Tarifaço de Trump: Indústria química brasileira é fortemente atingida por tarifa de 50%, diz Abiquim
Entidade afirma que vê risco na parceria comercial histórica dos dois países e propõe medidas emergenciais para reduzir prejuízos; EUA têm superávit de US$ 8 bi na balança comercial do setor
Dois dias após o anúncio do decreto do governo americano que estipulou a tarifa de 50% para produtos brasileiros acessarem o mercado dos EUA, a indústria de produtos químicos do País informa que manifesta "profunda preocupação" com a medida que fixa uma tarifa adicional de 40% a partir de 6 de agosto.
"O impacto será expressivo sobre as exportações brasileiras de produtos químicos, comprometendo cadeias produtivas, empregos e investimentos no Brasil e nos EUA", afirma André Passos Cordeiro, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).
Segundo a entidade, o setor químico brasileiro tem uma relação histórica e estratégica com os Estados Unidos, com forte integração produtiva e investimentos cruzados. Informa que mais de 20 empresas químicas instaladas no Brasil são de capital norte-americano, operando em diversos segmentos.
Lembra que os EUA mantêm sólido e recorrente superávit setorial frente ao Brasil, com saldo anual próximo de US$ 8 bilhões. Em 2024, a alíquota efetiva aplicada pelo Brasil aos produtos químicos de uso industrial dos EUA foi de 7,7%, considerando a média ponderada pelo valor importado.
Em contrapartida, diz a Abiquim, as exportações brasileiras de produtos químicos para os EUA somaram US$ 2,4 bilhões em 2024, com 82% desse valor concentrado em 50 produtos, abrangendo petroquímicos básicos, intermediários orgânicos e resinas termoplásticas.
Desses número, apenas cinco não serão afetados pela nova tarifa: silícios, alumina calcinada e óxidos, hidróxidos e peróxidos de outros metais (produtos químicos inorgânicos), misturas de hidrocarbonetos aromáticos e derivados clorados saturados dos hidrocarbonetos acrílicos (produtos químicos orgânicos).
Os cinco produtos representaram US$ 697 milhões exportados pelo Brasil aos EUA no ano passado e permanecerão isentos da tarifa adicional. O restante do valor exportado — cerca de US$ 1,7 bilhão — será atingido pela alíquota extra de 40%, ressalta a entidade do setor .
A Abiquim aponta, além das exportações diretas, preocupação com os efeitos indiretos da medida. "Diversas indústrias brasileiras que produzem insumos e matérias-primas para setores exportadores — como móveis, têxteis, artefatos de couro e borracha — já estão reportando cancelamentos de pedidos por parte de compradores norte-americanos", diz o comunicado.
"É essencial reforçar a governança do sistema multilateral de comércio e evitar retrocessos que fragilizem relações estratégicas entre os países", comenta Cordeiro. Ele destaca que há apoio do setor ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) e outras autoridades do País na busca por uma solução rápida e efetiva via canais diplomáticos e comerciais com os EUA.
Como medidas emergenciais, defende a aplicação de direito provisório de defesa antidumping e o reforço dos recursos humanos e tecnológicos para resposta rápida a desvios de comércio, a devolução imediata de saldos credores de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), a ampliação do Reintegra para 7% e sua extensão a empresas de todos os portes, além da criação de novas linhas de financiamento à exportação.