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As desculpas de Infantino — e como ele segue no comando da Fifa após admitir 'erros'

Em reunião, membros da diretoria da Fifa manifestam 'total apoio' a presidente da entidade, que pediu desculpas e garantiu que erros cometidos 'não voltariam a acontecer'.

6 ago 2026 - 07h38
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Gianni Infantino foi eleito presidente da Fifa pela primeira vez em 2016
Gianni Infantino foi eleito presidente da Fifa pela primeira vez em 2016
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O presidente da Fifa, o suíço Gianni Infantino, pediu desculpas pelos "erros" que cometeu envolvendo seu plano polêmico de venda de participações em competições para investidores privados, mas permanecerá como chefe da entidade após receber o apoio de executivos de alto escalão em uma reunião no Marrocos.

Infantino convocou os membros da diretoria para a sede da Fifa na África, em Rabat, na quarta-feira (05/08), após críticas crescentes às suas propostas de remodelar a estrutura das competições — que foram abandonadas. A entidade máxima do futebol mundial divulgou um comunicado de apoio a Infantino quatro horas após o término da reunião.

A Uefa, entidade que rege o futebol europeu, afirmou no fim de semana que perdeu a confiança em Infantino, classificando a proposta para criação da Fifa Forward Enterprise (FFE) como um "acordo obscuro, feito nos bastidores e sem qualquer transparência".

Muitas críticas vieram de dentro da própria Fifa, incluindo do secretário-geral Mattias Grafstrom, que estava presente na reunião de quarta-feira. Em um memorando interno enviado aos funcionários da Fifa na terça-feira, ele escreveu que a situação é "uma série de eventos tristes e repreensíveis".

No entanto, em um comunicado divulgado após a reunião, Grafstrom e o conselho administrativo "reafirmaram seu total apoio" a Infantino como presidente.

Infantino e Grafstrom também enviaram uma carta assinada — a qual a BBC teve acesso — aos vice-presidentes da Fifa, ao conselho e às 211 associações que integram a entidade, dizendo que "pedem sinceras desculpas" pelos seus erros e "se comprometem a que eles não voltem a acontecer".

Ambos foram fotografados assistindo juntos a uma partida da Copa Africana de Nações Feminina em Rabat após o encontro.

Infantino tinha oferecido a todas as associações US$ 40 milhões se elas apoiassem uma proposta de investimento privado em seus torneios, incluindo as Copas do Mundo masculina e feminina, por meio de uma nova subsidiária, a FFE, mas desistiu do plano após sua repercussão negativa.

A Fifa afirmou que durante a reunião de quarta-feira os "erros" relativos à FFE foram "reconhecidos", acrescentando que "não era a intenção" que o conselho da Fifa e a associação de membros "se sentissem excluídos do processo e que o processo deveria ter sido conduzido de forma diferente".

A entidade "reconheceu que erros também foram cometidos depois que a proposta vazou para a imprensa" — em reportagem publicada pelo jornal britânico Times em 28 de julho.

Muitas críticas a Infantino vieram de dentro da própria Fifa, incluindo do secretário-geral Mattias Grafstrom
Muitas críticas a Infantino vieram de dentro da própria Fifa, incluindo do secretário-geral Mattias Grafstrom
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

No entanto, o comunicado também afirmou que a organização "não tolerará mais quaisquer ataques à sua integridade, boa governança e devido processo legal e tomará todas as medidas necessárias para proteger e salvaguardar seu nome e reputação".

Anteriormente, a Fifa negou uma reportagem do Times de que Infantino teria prometido ao Marrocos que o país sediaria a final da Copa do Mundo de 2030 em troca de seu apoio.

A Fifa afirmou que se tratava de uma alegação "falsa e enganosa" e que uma decisão sobre onde se realizará a final, cujo torneio também será sediado por Espanha e Portugal, será tomada "em tempo oportuno".

Apoio interno após mais críticas

Infantino espera que isso marque o fim da mais recente, e talvez a maior, controvérsia que tem marcado seus 10 anos de mandato.

No entanto, essa demonstração de apoio por parte dos dirigentes da Fifa veio na sequência de críticas ainda mais contundentes.

O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, cujo país sediou a recente Copa do Mundo com os Estados Unidos e o México, disse que não tinha mais confiança em Infantino.

O ex-jogador do Barcelona, Real Madrid e da seleção portuguesa, Luís Figo, que concorreu à presidência da Fifa contra o antecessor de Infantino, Sepp Blatter, em 2015, antes de desistir da candidatura, pediu a renúncia imediata do dirigente suíço.

Figo disse: "Infantino desgastou o cargo que prometeu engrandecer".

"É tarde demais para salvar sua dignidade, mas não é tarde demais para salvar o futebol."

