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Qual a origem da 'relação especial' entre Cuba e México, que vem sendo colocada à prova por Trump

Apesar das pressões dos EUA e da alternância de governos no México, os dois países nunca romperam relações. As ameaças de Trump, porém, testam essa parceria histórica como nunca antes.

20 fev 2026 - 10h57
(atualizado às 11h02)
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Uma montagem de imagens, com Claudia Sheinbaum, Donald Trump e Miguel Díaz-Canel
Uma montagem de imagens, com Claudia Sheinbaum, Donald Trump e Miguel Díaz-Canel
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A histórica relação entre México e Cuba, que atravessou diferentes tensões desde a Revolução Cubana de 1959, enfrenta neste ano um teste sem precedentes.

Os Estados Unidos lançaram uma política agressiva para isolar o governo de Cuba, com uma ordem direta do presidente americano, Donald Trump, promulgada no fim de janeiro, para sancionar países que enviem petróleo a Cuba.

"Há um embargo. Não há petróleo, não há dinheiro, não há nada", disse Trump na segunda-feira (16/2), ao afirmar que seu governo busca um "acordo" com sua contraparte cubana, sem detalhar qual é o objetivo.

Depois de pressionar o governo da Venezuela no início do ano, o foco regional dos EUA passou a ser Cuba, um país que há mais de seis décadas se mantém como antagonista dos EUA sob o governo dos irmãos Fidel e Raúl Castro e do herdeiro político deles, Miguel Díaz-Canel.

O México agora se encontra no centro da disputa.

A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, criticou abertamente a imposição de sanções dos EUA aos envios de petróleo a Cuba, que definiu como "bastante injusta", mas precisou buscar equilíbrio entre sua cooperação com Cuba e a sua relação com os EUA.

Sheinbaum optou por aumentar os envios de ajuda humanitária em solidariedade à população cubana, ao mesmo tempo em que cancela o carregamento de mais navios com combustível destinado à ilha, como vinha ocorrendo nos últimos anos.

"Não é de agora, é de sempre... Sempre houve apoio a Cuba desde sua Revolução", justificou Sheinbaum há alguns dias, ao lembrar que os governos mexicanos, há mais de seis décadas, seja de esquerda, centro ou direita, mantiveram cooperação com a ilha.

Para especialistas, o cenário atual representa um grande teste para a presidente e para a "relação especial" entre seu país e a ilha.

"Hoje o México tenta um exercício de política externa, não apenas de solidariedade, mas estratégico, no qual o México está pagando o custo político, diplomático e monetário para desempenhar um papel no presente e no futuro próximo de Cuba", afirma Juan Pablo Prado Lallande, analista de relações internacionais.

"Tem que se pagar um custo, e esse custo é manter essa ajuda humanitária para que o México preserve sua capacidade de negociação, conquistada ao longo de décadas, em relação a Cuba e seu futuro", acrescenta Prado Lallande, em conversa com a BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

A presidente mexicana Claudia Sheinbaum criticou a restrição dos EUA à exportação de petróleo para Cuba
A presidente mexicana Claudia Sheinbaum criticou a restrição dos EUA à exportação de petróleo para Cuba
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O acordo que sustentou as relações

Desde a vitória da Revolução Cubana, em 1º de janeiro de 1959, as relações entre Cuba e EUA se deterioraram rapidamente, até o ponto de ruptura representado pela fracassada invasão da Baía dos Porcos, organizada nos EUA, em 1961.

Naquela época, os EUA adotaram uma política anticomunista ativa na região — em meio à consolidação da Guerra Fria com a União Soviética — e exerceram influência para que governos da América Latina (e de outras regiões do mundo) rompessem laços com Cuba.

Mas o México, vizinho geográfico estratégico, não apenas reconheceu o governo revolucionário de Cuba, como foi o único país a não romper relações com a ilha na época, mesmo diante de pressões explícitas, como as registradas em assembleias da Organização dos Estados Americanos (OEA) nos primeiros anos da década de 1960.

