Por que a descarbonização do agro entrou na mira de um fundo bilionário
Gestora GEF Capital, que investe em soluções climáticas, busca empresas especializadas na área para integrar fundo de investimentos Latam Climate Solutions III até o início de 2026; biofertilizantes estão no foco
A gestora de private equity (investimento em capital privado) GEF Capital quer investir em empresas especializadas em descarbonização do agro no Brasil até o início de 2026. A meta da instituição é fechar, com essas empresas, o grupo de companhias que recebem aporte do fundo Latam Climate Solutions III. O caixa total do fundo é de US$ 200 milhões (pouco mais de R$ 1 bilhão).
A GEF Capital, que investe em soluções climáticas, atua também na Índia e nos Estados Unidos. Ela já tem alocadas seis outras empresas brasileiras de setores diversificados dentro desse fundo climático, e pretende fechar o grupo com mais duas, com o apetite voltado para o agro. Os valores médios de investimento costumam variar entre R$ 100 milhões e R$ 150 milhões.
A gestora entende que o agro tem grande potencial para absorver as soluções em descarbonização, devido à necessidade de elas serem incorporadas no setor, avalia a vice-presidente da gestora, Daniela Pinto. Segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) publicados no ano passado, o setor agropecuário aparece em segundo lugar no quadro de maiores emissores no Brasil, respondendo por 28% das emissões em 2023.
"O perfil de emissões no Brasil é predominantemente relacionado ao agro. Então, se queremos continuar sendo um vetor para mexer nesse ponteiro (do investimento em sustentabilidade) no País, queremos estar presentes nesse setor."
O segmento ainda mostra resistência às soluções de descarbonização, mas já tem abertura para algumas entradas como os biofertilizantes, que foram associados com mais facilidade à eficiência e retorno financeiro, pondera a executiva. Por isso, é para as empresas especializadas em biofertilizantes que a GEF Capital tem olhado com mais atenção para esses novos aportes.
"No agro e em muitos outros setores, é preciso trazer a perspectiva de sustentabilidade absolutamente casada com a perspectiva de fazer dinheiro e aumentar a produtividade. Por isso, biológicos foi um setor que cresceu tanto. Além de ser muito mais sustentável, é tão barato quanto ou até mais barato do que a alternativa química", explica Pinto.
Dados apresentados pela GEF Capital para justificar esse interesse apontam que o mercado brasileiro de biofertilizantes tem projeção para chegar a R$ 14,3 bilhões até 2029, com um crescimento anual composto (CAGR) de 15%. Nos últimos cinco anos, o mercado de bioinsumos como um todo teria crescido 37% anualmente. "Esse potencial de crescimento brilha bastante nossos olhos dentro desse mercado."
A GEF Capital também está buscando outras tecnologias e práticas, como técnicas agrícolas de baixo carbono e agricultura de precisão, que usa ferramentas de tecnologia para otimizar o manejo agrícola, ao mesmo tempo em que reduz o impacto ambiental.
O portfólio da gestora já contém uma empresa voltada para agricultura de precisão, a ProSolus, do Paraná (PR). A companhia é especializada em oferecer soluções de plantio e pulverização para aumentar a produtividade agrícola, e atua em 16 Estados do Brasil e países vizinhos. O aporte, feito em 2021, foi de R$ 75 milhões.
Para fechar a alocação do fundo Latam Climate Solutions III, Pinto explica que já tem adiantado as negociações com empresas interessadas. "Estamos com bastante conversas ativas, algumas mais evoluídas, outras mais preliminares. Muitas são frutos de 'namoros' que foram acontecendo. Há mais de 10 empresas mapeadas e umas cinco evoluídas."
Private equity
O modelo de investimento private equity é utilizado por fundos especializados para investir recursos em empresas que não estão listadas em bolsa (empresas de capital fechado). Dessa maneira, esses fundos assumem participações relevantes nas companhias, com a intenção de aumentar o seu valor em um determinado tempo. Após esse período, o fundo sai da empresa, vendendo sua participação e obtendo o lucro gerado.
Por conta dessas características, esse tipo de investimento é voltado para empresas com maior tempo de maturidade no mercado, diferentemente dos investimentos-anjo, que são feitos para empresas em estágio inicial.
"Quando conversamos com uma nova empresa, principalmente em mercados que ainda não estão tão acostumados com esse tipo de capital, há um processo de mostrar o que fazemos para criar o conforto de que estamos procurando uma parceria benéfica para os dois lados. Queremos viabilizar um crescimento de maneira mais acelerada, sem que o empreendedor perca o controle das decisões", afirma Pinto.
Dentro do fundo Latam Climate Solutions III, a GEF Capital mantém investidas: a HCC Solar, que atua com projetos fotovoltaicos e engenharia elétrica; a Automa, voltada para o ganho de eficiência energética no Brasil e na Europa; a Lar Plásticos, plataforma de reciclagem de plásticos; a GR Water Solutions, especializada em soluções de tratamento de água para indústrias intensivas; a AGV operador logístico especializado em saúde e bens de consumo; e a Leveros, especializada em climatização. As duas últimas fecharam o acordo com a gestora este ano.