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Quando a sustentabilidade vira negócio, a roda do capital gira no sentido certo, diz CEO da Heineken

Segundo Mauricio Giamellaro, companhia conseguiu reduzir em quase 50% o consumo de água nos últimos três anos, com uso de tecnologias de reaproveitamento e processos mais eficientes

6 out 2025 - 11h12
(atualizado às 17h26)
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Empresa que precisa de água para o seu principal produto, além de processos muito bem azeitados de circularidade, a Heineken Brasil resolveu há três anos incorporar a preocupação socioambiental de forma central em um de seus modelos de negócio. Em pouco tempo, passou a gerar bons resultados financeiros com a decisão, segundo o CEO da empresa, Mauricio Giamellaro (veja a íntegra da entrevista no vídeo acima).

Para o executivo, apesar de muitos no setor privado ainda verem a sustentabilidade com certo ceticismo, está mais do que na hora da roda do capital passar a girar em outro sentido, aquele em que o futuro do planeta e das futuras gerações esteja efetivamente no centro.

Segundo o presidente da cervejaria, a empresa conseguiu, nos últimos três anos, baixar em quase 50% o consumo de água. "Já avançamos bastante nessa direção, com tecnologias de reaproveitamento e processos mais eficientes", disse.

A fábrica da cervejaria Heineken na cidade de Jacareí
A fábrica da cervejaria Heineken na cidade de Jacareí
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

O quanto a questão da sustentabilidade é central para vocês?

Cuidar do planeta é importante para nós porque mostra como a gente faz. Temos a certeza de que a sustentabilidade é um caminho de negócio. A colaboração é o único jeito para a transformação que o mundo dos negócios precisa. A gente fala por aqui: a roda do capital pode e deve continuar girando, mas deveria girar numa direção contrária, num novo sentido. Há três anos, tivemos o ambicioso movimento da criação do Heineken Spin, uma unidade de negócio dentro da Heineken com basicamente quatro pilares para tratar de sustentabilidade, não de maneira simplista ou marqueteira, ou como no jargão que o mercado usa de greenwashing, mas realmente para trazer sustentabilidade para o nosso negócio.

Como podemos resumir esses quatro pilares?

O primeiro é a circularidade, focada na reciclagem de embalagens, especialmente vidro, com meta de 500 mil toneladas até 2030, em parceria com a Ambipar. Queremos reciclar mais garrafa do que colocamos no mercado, e a reciclagem do vidro é um desafio no Brasil. Enquanto a lata é reciclada em quase 90%, o vidro chega a apenas 20%. Tem muita coisa para ocorrer aqui. Estamos fazendo essa reciclagem na Bahia, em Pernambuco e no Espírito Santo, e estamos abrindo agora uma unidade em Alagoas. Só para você ter uma noção: estamos falando de, em um ano, quase 2 mil toneladas de vidro. É muita garrafa.

Por que é tão difícil reciclar vidro no Brasil?

O grande desafio é a cadeia logística. O vidro pesa mais que a lata. Na ponta, os recicladores, as pessoas que coletam o vidro, precisam de um incentivo maior para fazer isso. Em vez de criar um hub e trazer o vidro, onde a logística seria difícil, criamos com a Ambipar os centros de circularidade para que o vidro seja processado mais próximo de onde se faz a coleta. Dessa forma, conseguimos recolher o equivalente a 9 milhões de long-necks. São 43 cooperativas de recicladores envolvidas.

E o segundo pilar?

É aquele que você tem orgulho de compartilhar com seus familiares. Tenho dois filhos, uma menina de 28 e um menino de 26, que, felizmente, diferente da nossa geração, se preocupam mais com o planeta. Quando falo desse bloco, a gente se emociona: é o restauro florestal, ou o que chamamos de agrofloresta. Aqui existe uma parceria com o Rizoma, do Pedro Paulo Diniz, e a nossa mensagem é: nosso copo começa no solo. Temos um modelo de agrofloresta produtiva e regenerativa, onde o restauro desse solo e dessa floresta é uma resposta à crise climática, basicamente água e carbono. O que é isso? São mais ou menos 1.200 campos de futebol, onde fazemos o que chamamos de floresta regenerativa. Nosso objetivo é reter 500 mil toneladas de carbono nessa agrofloresta. Já foram plantadas 600 mil mudas em 142 hectares, onde serão construídas pequenas barragens para capturar água da chuva e aumentar a infiltração no solo. É um negócio que a natureza nos ensinou a fazer e agora estamos realizando nas nossas áreas em Itu, próximas das nossas cervejarias. Esse processo já era feito com a SOS Mata Atlântica e agora intensificou-se com o Rizoma.

O terceiro envolve a energia usada nas fábricas?

Aqui faço um desafio: não sei se as pessoas têm ideia disso, mas a Heineken hoje é a maior distribuidora de energia verde do Brasil. Temos 45 mil contratos de energia renovável com pontos de venda, em parceria com a Ultragás e a Raízen. A ideia é fazer com que nossos clientes economizem aproximadamente R$ 23 milhões em três anos por estarem usando energia limpa. Estamos em 19 capitais brasileiras, principalmente em Santa Catarina, Paraná e Minas Gerais.

Falta, então, o quarto?