Prado Lallande afirma que o México justificou a decisão com base em seus princípios pacifistas de política externa, expressos na Doutrina Estrada, mas também se posicionou como país mediador entre Cuba e os EUA, obtendo um acordo trilateral, não divulgado publicamente, que atendia ambas as partes.

"Por um lado, os EUA 'permitem' ao México manter uma política soberana em relação a Cuba, de apoio político, diplomático, de cooperação e assim por diante. Por outro lado, o mais interessante é que, após a Revolução Cubana, México e Cuba concordaram que Cuba não promoveria revoluções no México, como fez em outros países da América Central, da América do Sul e da África, em troca de que o México apoiasse o governo de Fidel Castro em cenários internacionais e no âmbito global. Uma espécie de olho por olho [isto por aquilo]", afirma o analista.

Os EUA, por sua vez, zelaram para que não houvesse influência comunista em sua fronteira direta com o México, ao mesmo tempo em que combatiam os grupos guerrilheiros de esquerda surgidos na América Central e na América do Sul.

Fidel Castro realizou diversas visitas ao México durante os governos do PRI
Fidel Castro realizou diversas visitas ao México durante os governos do PRI
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Ao governo mexicano daquela época, liderado por Adolfo López Mateos, do Partido Revolucionário Institucional (PRI) e de perfil nacionalista, interessava apresentar-se aos mexicanos como um Estado que tomava suas próprias decisões, sobretudo diante dos EUA e de seu histórico de influência hegemônica sobre o país.

Mas de maneira menos evidente, o acordo também permitia evitar a influência cubana sobre os nascentes movimentos revolucionários e esquerdistas de orientação socialista no território mexicano surgidos na década de 1960, alguns deles inspirados na ilha.

Na verdade, Fidel Castro e seus companheiros organizaram a sua revolta armada quando estavam no México, entre 1955 e 1956.

Por outro lado, a nível cultural, tanto México como Cuba passaram a manter um intercâmbio intenso, principalmente na música, no cinema e na literatura.

"Historicamente, houve uma proximidade a nível social entre México e Cuba. Existem afinidades históricas, por proximidade cultural e geográfica, e um passado comum de colonialismo espanhol", afirma Prado Lallande.

"E existem fortes laços sociais entre mexicanos e cubanos, e vice-versa, sobretudo de orientação de esquerda, seja pessoal ou de partidos, sindicatos e organizações sociais. Historicamente, viram Cuba como uma referência."

Diversas atrizes cubanas, como Ninón Sevilla (ao centro, segurando um copo de bebida), participaram da era de ouro do cinema mexicano
Diversas atrizes cubanas, como Ninón Sevilla (ao centro, segurando um copo de bebida), participaram da era de ouro do cinema mexicano
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Cooperação e desacordos

Os presidentes do México na segunda metade do século 20 mantiveram boas relações com Fidel Castro e consolidaram acordos de intercâmbio sob o marco do pacto firmado na década de 1960, já que interessava aos EUA ter, nos mandatários mexicanos, um canal de escuta na ilha.

Adolfo López Mateos, Gustavo Díaz Ordaz, Luis Echeverría Álvarez, José López Portillo e Miguel de la Madrid foram colaboradores da CIA (a agência de inteligência dos EUA) entre 1960 e 1994, como foi revelado posteriormente, quando o sigilo foi retirado de documentos secretos antigos.

"Durante o período do PRI", explica Prado Lallande, "houve iniciativas de cooperação em diferentes áreas: técnica, científica, tecnológica, cultural e educacional, para vincular oficialmente os dois países".

O colapso da União Soviética representou um duro golpe para Cuba, que perdeu o apoio da potência rival dos EUA. Ainda assim, contou com o apoio do México.

Na década de 1990, o presidente Carlos Salinas de Gortari, político de orientação neoliberal e distante da esquerda, preservou a cooperação econômica quando a ilha enfrentava escassez de alimentos e de mantimentos no chamado "período especial".

Castro compareceu pessoalmente à posse de Salinas, que enfrentava acusações de fraude eleitoral, gesto que contribuiu para legitimar o governo do mexicano.

E o México também passou a enviar petróleo para a ilha, reflexo de como ambos os governos se beneficiavam da relação política.

