Raízen atribui crise a cenário com juro alto e safra menor; plano de recuperação envolve 9 empresas
Grupo protocolou pedido de recuperação extrajudicial para tentar renegociar cerca de R$ 65,1 bilhões em dívidas; bancos estão entre principais credores
O plano de recuperação extrajudicial protocolado nesta quarta-feira, 11, pela Raízen, joint venture entre a Shell e a Cosan, atribui a deterioração da situação financeira do grupo a uma combinação de fatores macroeconômicos e setoriais, incluindo ciclos recentes de menor produtividade agrícola, compressão de margens e aumento do custo do endividamento. Com o pedido, a empresa pretende renegociar cerca de R$ 65,1 bilhões em dívidas.
A medida protege a Raízen na busca por um acordo com os credores pelos próximos 90 dias, preservando o seu caixa. Trata-se de um dos maiores processos de reestruturação de dívidas do Brasil.
Segundo o documento, obtido pelo Estadão/Broadcast, mudanças no ambiente econômico e no próprio setor sucroenergético prejudicaram o desempenho das companhias operacionais do grupo nos últimos anos e acabaram pressionando toda a estrutura financeira das empresas envolvidas.
"A alteração do cenário macroeconômico e setorial — decorrente de ciclos de colheita de menor produtividade, queda das margens e alto custo do endividamento financeiro — prejudicou a atividade das companhias operacionais e, por consequência, toda a operação estruturada pelas devedoras ao longo de anos de atuação no segmento", afirma.
O texto também destaca o impacto do forte aumento das taxas de juros no Brasil no período recente. De acordo com o documento, houve uma "alta expressiva da taxa básica de juros no mercado doméstico", com a Selic passando de cerca de 2% em 2020 para aproximadamente 15% em 2026. Esse movimento, segundo o plano, elevou significativamente o custo do endividamento das empresas do grupo e contribuiu para o agravamento da situação financeira.
Diante desse cenário, a companhia afirma que a reestruturação tem por objetivo criar condições para renegociar o passivo financeiro e readequar a estrutura de capital. O plano afirma que a recuperação extrajudicial tem como objetivo "criar as condições e a estrutura necessárias" para que as empresas e seus credores negociem os termos da reestruturação das dívidas.
Credores e acionistas da Raízen estão negociando uma conversão de R$ 16 bilhões de dívida em capital e, se chegarem a um acordo, devem se tornar sócios da empresa, conforme pessoas próximas às conversas. Os controladores também vão fazer um aporte de capital: R$ 3,5 bilhões virão da Shell e R$ 500 milhões de Rubens Ometto, por meio da holding Aguassanta. Caso o plano de reestruturação vingue, a expectativa é de que a dívida da Raízen seja cortada expressivamente.
Segundo o documento, o plano de recuperação extrajudicial pretende preservar a continuidade das operações do grupo e garantir estabilidade às atividades das companhias envolvidas no processo.
Plano reúne 9 empresas
O plano envolve nove empresas do grupo, incluindo subsidiárias operacionais no Brasil e no exterior ligadas às atividades de produção de açúcar, etanol e comercialização de combustíveis.
Além da própria Raízen S.A., figuram como devedoras no plano as empresas:
- Raízen Energia S.A.
- Raízen Fuels Finance S.A.
- Raízen Trading S.A.
- Raízen North America Inc.
- Raízen Caarapó Açúcar e Álcool Ltda.
- Raízen Centro-Sul Paulista S.A.
- Raízen Centro-Sul S.A.
- Blueway Trading Importação e Exportação S.A.
Segundo o documento, essas companhias integram a estrutura operacional e financeira do conglomerado e participaram da emissão ou garantia das dívidas financeiras que agora serão renegociadas no processo de recuperação extrajudicial.
A inclusão dessas empresas no processo busca consolidar a renegociação das obrigações financeiras emitidas ou garantidas pelas diferentes companhias do grupo ao longo dos últimos anos. Segundo o plano, o objetivo é permitir que a reestruturação do passivo financeiro seja conduzida de forma coordenada entre as empresas envolvidas.
Em fato relevante enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a empresa afirma que a recuperação extrajudicial foi consensualmente estruturada com seus principais credores financeiros quirografários (que não têm garantias).
Segundo a empresa, o plano conta com adesão expressa dos credores signatários titulares de mais de 47% das dívidas financeiras quirografárias, porcentual suficiente para o ajuizamento da recuperação extrajudicial e que demonstra apoio relevante aos esforços para viabilizar a reestruturação das obrigações financeiras do Grupo Raízen.
A companhia lembra que, nos termos da legislação aplicável, o Grupo Raízen dispõe do prazo de 90 dias, a contar do processamento da recuperação extrajudicial, para obter o porcentual mínimo necessário à homologação de seu plano de recuperação extrajudicial, assegurando, assim, a vinculação de 100% dos créditos sujeitos aos novos termos e condições de pagamento a serem definidos no plano. Para a homologação do acordo, é necessário o apoio de 50% mais um dos credores.
A Raízen esclarece que a recuperação extrajudicial possui escopo limitado, estritamente financeiro, e não abrangerá as dívidas e obrigações do Grupo Raízen com seus clientes, fornecedores, revendedores e outros parceiros de negócios, essenciais para a sua operação e continuidade de suas atividades, as quais permanecem vigentes e continuarão sendo cumpridas normalmente nos termos dos respectivos contratos.
"As operações do Grupo Raízen seguem sendo conduzidas normalmente, no atendimento a clientes, na relação com fornecedores e na execução de seus planos de negócios", afirma.
Dívida
O passivo de R$ 65,14 bilhões inclui obrigações em reais, dólares e euros e envolve bancos globais, instituições financeiras brasileiras e investidores do mercado de capitais.
Do total consolidado, cerca de R$ 22,04 bilhões estão denominados em reais, enquanto aproximadamente US$ 7,68 bilhões estão em dólares e 506,2 milhões em euros, convertidos para reais segundo a cotação PTAX de 9 de março de 2026.
Entre os principais credores aparecem instituições financeiras internacionais como:
- BNP Paribas
- Rabobank
- Bank of America
- MUFG
- JPMorgan
- HSBC
- Sumitomo Mitsui Banking Corporation
Além de bancos brasileiros:
- Bradesco
- Itaú Unibanco
- Santander
- Banco do Brasil
Parte relevante do passivo também está vinculada a títulos emitidos no mercado internacional. Diversos bonds da Raízen têm o Bank of New York Mellon como agente fiduciário, incluindo emissões com vencimentos em 2032, 2034, 2035, 2037 e até 2054.
No mercado doméstico, o grupo possui ainda debêntures incentivadas e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) estruturados por securitizadoras como True e Opea.
A relação de credores mostra também a presença de diversas linhas de financiamento estruturado, como operações de pré-exportação e crédito corporativo de longo prazo, além de contratos de garantia ligados à comercialização de energia e operações de derivativos com instituições financeiras.
O documento inclui ainda dívidas internas entre empresas do próprio grupo, as chamadas operações intercompany, que somam cerca de R$ 33,49 bilhões./Com Beth Moreira