Diretora do Fed renuncia e abre espaço para indicação de Trump, que tem criticado o banco pelo juro
Adriana Kugler, diretora do Federal Reserve, o BC dos EUA, deixará o cargo dia 8; Donald Trump tem feito ataques frequentes ao presidente do banco, Jerome Powell, por queda nos juros
O Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) anunciou nesta sexta-feira, 1º, que a diretora Adriana Kugler renunciou ao cargo, com efeito a partir de 8 de agosto. Ela ocupava a posição desde 13 de setembro de 2023 e enviou sua carta de demissão ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo o texto oficial, ela retornará ao meio acadêmico, assumindo novamente uma cadeira na Universidade de Georgetown.
Mais tarde, Trump citou a renúncia da diretora para pressionar o presidente do Fed, Jerome Powell, a pedir demissão. Em publicação na Truth Social, Trump repetiu a alcunha de "Atrasado Demais" para se referir a Powell. Só nesta sexta-feira, foram pelo menos seis ocasiões em que o republicano criticou o chefe do banco central americano.
"Ela sabia que ele estava agindo errado em relação às taxas de juros. Ele também deveria renunciar!", escreveu.
Na última reunião de política monetária do Fed, realizada nesta semana, Kugler esteve ausente por motivos pessoais. Sua renúncia abre caminho para a indicação de um novo nome ao banco central americano por Trump, em um momento em que o presidente intensifica a pressão por cortes nos juros.
"Sinto-me especialmente honrada por ter atuado no Fed em um momento crítico para cumprir nosso duplo mandato de reduzir a inflação e manter um mercado de trabalho forte e resiliente", escreveu Kugler.
Powell afirmou que a diretora "trouxe uma experiência impressionante e insights acadêmicos valiosos para o trabalho no Conselho".
Durante sua gestão, Kugler foi integrante dos comitês de Estabilidade Financeira, Assuntos dos Bancos Regionais, Assuntos do Conselho e o Subcomitê para Bancos Regionais e Comunitários de menor porte. Ela também representou o Conselho no Centro de Estudos Monetários da América Latina.
Trump critica quase diariamente o Fed por não cortar os juros. Ele deu até um apelido ofensivo a Powell, chamando de "Atrasado Demais". Também já o xingou de "burro" e "teimoso".
Na quinta-feira, 31, Trump voltou a criticar Powell, após o banco central americano ter mantido as taxas de juros na faixa entre 4,25% e 4,50%. Em publicação na sua rede, Truth Social, o republicano chamou Powell de "muito irritado, muito estúpido e muito político" para ocupar o cargo.
Trump pode criar poder paralelo no Fed, diz analista
Com a renúncia, Trump pode indicar um novo nome ao Conselho que seria o presidente "de facto" da autoridade monetária, alerta o presidente da Queen's College e conselheiro econômico chefe da Allianz, Mohamed El-Erian.
O mandato de Powell termina em maio do ano que vem. Até lá, o sucessor de Kugler poderia ser visto como um "presidente-sombra" do Fed, de acordo com El-Erian.
"Isso ocorreria após mais uma semana de intensas críticas presidenciais a Powell", explica.
Analistas já alertam que esse cenário provocaria confusão no mercado sobre quem é a voz mais influente no Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, uma espécie de Copom americano).
Crítico de Powell diz que ele será o próximo a sair
Após a renúncia de Adriana Kugler, o presidente do conselho da Agência Federal de Financiamento Habitacional dos EUA (FHFA, na sigla em inglês), William Pulte, afirmou que é "o próximo" a sair.
Em uma série de publicações no X, Pulte diz que "ouviu que o próximo (a renunciar) é Powell", sem apresentar provas. "O presidente Trump vence de novo", escreveu Pulte, crítico costumaz de Powell, em outra postagem.
Pouco antes, o presidente da FHFA havia renovado pressão sobre Powell para reduzir as taxas de juros. "Reduza a taxa, 'Atrasado Demais'", publicou.