O presidente Miguel de la Madrid foi condecorado por Fidel Castro durante visita a Havana, em 1988
O presidente Miguel de la Madrid foi condecorado por Fidel Castro durante visita a Havana, em 1988
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Mas, com a saída do PRI da Presidência do México, em 2000, as relações entre México e Cuba esfriaram de forma significativa sob os governos de Vicente Fox Quesada e Felipe Calderón Hinojosa, ambos do direitista Partido Ação Nacional (PAN).

O episódio conhecido como "Fidel, comes e te vas" ("Fidel, coma e vá embora", em tradução livre) evidenciou esse distanciamento: Fox convidou Castro para a Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada no México, mas pediu pessoalmente ao líder cubano que deixasse o evento após o almoço, de forma discreta, para evitar conflitos com outro convidado de destaque, o então presidente dos EUA, George W. Bush.

A conversa foi gravada e divulgada por Cuba, o que provocou forte irritação no governo mexicano.

"Não houve rompimento de relações, mas houve uma crise", recorda Prado Lallande.

Mesmo com as relações abaladas, em parte devido às críticas do governo mexicano à falta de democracia e de direitos humanos na ilha, tanto Fox quanto Calderón realizaram visitas a Cuba.

O retorno do PRI à Presidência, com Enrique Peña Nieto (2012-2018), representou um novo entendimento, a ponto de o México perdoar uma dívida superior a US$ 350 milhões (cerca de R$ 1,83 bilhão) referente a envios de petróleo a Cuba.

"O objetivo do México era não perder o que havia sido conquistado. Não perder o capital político investido em Cuba em termos do relacionamento histórico em favor do respeito mútuo, respeito às soberanias", afirma Prado Lallande.

E acrescenta: "O país queria uma presença política e geoestratégica no Caribe, que é a terceira fronteira do México. E Cuba é a maior ilha das Antilhas, portanto é uma referência obrigatória na política externa do México para qualquer governo, de esquerda ou de direita."

Apesar da crise com Fidel Castro, Vicente Fox visitou Havana em 2002 em uma tentativa de normalizar as relações
Apesar da crise com Fidel Castro, Vicente Fox visitou Havana em 2002 em uma tentativa de normalizar as relações
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Embora a relação entre México e Cuba sempre tenha sido justificada na política externa de cooperação consagrada na Constituição mexicana, a promoção dos direitos humanos ou da democracia, que também são princípios do Estado mexicano, não foi prioridade durante os governos do PRI.

Prado Lallande considera que isso se explica porque "para o PRI, que não tinha sensibilidade democrática, esse tema não gerava problemas, desafios ou contradições".

"O PRI passou de um partido com antecedentes de esquerda a se reorientar, ao longo do tempo, política e ideologicamente. Um partido muito adaptável e pragmático. Em sua relação com Cuba, não teve conflito nesse sentido."

No entanto, os presidentes Carlos Salinas e Ernesto Zedillo realizaram os primeiros contatos conhecidos com grupos da dissidência cubana, assim como Vicente Fox e Felipe Calderón, o que tensionou as relações com o presidente Fidel Castro.

Novo impulso no obradorismo

A chegada do primeiro governo de esquerda ao México, em 2018, com Andrés Manuel López Obrador, representou um novo impulso à relação com Cuba, então sob o mandato de Miguel Díaz-Canel.

López Obrador expressava abertamente sua admiração pelos cubanos "por sua arrogância de se sentirem livres" diante dos EUA e criticava as políticas de embargo econômico dos EUA sobre a ilha: "Não é mesquinha essa política medieval?", questionou o presidente mexicano em 2022.

Durante o seu mandato, López Obrador reativou os envios de petróleo a Cuba e firmou acordos que incluíram desde a chegada de médicos cubanos para atuar em clínicas remotas no México até a compra de vacinas durante a pandemia de covid-19 e a impressão de livros didáticos cubanos em gráficas mexicanas.