É o que chamamos de marcas de impacto. Nesse caso, nossos parceiros são a Better Drinks e a CUFA. A ideia aqui é ter inovação com impacto. Vamos inovar com produtos que têm propósito. O Mamba Project já impactou mais de 8 mil famílias, distribuindo 15 milhões de litros de água. São marcas que crescem a dois dígitos, mas crescem com propósito.

Diante de tudo isso, você diria que a sustentabilidade envolve uma conta que sempre fecha?

Quando a sustentabilidade se torna negócio, você está fazendo a roda girar no sentido correto. Muitas empresas veem sustentabilidade como obrigação e não como modelo de negócio. Quando criamos o Heineken Spin, foi exatamente para responder à tua provocação: como entregar propósito, valor e um planeta melhor, fazendo o negócio funcionar. Só para você ter uma ideia, essa unidade de negócios, no primeiro ano, já se paga.

A produção da Heineken depende muito da água e de processos que envolvem a economia circular. Quais são os compromissos ambientais assumidos pela Heineken no Brasil?

Temos três grandes compromissos até 2030. O primeiro é a circularidade, ou seja, ter uma economia circular dentro da nossa cadeia. Isso envolve desde o design das embalagens até a forma como cuidamos do fim de vida desses produtos. Hoje já temos cerca de 60% das embalagens retornáveis, e nossa meta é ampliar ainda mais essa taxa.

O consumo de energia nas fábricas é uma preocupação?

Assumimos o compromisso de que todas as nossas cervejarias no Brasil usem 100% de energia renovável até 2030. Isso passa por duas frentes: geração de energia solar e eólica para abastecer nossas operações e aquisição de energia limpa no mercado. Já conseguimos antecipar essa meta em algumas fábricas, que hoje operam integralmente com energia verde.

E o que a Heineken tem feito em relação à água?

Sem água não existe cerveja. Nosso objetivo é reduzir o consumo para menos de 2,6 litros de água por litro de cerveja produzido até 2030. Nos últimos três anos, baixamos quase 50% o consumo de água. Já avançamos bastante nessa direção, com tecnologias de reaproveitamento e processos mais eficientes. Também temos programas de preservação de bacias hidrográficas em regiões estratégicas, como a Serra da Mantiqueira, para garantir a sustentabilidade da água no longo prazo.

O lado social também tem um impacto importante?

Estamos trabalhando muito com diversidade, equidade e inclusão. Queremos garantir mais representatividade dentro da companhia e também nas nossas campanhas. Além disso, temos projetos de consumo responsável, especialmente em relação ao público jovem. O objetivo é deixar claro que nosso produto é para maiores de 18 anos, sempre.

Como equilibrar essa preocupação do consumo consciente com a necessidade de expandir o mercado?

É uma linha tênue. Nosso papel é estimular o consumo responsável, mas também oferecer alternativas, como o portfólio de cervejas sem álcool, que tem crescido muito. Acreditamos que é possível crescer com responsabilidade, criando opções para diferentes ocasiões e perfis de consumidor.

Falando sobre a COP-30, qual é a relevância do evento para a Heineken?

É um momento histórico para o Brasil. A COP-30 em Belém traz enorme visibilidade para os compromissos ambientais do país e também para as empresas que atuam aqui. Estar presente nesse debate é fundamental para mostrar que estamos alinhados com as metas globais de descarbonização e reforçar que o setor privado tem papel ativo nessa transição. A nossa grande expectativa como Heineken é que a COP não vire uma vitrine de marketing, que ela realmente deixe legados para o Brasil, para a região e para o planeta. Vamos deixar algumas contribuições para Belém, como um hub de reciclagem e uma microfloresta para a cidade.

E como o sr. enxerga o papel do Brasil na agenda climática global?

O Brasil tem uma vantagem competitiva enorme, seja pela matriz energética renovável, seja pela biodiversidade. Mas também tem uma responsabilidade. A Amazônia, por exemplo, é central nesse debate. O país pode ser protagonista se conseguir conciliar desenvolvimento econômico com preservação ambiental.

Uma última, mais voltada para o lado do consumidor. É lenda ou realidade que vocês acabam modificando o paladar das marcas que vocês compram?

No nosso caso, é lenda, porque, de novo, nosso propósito é entregar o produto com qualidade. Falando de Heineken, é a mesma fórmula há mais de 150 anos. Mas, infelizmente, algumas cervejarias, quando você compra marcas locais, principalmente as marcas craft, algumas empresas vão para custo, barateando a fórmula, tirando, por exemplo, o puro malte. Ninguém está dizendo que o produto que não é puro malte não pode ser bom, mas o produto puro malte custa mais. E, para a gente, o "como" é mais importante do que o "que"; ter um produto que custa mais faz parte do nosso modelo de negócio. Por isso que a Heineken fez o mercado premium passar de 2% para 20% no Brasil. No nosso caso, posso dar exemplo de Baden-Baden, Eisenbahn e Lagunitas, que trouxemos da Califórnia (uma IPA nossa). A Blue Moon que você toma no Brasil é, provavelmente, tão boa ou melhor que a Blue Moon do Canadá ou de fora do Brasil. A Heineken que você toma aqui é a mesma fórmula que se toma em todos os lugares. Temos de manter o mesmo jeito que o consumidor escolheu.

Estadão
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