Luís Figo disse que Infantino "desgastou o cargo que prometeu engrandecer"
Luís Figo disse que Infantino "desgastou o cargo que prometeu engrandecer"
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Mas Infantino, de 56 anos, parece determinado a lutar pela reeleição para um quarto mandato.

Os rivais têm até 18 de novembro para apresentar suas candidaturas para concorrer contra ele. A eleição será realizada no Congresso da Fifa, no Marrocos, em março de 2027.

O vencedor precisa de 106 votos dos 211 membros da Fifa.

A Uefa pode ser decisiva no pleito. No fim de semana, a entidade que rege o futebol europeu afirmou ter perdido a confiança na liderança de Infantino e ameaçou entrar com uma ação judicial contra a Fifa. No início desta semana, várias associações retiraram o apoio à sua reeleição.

A Fifa também afirmou que, embora "erros tenham sido cometidos, tudo o que foi feito foi realizado em total conformidade com o quadro regulamentar da Fifa". E disse acreditar que os resultados da reunião "fortalecerão a governança da Fifa" e "restaurarão a confiança na organização".

Mas é pouco provável que essas declarações e a aprovação de um grupo de executivos amenizem a irritação da Uefa.

Como a Uefa poderia reagir?

A Uefa tem reagido rapidamente a cada reviravolta desde que o plano FFE de Infantino veio à tona — da rejeição inicial ao plano ao momento decisivo em que todas as suas 55 associações ameaçaram boicotar as competições da FIFA.

Mas a Uefa sozinha não consegue derrubar Infantino.

Desde que ele mudou de posição, apenas a Concacaf, enquanto confederação, criticou o presidente da Fifa. Mas, ao contrário da Uefa, não chegou a dizer que havia perdido a confiança nele.

Embora a confederação asiática tenha rejeitado o plano, não houve nenhuma declaração definitiva desde que Infantino o cancelou.

Fora da Europa, até agora apenas a Jordânia — uma das poucas associações entre as 211 que não assinaram uma carta de apoio à reeleição de Infantino antes desta controvérsia — pediu publicamente a sua saída.

A lista de países que manifestaram seu apoio é muito mais longa, principalmente na sólida base de poder de Infantino: a Ásia e a África.

Nos últimos dias, Egito, Marrocos, Níger, Mauritânia, República Democrática do Congo e Filipinas manifestaram apoio a Infantino.

Esses países se beneficiaram de financiamento através do programa Fifa Forward de Infantino, o precursor do FFE, na ordem de US$ 8 milhões em cada ciclo de três anos.

A Uefa precisa encontrar uma maneira de convencer esses países de que outro candidato à presidência pode oferecer os mesmos programas financeiros, mas com maior transparência e reformas.

Infantino, no entanto, já conquistou a lealdade deles.

Como Infantino pode dar a volta por cima?

Nenhuma das outras controvérsias recentes conseguiu atingir Infantino — desde a forma como a Arábia Saudita ganhou o direito de sediar a Copa do Mundo de 2034, até o Prêmio da Paz da Fifa concedido ao presidente dos EUA, Donald Trump, e o cartão vermelho suspenso do americano Folarin Balogun na Copa do Mundo.

Desta vez, a tentativa de vender uma parte dos direitos comerciais e de venda de ingressos das competições da Fifa foi a gota d'água para muitos.

Não só por causa dos danos à imagem da Fifa, mas também pelo fato de o plano ter sido mantido em segredo de outros membros importantes da hierarquia da Fifa e de o beneficiado do acordo ser Joshua Kushner — irmão de Jared Kushner, genro de Trump.

Joshua Kushner, irmão do genro de Donald Trump, teria sido um dos beneficiados pelo plano abandonado pela Fifa
Joshua Kushner, irmão do genro de Donald Trump, teria sido um dos beneficiados pelo plano abandonado pela Fifa
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Infantino perdeu apoio não só de algumas associações nacionais, como também de pessoas próximas a ele. Carlos Cordeiro, principal assessor de Infantino em estratégia global e governança, se demitiu em protesto contra o plano.

Outros que se mostraram críticos optaram por não apresentar suas renúncias, como Grafstrom, o chefe de desenvolvimento global do futebol, Arsène Wenger, e o diretor de operações, Kevin Lamour.

É provável que haja outros nos corredores do poder da Fifa que também tenham se mantido em silêncio.

Além disso, Infantino talvez tenha que traçar um plano de reforma.

Isso pode envolver a implementação de mecanismos adicionais de controle e equilíbrio que tornariam impossível a elaboração e apresentação de um plano semelhante desta forma novamente.

Quem sabe ele chega a engavetar seus planos para uma Copa do Mundo com 64 seleções ou a oferecer os bilhões de dólares que a Fifa acumulou com Copas para financiar diretamente programas de desenvolvimento do futebol?

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