F1: A máquina de dinheiro montada pela Liberty Media
A administração da Liberty Media mudou a F1 e transformou a categoria numa máquina de fazer dinheiro mais possante do que nunca
Às vésperas do GP dos Países Baixos, a McLaren anunciou a extensão do acordo de patrocínio com a gigante dos cartões de crédito MasterCard. Não foi somente uma renovação, mas a McLaren passa a ostentar o nome da empresa em sua inscrição oficial, fazendo jus a um valor estimado em US$ 100 milhões anuais em 5 anos.
Não é somente a confirmação do sucesso esportivo e financeiro do time comandado por Zak Brown. Não foram poucos que fizeram a comparação entre o carro de 2018 (temporada em que Brown assumiu o timão) e o atual. Mas também são um retrato do sucesso do modelo construído pela Liberty Media.
Em oito anos à frente da F1, pode se dizer que, até aqui, o direcionamento feito pelos estadunidenses é impressionante, sendo um diferencial não só pelo lado esportivo, mas principalmente financeiro.
Após um estranhamento inicial por conta das grandes diferenças de pensamento e por uma abordagem diversa da anterior (sai Bernie Ecclestone e seu estilo direto de resolver as coisas e entra em cena uma grande corporação), equipes e os novos donos chegaram a um termo de ação.
Embora tivesse conhecimento no campo esportivo, a Liberty Media não subestimou o desafio: chamou gente de dentro da categoria para tocar a parte esportiva e começou a efetivamente entrar no campo digital, coisa que antes era vista como quase uma heresia.
Embora fosse enorme, a F1 tinha desafios impressionantes à sua frente: reduzir gastos, ser mais sustentável e renovar o seu público, sem esquecer dos tradicionais. Bernie Ecclestone foi certeiro ao aproveitar o grande desenvolvimento da TV e meios de comunicação entre os anos 70 e 90. Mas a receita de buscar um publico mais velho e “endinheirado” não cabia mais.
A Liberty Media foi trabalhando para buscar um modelo que fosse bom para todos. O primeiro desafio era a renovação do Pacto de Concórdia (que dita a parte comercial da categoria) e buscar um maior equilíbrio entre os times. O objetivo era manter a essência da F1, mas trazer elementos que permitissem uma disputa mais renhida (algo típico dos EUA).
A COVID-19 trouxe uma oportunidade: com a impossibilidade de ter corridas e imensos prejuízos se avizinhando, um senso de urgência tomou conta de todos. Se fechou uma revisão do acordo comercial para o período 21/25 e foram introduzidos 2 itens que muitos julgavam impensáveis...
Inicialmente, um teto orçamentário que cobria boa parte dos gastos e limitava a ação dos times mais endinheirados; e um esquema de uso de túnel de vento e desenvolvimento que poderia ser até considerado como um Balanço de Performance: Aqueles que fossem piores no Campeonato de Construtores, teriam mais tempo de desenvolvimento.
Junte isso a um esquema comercial mais agressivo, em busca de novos parceiros, renegociação de contratos com promotores e uma efetiva ação no mundo digital, se tornando mais inclusivo e vindo com força nas redes sociais. A evolução do faturamento foi impressionante, como pode ser visto aqui:
Um dos objetivos da Liberty Media era que a F1 fosse realmente sustentável financeiramente e permitir que as equipes pudessem ser efetivamente lucrativas. Neste campo, a melhor piada que era feita é que a melhor forma para se tornar milionário na F1 era ser um bilionário. Efetivamente, os times de ponta chegaram a gastar cerca de US$ 1 bilhão/ano nos meados dos anos 2000.
O teto orçamentário foi o grande achado. Após muita discussão, times, Liberty Media e a FIA chegaram a um acordo de que uma equipe de F1 não poderia gastar mais do que US$ 150 milhões inicialmente, incluindo gastos com pessoal e fabricação. Custos com motores e pilotos, por exemplo, ficaram de fora. Isso ajudou a tornar a categoria mais atrativa para as grandes marcas, especialmente as montadoras...
A galeria de imagens a seguir mostra os dados dos times até 2023. É notável a evolução e chama atenção a Mercedes: em 2024, o time teve um lucro de mais de 86 milhões de libras... A Ferrari não divulga seus dados detalhados, mas ela informou que a área de competições e licenciamentos teve um faturamento de US$ 572 milhões em 2023, até então o maior de sua história.
Todo esse sucesso se reflete na própria valoração dos times. Em 2020, a Williams foi vendida por US$ 200 milhões (valor vigente de "pedágio" para novos times conforme o Acordo Comercial vigente). No ano seguinte, um fundo norte-americano comprou 30% da McLaren por cerca de US$ 185 milhões. Estimativas do site Sportico dão conta que, em 2024, nenhum time da F1 valia menos de US$ 1 bilhão.
Mostras dessa valorização são as notícias de que a venda de cerca de 5% das ações restantes da Aston Martin que estavam ainda com a montadora renderiam cerca de US$ 160 milhões, o que levaria a supor que o time teria um valor estimado de mais de US$ 3 bilhões. Nesta semana, a Sky Sports divulgou que os novos controladores da McLaren estariam pensando em fechar o capital do time de corridas.
Falamos um pouco antes que 30% do time foi comprado em 2021 por US$ 185 milhões. As estimativas atuais é que esta mesma fatia seria equivalente a cerca de US$ 1,2 bilhões. Poucos investimentos no mundo dariam este tipo de retorno.
Como a própria Liberty Media: em 2017, gastou cerca de US$ 8,5 bilhões para comprar a F1 (entre desembolso e assunção de dívidas). Atualmente, o valor de mercado na Bolsa de Nova Iorque passa dos US$ 25 bilhões.
Por enquanto, não há limites para faturar: um novo Acordo Comercial está em vias de ser concluido e uma fila de patrocinadores e locais dispostos a receber a F1 se forma na porta da Liberty Media, que se prepara para incorporar a MotoGP a seu portfólio após a aprovação da compra da União Europeia. A F1 nunca fez tanto dinheiro e os times nunca cresceram tanto.