Abertura dos Jogos Paralímpicos de Inverno terá boicote de delegações e não contará com porta-bandeiras
Em meio à guerra na Ucrânia, a autorização para que atletas russos e bielorrussos compitam sob suas bandeiras gerou críticas. O Comitê Paralímpico Internacional decidiu que voluntários irão carregar as bandeiras de todos os países durante o desfile, justificando dificuldades de deslocamento entre as cidades dos Jogos. O Brasil também não participará presencialmente da cerimônia de abertura, por motivo de logística.
Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão
Mais de 600 atletas, de 57 países, participam dos Jogos Paralímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026. Esta edição marca os 50 anos da primeira Paralimpíada de Inverno. Assim como nas Olimpíadas, as competições serão distribuídas entre diferentes cidades: Milão, Cortina d'Ampezzo e Tesero.
Ao todo, são seis modalidades em disputa, no entre elas esqui alpino, snowboard e hóquei no gelo. Em Milão, são esperados cerca de 73 mil espectadores, segundo estimativa do Centro de Estudos da Confcommercio Milano, Lodi, Monza e Brianza. Os preços dos ingressos chamaram atenção por serem relativamente acessíveis: 89% dos bilhetes custam menos de 35 euros (R$ 214).
Embora a abertura oficial esteja marcada para esta sexta-feira (6), algumas competições já começaram. Na quarta-feira (4) tiveram início as partidas de curling em cadeiras de rodas.
A cerimônia de abertura será realizada na Arena de Verona, um anfiteatro romano do século I, considerado Patrimônio Mundial da UNESCO. O local também recebeu a cerimônia de encerramento das Olimpíadas. O tema será "Vida em Movimento". O espetáculo busca destacar as transformações constantes ao longo da vida, segundo o diretor artístico do evento, Alfredo Accatino, em entrevista à agência italiana Adnkronos.
Entre os artistas confirmados estão Stewart Copeland, baterista e um dos fundadores da banda The Police, e o DJ italiano Miky Bionic, considerado o primeiro DJ do mundo a se apresentar usando uma prótese robótica mioeletrônica, após perder o braço esquerdo em um acidente.
Boicote à cerimônia de abertura
Ao menos 13 países anunciaram um boicote à cerimônia de abertura como forma de protesto, após o Comitê Paralímpico Internacional autorizar atletas da Rússia e de Belarus a competirem representando seus países. Também está autorizado que o hino nacional seja tocado em caso de vitória.
As delegações que anunciaram boicote são: Ucrânia, Canadá, Croácia, República Tcheca, Estônia, Finlândia, Alemanha, França, Letônia, Lituânia, Holanda, Reino Unido e Polônia. Alguns deles não enviarão representantes do governo para a cerimônia e outros não terão atletas participando do desfile.
Nos Jogos de Inverno, participarão seis atletas russos e quatro bielorrussos. Desde a invasão russa à Ucrânia, em 2022, atletas desses países só podiam competir como neutros.
Outra decisão também aumentou a tensão. Atletas ucranianos foram proibidos de usar o uniforme do país que traz estampado o mapa da Ucrânia, incluindo as regiões ocupadas pela Rússia. O comitê internacional considera que isso configura uma mensagem política, algo proibido nos Jogos. A delegação ucraniana precisou alterar os uniformes às pressas.
Em meio a todo esse impasse, o Comitê Paralímpico decidiu que voluntários carregarão as bandeiras dos países durante o desfile de abertura. Segundo o comitê organizador, a decisão foi tomada porque a distância entre Verona e os locais de competição dificultaria a participação dos atletas. Ainda assim, imagens dos atletas com as bandeiras foram gravadas nas vilas olímpicas e serão exibidas nos telões durante a cerimônia.
Por conta da distância, o Brasil também não participará presencialmente da cerimônia de abertura. A delegação está concentrada em Predazzo, no norte da Itália, e teria que se deslocar até Verona. O Comitê Paralímpico Brasileiro informou que a decisão foi tomada para preservar a preparação dos atletas, já que alguns deles competem já no sábado (7).
Cristian Ribera é a principal aposta do Brasil para conquistar medalha inédita
Nesta quarta participação em Jogos Paralímpicos de Inverno, o Brasil chega em um cenário favorável para levar a primeira medalha. O país terá a maior delegação da história. Serão nove atletas, que competirão em três modalidades: esqui cross-country, snowboard e biatlo.
O favorito a medalha é Cristian Ribera, natural de Rondônia. Ele é campeão mundial da temporada 2024/2025 no esqui cross-country, na categoria para atletas cadeirantes ou com deficiência nas pernas. Cristian realizou o primeiro treino na pista de Tesero nesta semana. A primeira prova será na terça-feira (10), na disputa do sprint clássico. Depois, ele ainda participará da prova individual de 10km e de duas provas de revezamento misto.
Esta será a terceira participação de Cristian em uma Paralimpíada. Ele nasceu com artrogripose, uma condição congênita que limita a mobilidade das articulações. Como no Brasil não há neve, ele começou a treinar utilizando esquis adaptados com rodas.
Outro destaque da delegação brasileira é a paranaense Aline Rocha, que vem se classificando entre as dez melhores nas competições de esqui cross-country nos últimos meses. Ela também competirá no biatlo. Aline foi a primeira mulher brasileira a disputar uma Paralimpíada de Inverno, em 2018. A atleta ficou paraplégica aos 15 anos, após um acidente de carro.