Preço do hambúrguer: termômetro de uma economia mundial sob tensão
Símbolo do soft power americano durante a Guerra Fria, o hambúrguer é consumido no mundo inteiro, com suas variações regionais, conforme o gosto dos clientes. Em um mundo sob tensões geopolíticas cada vez mais fortes e com impactos crescentes das mudanças climáticas sobre a produção agrícola mundial, o custo do sanduíche também é uma referência das pressões sobre os preços dos alimentos.
O preço do hambúrguer tornou-se um termômetro da inflação e das tensões econômicas globais. Impulsionado por guerras, alta nos custos de energia, secas e protecionismo comercial, o encarecimento da carne e de insumos elevou os preços de redes como o McDonald's nos EUA e na Europa. A situação afasta consumidores de menor renda e pressiona comerciantes, que reduzem margens e diversificam cardápios com opções mais baratas para conter a fuga de clientes diante da crise de segurança alimentar.
Não à toa, ele se tornou um parâmetro informal da economia, criado há 40 anos pela revista The Economist: o índice Big Mac. Nos Estados Unidos, o preço do hambúrguer entrou na pauta das eleições parlamentares de meio de mandato, em um contexto de alta da inflação. Os americanos sentem no bolso os efeitos negativos das guerras sobre os alimentos, mas também dos bloqueios às importações impostos pelo presidente Donald Trump desde que voltou ao poder.
Entre 2019 e 2024, o valor das ofertas da rede McDonald's subiu 40%, levando a uma queda de 10% na frequência dos restaurantes entre as populações de menor renda, segundo números da própria empresa. Em Los Angeles, a reportagem RFI encontrou Andy, que abriu mão das grandes redes na hora do almoço e passou a optar por comerciantes independentes, com valores mais acessíveis.
"Até pouco tempo atrás, nas redes de fast-food, o combo custava US$ 8,99. Agora, no Burger King, sai por quase US$ 18. Isso pesa para mim", afirma ele. "Tenho a sorte de a empresa para a qual trabalho pagar a minha gasolina, mas se eu tivesse que arcar com o preço atual do combustível, eu teria que preparar meu almoço em casa e trazer."
Guerras, energia e cadeia do hambúrguer
Um simples hambúrguer envolve uma grande cadeia de produtos e serviços: desde as matérias-primas - trigo, carne, verduras - até a industrialização de ingredientes, como pães e molhos, e das embalagens, sem falar nos transportes.
Rússia e Ucrânia estão entre as maiores exportadoras de cereais do mundo, e a guerra iniciada em 2022 gerou volatilidade nos preços desde então. O conflito também impactou o mercado de fertilizantes agrícolas, que tem na Rússia a principal produtora e exportadora global.
Na sequência, a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã fez disparar os preços da energia, com um impacto generalizado na produção de alimentos, salienta Sébastien Abis, especialista em sistemas agrícolas e alimentares e pesquisador associado do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS), em Paris.
"Menos petróleo e menos gás são um problema para a agricultura e causam, naturalmente, um aumento nos custos de produção. Cada alta do valor da energia tem repercussões na produção agrícola e em toda a cadeia alimentar, portanto contribuirá para um aumento dos preços para o consumidor, embora essa transferência para o preço final nem sempre seja imediata", explica.
Clima extremo e segurança alimentar
"Devemos temer maiores efeitos sobre a segurança alimentar no próximo ano, principalmente na África e na Ásia, inclusive porque há um fenômeno El Niño se intensificando. Ou seja, temos neste momento uma combinação de choques que precisa ser observada de perto", frisa o especialista.
A empresa Data Essentials criou um índice de preços do hambúrguer. Segundo seus cálculos, o preço médio aumentou 14% desde 2023 nos Estados Unidos, enquanto o da carne bovina no mesmo período subiu mais de 30% - um reflexo da redução dos rebanhos no país, em parte devido ao aumento das secas.
Alguns profissionais aceitam diminuir as margens de lucro para não assustar os seus clientes. Outros distribuem a alta dos preços por todos os itens do cardápio, como batatas fritas ou bebidas. E muitos fazem as duas coisas.
O hambúrguer, consumido nos quatro cantos do planeta, reflete essas tensões em vários outros países. Na Europa, uma a cada 10 refeições feitas fora de casa é hambúrguer, afirma Maria Bertoch, da consultoria de estudos de mercado de consumo e fast food Circana. Mas, diante da subida dos preços e da ampliação da oferta de outras alternativas mais baratas, como frango frito, as redes do tradicional sanduíche são obrigadas a se adaptar.
Independentes em busca de margem
"As marcas otimizam a oferta de produtos, aumentando as opções com frango e vegetarianas, em que elas podem ter maior lucratividade. Também propõem ofertas menores, ao mesmo tempo em que continuam a tentar limitar o aumento do preço daqueles produtos 'carro-chefe', que atraem os clientes e geram tráfego nos restaurantes", indica.
Para os independentes, a margem de manobra é mais limitada. O espanhol Madison Smash Burger acaba de conquistar o terceiro lugar no concurso europeu The Champions Burger, disputado em Paris. Mas manter o preço do sanduíche básico a € 13 está cada vez mais difícil, reconhece o cofundador da marca, Christopher Fenelon:
"Todos os custos estão aumentando: carne, pão, realmente tudo está mais caro. Precisamos fazer esforços constantes para nos adaptar", diz Fenelon. "Nosso negócio está sofrendo com uma situação internacional, mas não podemos aumentar o preço do hambúrguer para € 15 ou € 16, porque ninguém compraria. Nos resta ajustar as margens e apertar o cinto."
As entrevistas ouvidas neste podcast foram feitas ao programa de economia Eco d'Ici et d'ailleurs, da RFI em francês.
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