush - No Limite', que contou a história de 1976 a toda uma nova geração, o duelo de personalidades e a briga por um campeonato cheio de idas e vindas ganhou um destaque extremamente merecido em narrativa hollywoodiana. Mas o que transformou o campeonato de 1976 em épico, para além de tudo isso, foi o que aconteceu há exatos 45 anos. O dia em que Niki Lauda deu uma volta no destino.

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