Quem ganhar eleição precisará falar rapidamente o que vai ser feito no fiscal, diz Bruno Funchal
Para ex-secretário do Tesouro Nacional, próximo presidente terá de discutir um plano fiscal logo após as eleições, diante da necessidade de organização das contas públicas
Segundo Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset, o próximo presidente deve apresentar logo após a eleição um plano claro de ajuste fiscal, liderado diretamente pelo chefe do Executivo, para conter o endividamento e permitir a queda dos juros. O executivo alerta que o cenário global é adverso, marcado por guerras e altos déficits internacionais que pressionam a inflação mundial. Assim, o equilíbrio das contas domésticas é crucial para reduzir o risco-país e atrair investimentos estrangeiros.
Não é suficiente que o próximo presidente da República apenas diga o que vai fazer para endereçar o desequilíbrio fiscal do País, na avaliação de Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset e ex-secretário do Tesouro Nacional. "Tem que ter um plano fiscal que possa ser discutido logo depois da eleição", afirma.
O executivo traça três cenários para o ajuste, mas tende a ficar no caminho do meio, que aponta para apenas uma organização das contas. Ele diz acreditar que esse plano já está sendo desenhado nas conversas do ministro da Fazenda, Dario Durigan, com o ex-ministro Pedro Malan e o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga. "Acho que todos os lados têm um plano. Mas o mais importante é o líder. Quem faz a organização fiscal não é o ministro, é o presidente. Então, é importante que o líder esteja comprado e que faça o esforço para tal", afirma.
Não bastasse o cenário doméstico desafiador, Funchal ainda avalia que o panorama internacional é bem complexo, principalmente pelas questões geopolíticas, como as guerras. "O déficit nominal dos Estados Unidos é mais de 6% do PIB. Alemanha também tem déficit nominal. Japão, déficit nominal. São muitos governos gastando muito. É uma tendência de gasto que pressiona para mais inflação e para mais juros no mundo inteiro nos próximos anos. E não há previsão razoável de que isso vá mudar", avalia o CEO da Bradesco Asset, gestora com R$ 1 trilhão sob gestão.
Diante dessa perspectiva, diz, é mais um motivo para o Brasil ficar bem ajustado, fazer o dever de casa. "Porque assim não vai sofrer muito. Senão vamos ter que ter um juro alto para compensar."
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Qual a sua perspectiva para a questão fiscal no ano que vem, dentro dos sinais que estão dados?
Certamente esse é um item muito relevante para o próximo governo e temos alguns cenários traçados. Independentemente de quem será o próximo chefe do Executivo, por tudo que temos visto nos sinais, que em geral é sobre preço, vamos ter algum tipo de organização das contas. É uma necessidade. Não é à toa que estamos pagando um prêmio de risco muito alto. Os títulos indexados à inflação, as NTN-Bs, estão pagando de 7% a 8% de juro real. É muito. E isso se reflete nas empresas, que precisam se financiar a uma taxa extremamente alta. Isso asfixia as empresas e estamos vendo várias recuperações judiciais. Estamos vendo empresas investindo pouco, pois, para fazer investimento, é preciso pagar o custo do dinheiro. Se o custo do dinheiro é muito alto, há um monte de investimento que deixa de ser feito. Isso gera uma trava na economia.
Quais os cenários com os quais você está trabalhando para o quadro fiscal em 2027?
Um é fazer uma agenda fiscal mais ampla. Outro, uma agenda fiscal reduzida, mas minimamente necessária para conseguirmos trazer o juro para baixo. E há um cenário no qual não há reorganização fiscal. Para mim, o cenário base mais razoável é aquele em que vamos ter alguma agenda de organização das contas. E isso escutamos dos dois lados, tanto do candidato mais à direita quanto do próprio governo. Do governo é um pouco mais difícil escutar, mas o próprio ministro da Fazenda (Dario Durigan) tem conversado com o mercado nessa linha, sobre o que pode ser feito em termos de agenda de organização fiscal. Então, alguma agenda acho que vai ter, e isso seria uma boa notícia para um início de governo. Agora, apenas falar o que vai fazer não é suficiente. Uma coisa é certa: ganhou eleição, rapidamente sinalize e fale com clareza o que vai ser feito para que consigamos capturar esse benefício rapidamente. É o contrário de como foi feita a PEC da Transição em 2022. Tem que ter um plano fiscal que possa ser discutido logo depois da eleição. Com um fiscal menos pressionado, abre-se mais espaço para queda de inflação e de juros. E isso tudo ajuda para um ciclo virtuoso na economia.
Você acredita que esse plano já está sendo desenhado nas conversas do ex-ministro da Fazenda Pedro Malan e do ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga com Durigan?
Acredito. Acho que todos os lados têm um plano. Mas o mais importante é o líder. Quem faz a organização fiscal não é o ministro, é o presidente. Então, é importante que o líder esteja comprado e que faça o esforço para tal. Se os agentes econômicos perceberem esse esforço, acho que temos um cenário muito positivo para o ano que vem. Mas tem que ter o esforço, tem que ter o engajamento da liderança.
E como fica o quebra-cabeça com a atual conjuntura internacional, que tem guerras, alta do petróleo e temor inflacionário?
O cenário global é bem complexo. Temos a perspectiva da guerra, que não tem cara de que vai acabar tão cedo, tanto a da Rússia quanto a do Irã. Isso pressiona de várias formas os governos, via inflação de petróleo, mas pressiona também muito os gastos dos governos. O déficit nominal dos Estados Unidos é mais de 6% do PIB. Alemanha também tem déficit nominal. Japão, déficit nominal. São muitos governos gastando muito. É uma tendência de gasto que pressiona para mais inflação e para mais juros no mundo inteiro nos próximos anos. E não há previsão razoável de que isso vá mudar.
E como isso se reflete no Brasil?
É mais um motivo para o Brasil ficar bem ajustado, fazer o dever de casa. Porque assim não vai sofrer muito. Senão vamos ter que ter um juro alto para compensar. Porque, no fundo, o diferencial de juros é para compensar o diferencial de risco. Se não perceberem que o risco fiscal do Brasil é menor, não vamos conseguir baixar juros. Então, o que temos que fazer estruturalmente? Porque o gringo olha para o Brasil como um play tático; ele quer aproveitar esse momento em que o petróleo está alto e o Brasil se dá bem com isso para entrar, mas depois vai sair. Como é que podemos incentivar os estrangeiros a colocar dinheiro no Brasil? Com mudanças estruturais, ou seja, não olhando no curtíssimo prazo, mas olhando no longo prazo. Temos que fazer o dever de casa, mostrar que de fato temos uma organização das contas. É mais um motivo para arrumarmos as contas. E então, o Brasil, que está longe da guerra, é uma oportunidade. O Brasil pode ser um bom destino; é algo descorrelacionado. Pode ser um atrator de investimento, mas temos que ter uma casa arrumada. A dívida não pode crescer na velocidade que está crescendo, porque isso é um indicativo de risco.
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