Prado Lallande avalia que, a partir de então, tornou-se evidente a diferença entre a cooperação "horizontal" mantida nos governos do PRI com Cuba, com intercâmbios de ambas as partes, e a assistência "vertical" iniciada no governo López Obrador e mantida pela presidente Claudia Sheinbaum desde 2024.

"Diante do agravamento da situação cubana, no plano político e social, e considerando a força do presidente López Obrador e sua visão de um governo assistencialista, o México estendeu apoio a Cuba não propriamente como cooperação, mas sobretudo por meio de uma relação de caráter assistencial e paternalista", afirma o especialista.

López Obrador estreitou a relação entre México e Cuba, país pelo qual não hesitou em expressar sua admiração
López Obrador estreitou a relação entre México e Cuba, país pelo qual não hesitou em expressar sua admiração
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A empresa estatal Petróleos Mexicanos (Pemex) passou a vender petróleo a Cuba "em termos muito generosos", afirma Prado Lallande.

Embora não tenham sido divulgadas informações detalhadas sobre vendas diretas à ilha, o atual diretor da Pemex, Víctor Rodríguez Padilla, informou no início de fevereiro que o montante comercializado alcançou US$ 496 milhões (cerca de R$ 2,59 bilhões, pela cotação atual), com contrato em vigor desde 2023.

Ele relativizou as críticas da oposição ao afirmar que o volume representava menos de 0,1% da produção mexicana.

Segundo os relatórios mais recentes disponíveis da Pemex, de janeiro a setembro de 2025 o México enviou 17.200 barris de petróleo por dia, o equivalente a 3,3% das vendas externas do país.

Questionado por jornalistas, Padilla evitou informar quanto é destinado à ilha em termos de assistência direta, mas declarou que "é muito mais por contrato do que por ajuda humanitária".

A partir da ameaça tarifária de Trump, no entanto, o México passou a enfrentar um cenário sem precedentes, no qual se viu obrigado a deixar de cooperar livremente com Cuba.

Sheinbaum criticou a decisão dos EUA, que definiu como "muito injusta" por afetar diretamente a população ao limitar a produção de energia elétrica e paralisar, de forma geral, as atividades na ilha.

"Pode-se estar de acordo ou não com o regime do governo de Cuba, mas a população nunca deve ser afetada. Portanto, vamos continuar apoiando e seguimos realizando todas as ações diplomáticas necessárias para recuperar o envio de petróleo, porque não se pode sufocar um povo assim, dessa maneira. É muito injusto, muito injusto", afirmou a presidente mexicana.

O governo de Sheinbaum enviou ajuda humanitária a Cuba em navios da Marinha mexicana
O governo de Sheinbaum enviou ajuda humanitária a Cuba em navios da Marinha mexicana
Foto: SRE / BBC News Brasil

O México já enviou dois navios carregados com alimentos e itens de higiene pessoal para a ilha, mas não enviou mais petróleo enquanto mantém conversas com o governo dos EUA sobre o tipo de sanções que poderão ser impostas caso isso ocorra.

"Por enquanto, não vamos enviar combustível", afirmou Sheinbaum.

O antigo pacto que perdurou por décadas foi deixado de lado: "O fluxo de cooperação para Cuba nunca havia sido interrompido por forças externas. É uma mudança muito importante, estrutural, que o México tenha sido obrigado a parar. E, diante disso, recorre ao plano B, que é oferecer ajuda humanitária", diz Prado Lallande.

Embora o México já não mantenha um intercâmbio direto com uma Cuba que não pode oferecer algo em troca, a lógica de preservar o apoio à ilha continua sendo central, avalia o especialista.

"É preciso pagar um custo, e esse custo é manter essa ajuda humanitária para que o México retenha sua capacidade de negociação, conquistada ao longo de décadas, em relação a Cuba e seu futuro", explica.

"É um exercício estratégico de política externa. Independentemente do partido político que governe o México, Cuba é um objetivo de Estado pelo peso político da ilha, sua proximidade geográfica, sua relevância nas relações internacionais e na política em relação aos EUA", prossegue.

"A linha vermelha — que o México não está disposto a cruzar — seria deixar de fazer política externa em relação a Cuba."

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