Moeda social da Catalunha, Ecosol emerge da crise espanhola
Chegar à Catalunha significa conhecer o catalão, nas placas de informações turísticas ou na voz dos passantes pela rua. Mas quem adentra mais um pouco nessa peculiar região também poderá ter contato com uma nova cultura financeira. A folha verde, com o escrito na língua catalã "per una economia democràtica, solidària i sostenible" (na tradução, "por uma economia democrática, solidária e sustentável"), representa o Ecosol, nova moeda alternativa que procura promover esses ideais entre os catalões nas relações de comércio.
A Ecosol foi apresentada na 2ª Feira de Economia Solidária da Catalunha e é uma das moedas alternativas que circulam na Espanha. No Brasil, se tem como exemplo as Palmas, cujo intuito é movimentar comercialmente pequenas comunidades. Implantada no início de 2013, a Ecosol equivale a exatamente um euro. Para incentivar os consumidores, com 10 euros podem ser adquiridos 11 unidades de Ecosol, o que significa um ganho de 10% na compra de qualquer produto que estiver tarifado pela moeda.
O seu surgimento é, em parte, consequência do passado histórico da região, que foi fortemente afetado pela Guerra Civil Espanhola entre 1936 e 1939. A professora de história contemporânea da Universidade Federal do Tocantins (UFT) Ana Lucia Gomes Muniz afirma que a Catalunha sempre viveu em choque com o governo castelhano devido ao movimento operário que teve forte expressão até os anos 1930. "Foi uma experiência de cooperativismo, marcado pelo movimento anarquista espanhol, centrado na Catalunha. Foi o maior movimento mundial e deixou sua marca", explica Ana Lucia.
A professora da UFT explica que o surgimento da moeda é um indício de uma solidariedade histórica que ainda aparece em determinados grupos. "A Ecosol é uma junção de entidades que, em sua maioria, são cooperativas de produtores e consumidores. Ela não visa o lucro, mas promover o bem-estar e, se possível, voltar à noção de moeda em sua origem, apenas como meio de troca", afirma.
Para o professor de Relações Internacionais da ESPM-SP Leonardo Trevisan, além de ser consequência da história da região, o surgimento da moeda também se deve ao conturbado momento espanhol. Ele acredita que a crise financeira que elevou a taxa de desemprego no país, prejudicando fortemente o setor de comércio, trouxe de volta a ideia de escambo entre alguns segmentos sociais espanhóis. "É a troca sem dinheiro. Devido à crise, as pessoas estão sendo obrigadas a trocar itens pessoais. A moeda cria uma parâmetro para essa troca. Então, a Ecosol é um produto dessa situação de crise", acredita Trevisan. Por ter esse objetivo, a sua circulação fica restrita entre produtores, pequenos comerciantes e seus consumidores.
A Ecosol não é a única a moeda alternativa espanhola. No País Basco, região próxima à fronteira com a França, o Eusko também circula entre pequenas comunidades com o objetivo de promover o comércio local e a solidariedade entre os usuários da moeda. Ela foi lançada em janeiro de 2013 na parte norte do País Basco, e ainda se estuda a possibilidade de chegar até o Sul. Assim como o Ecosol, seu valor é de um euro.
Apesar do que pode parecer, essas moedas não têm o intuito de substituir o euro. No site oficial da Ecosol, há a explicação de que poderá ser usada como alternativa à moeda da União Europeia ou para complementá-la. Com isso, o comerciante pode decidir como irá aceitá-la nas transações com consumidores. O dono do estabelecimento pode, por exemplo, estabelecer que o pagamento seja 10% ou 50% em Ecosol e o restante em euros, assim como pode colocar o preço total do produto em Ecosol. A decisão é do comerciante.
Ana Lucia acredita que essas moedas não tenham influência nos ideias separatistas que essas regiões já nutriram no seu passado e que se conserva um pouco ainda hoje. "Dentro do contexto brutal e mundial, a Ecosol é uma alternativa muito restrita e não tem muita chance", afirma a professora de história contemporânea. Por isso, seu impacto na economia espanhola, catalã e basca não deve ser significativo. "Não acredito que vá ter grandes impactos a longo nem a curto prazo. A economia espanhola deve tomar o mesmo caminho da alemã, com forte foco na exportação e, para isso, é preciso o euro", observa Trevisan.