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Trumponomics: inflação, instabilidade e impactos globais

Ainda que os efeitos não tenham se manifestado plenamente até agora, há expectativa de que os preços subam de forma acelerada nos próximos meses, à medida que estoques forem renovados e repasses se tornem inevitáveis.

1 ago 2025 - 11h05
(atualizado às 15h54)
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O retorno de Donald Trump à presidência trouxe de volta uma agenda econômica familiar, porém mais agressiva — que agora ameaça desestabilizar tanto a economia dos EUA quanto a global. Desde os primeiros dias de mandato, seu governo sinalizou uma mistura explosiva de protecionismo, expansão fiscal e instabilidade institucional. Embora nem todas as medidas tenham sido implementadas, a simples sinalização já criou grande incerteza nos mercados, abalou a confiança dos investidores e lançou sombras sobre as perspectivas econômicas.

Instabilidade paralisa investimentos

O núcleo da visão econômica de Trump continua baseado em uma lógica mercantilista: a crença de que os EUA saem perdendo sempre que importam mais do que exportam. Com base nisso, em 2 de abril, data que Trump denominou "liberation day", foram anunciadas novas tarifas generalizadas, e chegou-se a ventilar a imposição de alíquotas de até 125% sobre produtos chineses e 10% sobre os demais países. O Brasil, mais recentemente, foi diretamente atingido com uma tarifa de 50% sobre exportações, sob justificativa inusitada de retaliação política. Embora nem todas essas medidas tenham entrado em vigor, seu anúncio já produziu efeitos relevantes.

Esse ambiente de ameaça constante e anúncios contraditórios gerou volatilidade nos mercados globais, queda em bolsas e elevação nas taxas de juros de longo prazo. O vai-e-vem nas decisões tarifárias, muitas vezes desmentido por outros membros do governo, gerou uma instabilidade que paralisou decisões de investimento. A teoria das opções reais deixa claro que empresários preferem esperar em contextos de incerteza elevada — e isso retarda o crescimento econômico.

Expectativa é que os preços subam de forma acelerada

É irônico que uma das promessas centrais de Trump fosse reduzir o custo de vida. Medidas como a imposição de tarifas e a restrição à imigração, porém, tendem a ter o efeito oposto. Ao aumentar os custos de insumos e da mão de obra, pressionam a inflação. Ainda que os efeitos não tenham se manifestado plenamente até agora, há expectativa de que os preços subam de forma acelerada nos próximos meses, à medida que estoques forem renovados e repasses se tornem inevitáveis.

Além disso, o governo aprovou recentemente um pacote fiscal agressivo — apelidado de "Big Beautiful Bill" — que prevê cortes de impostos e aumento de gastos. A medida é regressiva, beneficiando os segmentos mais ricos, e ocorre em um momento em que a dívida pública dos EUA atinge máximo histórico. Com déficits persistentes, cresce o temor de que a trajetória fiscal americana se torne insustentável. A resposta dos mercados já pode ser vista na elevação dos juros longos e na desvalorização do dólar.

Risco maior de estagflação

O maior risco não é apenas uma desaceleração econômica, mas sim a combinação perversa de inflação e estagnação — a estagflação. Isso poderia até vir a corroer o chamado "Privilégio Exorbitante" dos EUA: a capacidade histórica de manter déficits em conta-corrente, sem perder credibilidade. Caso os mercados comecem a duvidar da solvência americana, o dólar pode perder parte de seu papel como moeda de reserva global — um cenário improvável até pouco tempo atrás, mas que agora passou a ser considerado.

Um agravante adicional é o ataque que Trump vem fazendo à autonomia do Fed, ameaçando demitir seu presidente Jay Powell (o que ele não pode fazer), caso o Fed não reduza irresponsavelmente os juros, o que estimularia a inflação.

Os efeitos para os mercados emergentes, como o Brasil, são especialmente preocupantes. Mesmo que o país possa, em um primeiro momento, se beneficiar de realocação de comércio entre EUA e China, o aperto global nas condições financeiras e o aumento no custo de capital são fatores que pesam negativamente. Países com alto nível de endividamento público e necessidade de financiamento externo — como o Brasil — tendem a sofrer mais nessas circunstâncias.

No caso brasileiro, o real se desvalorizou e a bolsa reagiu negativamente após os anúncios iniciais do governo Trump, embora tenha se recuperado até o anúncio das tarifas de 50%. Há também o risco de que os desatinos econômicos de Trump sirvam como pretexto para adiar reformas fiscais no Brasil, numa tentativa de transferir a responsabilidade de eventual enfraquecimento da economia doméstica para fatores externos. Essa postura, contudo, apenas aumentaria nossa vulnerabilidade.

O programa econômico de Trump parte de premissas equivocadas: que tarifas trarão de volta empregos industriais, que déficits se pagarão com crescimento e que volatilidade é sinônimo de força. Mas a realidade é mais dura. Os EUA estão colocando em risco sua estabilidade macroeconômica, e países como o Brasil não podem se dar ao luxo de ignorar esse novo cenário.

Se os EUA espirram, o mundo pega gripe — e sob Trump, essa gripe tem tudo para virar pneumonia dupla. O melhor a fazer é tentar negociar tarifas menores, reforçar as defesas internas, promover responsabilidade fiscal e preparar-se para dias mais turbulentos.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Marcio G. P. Garcia não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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