Otimismo exagerado é principal barreira de ação contra mudanças climáticas, aponta pesquisa
Levantamento também indica falta de informação e de esperança como atitudes limitadoras; para especialistas, melhor estratégia para as empresas é entranhar sustentabilidade em sua cultura
O otimismo exagerado de que será possível evitar as piores consequências das mudanças climáticas é a principal barreira para uma ação decisiva contra elas, aponta a pesquisa "Social Intelligence for Climate Action" (Inteligência Social para a Ação Climática, em tradução livre) realizada pela consultoria Capgemini, em parceria com a empresa de tecnologia Dassault Systemes e a startup de análise de dados Bloom.
O levantamento, feito a partir de coletas de dados nas redes sociais, também apontou outras quatro barreiras relevantes: falta de informação, medo de consequências ruins das ações ambientais, delegação de autoridade e falta de esperança.
A pesquisa foi feita com dados da internet em língua inglesa, por meio de plataformas como Facebook, Instagram, TikTok, YouTube e X (antigo Twitter). A ideia foi chegar ao máximo de países e regiões do globo e captar os sentimentos e o vocabulário utilizados pelas pessoas para falar sobre o tema. Foram analisados mais de 480 milhões de ações e engajamentos, de 330 milhões de pessoas, em 14 milhões de documentos agregados sobre as mudanças climáticas.
O medo de consequências ruins das ações ambientais é outro obstáculo para a ação. Mais regulações podem complicar o mercado para pequenas e médias empresas, e trabalhadores de setores como os de produção de combustíveis fósseis podem perder os empregos — assim, se torna necessário um plano que garanta recolocação profissional e que as necessidades básicas desses indivíduos e suas famílias sejam atendidas.
A delegação de autoridade é uma atitude na qual os cidadãos deixam apenas a cargo das empresas e governos tomarem atitudes para conter a crise climática. Contudo, a participação das pessoas comuns também é possível e necessária para evitar as piores consequências. "O poder individual menor é potencializado pelo poder coletivo", cita Queiroz, destacando os boicotes como uma forma de ação. Outras, como protestos e ações judiciais, também são possíveis.
Por fim, a falta de esperança leva a pensamentos como "para que agir, se será impossível evitar?". Assim como seu "oposto", o otimismo exagerado, a solução é fornecer informações corretas para demonstrar que ainda há possibilidade de evitar o pior. "Uma via é abrir fóruns de discussão, desde que baseado em dados reais, em informações concretas", diz Queiroz. Ele menciona ainda que, apesar do otimismo aparecer mais na crise climática, a falta de esperança predomina ao se tratar da erradicação da pobreza.
Empresas
Outro estudo da Capgemini, o Climate Tech, lançado em abril, aponta que a maioria das empresas ainda não vê a pauta ambiental como uma chance de investimento, e sim como um gasto. Apenas 21% dos executivos concordam com a afirmação de que "os argumentos econômicos a favor da sustentabilidade são claros", e para 53%, as iniciativas de sustentabilidade são um encargo financeiro que tem de ser suportado para fazer negócios, ao comentar sobre o hidrogênio verde.
Apenas 11% das organizações foram classificadas como sustentáveis, mas dentre estas, a margem de lucro líquido foi 9% maior em comparação com a média, e 83% tiveram receitas mais elevadas por empregado em comparação com a média. "Temos que apresentar business cases que fogem dos tradicionais", comenta Queiroz. Ele alerta que o custo de uma empresa não se preocupar com a sustentabilidade, no futuro, é ir à falência.
"Hoje, as empresas não aplicam a sustentabilidade na estratégia de crescimento como um todo, tem apenas iniciativas no marketing, na comunicação com a sociedade. Enquanto não levar como um pilar da estratégia de crescimento, não vai trazer retorno", projeta o especialista da Capgemini.
A melhor estratégia para conseguir isso é entranhar a sustentabilidade na cultura da empresa, desde os mais altos cargos, que devem ter suas remunerações e bônus atrelados ao resultado alcançado no tema, até o operacional. Contratar funcionários com habilidades relacionadas a temas ambientais é um passo, assim como treinar os que já estão na empresa. Criar um portal colaborativo ajuda.
A pesquisa "Social Intelligence for Climate Action" aponta ainda outras ações possíveis: transmitir as mensagens corporativas de forma eficiente e sem greenwashing, lidar também com as ações sociais, e assumir responsabilidades. "Não adianta um setor empurrar a responsabilidade para outro", adverte Queiroz. Mesmo para as empresas brasileiras, há oportunidades — o Brasil pode ser um grande solucionador de questões ambientais e climáticas, devido aos seus recursos naturais e expertise no assunto.