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'Ninguém vai pensar em tecnologia se está com fome', diz secretária de Inovação do RS

Palestrante do São Paulo Innovation Week, Lisiane Lemos afirma que a inteligência artificial tem capacidade de incluir pessoas no mercado de trabalho, mas pode excluir se não houver contexto

30 abr 2026 - 19h45
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A revolução econômica e social prometida pela inteligência artificial esbarra em um Brasil de contrastes. Para Lisiane Lemos, secretária de Inovação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, a tecnologia tem o potencial de incluir grupos sub-representados no mercado de trabalho, mas pode ser um fator de exclusão, se os algoritmos ignorarem o contexto humano.

"Quando levamos as bases de dados para a inteligência artificial, temos de estar atentos aos ajustes e interpretações. Se fosse só algo preditivo, não estaríamos aqui conversando. Estatisticamente, a chance de eu ser uma mulher jovem, negra e gaúcha numa cadeira de ciência e tecnologia beira o zero porque não temos série histórica. Ninguém como eu sentou nessa cadeira", diz Lisiane Lemos.

A secretária lidera um ecossistema governamental que vai de projetos de qualificação de professores a iniciativas de inclusão digital de idosos, passando por políticas de resiliência climática e programas de formação de engenheiros.

À frente da pasta de inovação em um Estado com quase 11 milhões de habitantes, a executiva já trabalhou no Google e na Microsoft, foi Forbes Under 30 e é Top Voice LinkedIn. Dessas experiências, aponta os paradoxos do Brasil, que desenvolve tecnologias pioneiras em centros de pesquisa, mas que ainda luta contra o analfabetismo digital e a falta de conectividade básica.

Lisiane Lemos, secretária de Inovação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, afirma que é fundamental ter diversidade proporcional nos espaços de decisão e conselhos de administração
Lisiane Lemos, secretária de Inovação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, afirma que é fundamental ter diversidade proporcional nos espaços de decisão e conselhos de administração
Foto: Divulgação / Estadão

Em conversa com o Estadão, Lisiane cita a importância da tecnologia para a emancipação de mulheres vítimas das tragédias que afetaram o Estado gaúcho e de violência doméstica, explica o papel da diversidade nas companhias e defende que "toda empresa será uma empresa de tecnologia".

Ela é uma das palestrantes confirmadas no São Paulo Innovation Week. O evento de inovação, tecnologia e empreendedorismo reunirá mais de 2 mil convidados brasileiros e internacionais, entre os dias 13 e 15 de maio, na Arena Pacaembu e na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap).

O festival é uma realização do Estadão, em parceria com a Base Eventos. Assinantes podem comprar ingressos com 35% de desconto: para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes podem acessar este link.

Ao mesmo tempo em que vemos profissionais com medo da inteligência artificial, observamos outros que se tornaram mais produtivos usando a ferramenta. No fim, a IA ajuda a incluir ou é um fator excludente no mercado de trabalho?

Ela pode ser os dois, dependendo de como nos inserimos e do que faremos com ela. Falando de minha trajetória, a tecnologia transformou de onde vim, para onde vou e o que quero do futuro. Sou uma mulher nascida e criada no Rio Grande do Sul, construí minha carreira entre Microsoft, Google e a Secretaria de Estado. Morei no continente africano. E nada disso seria possível sem a internet. A tecnologia inclui ao dar ferramentas para que pessoas de grupos sub-representados ou vulnerabilizados transformem suas vidas. Por outro lado, ela exclui quando decisões sobre a vida das pessoas, como acesso à educação, crédito, transporte e comunicação, são tomadas exclusivamente por algoritmos e IA.

Para questionar ou avançar, precisamos entender como essas ferramentas funcionam. Desde o meu trabalho na Secretaria de Inclusão Digital, sou a favor (da tecnologia) pela questão de escala e acesso a conhecimento. Na minha visão, a IA vem majoritariamente para incluir, mas tem potencial de exclusão que só será mitigado se cada um dedicar tempo para estudar seus efeitos no cotidiano.

E como o Brasil participa desse mercado? Nós estamos avançados ou atrasados na relação com a tecnologia e IA?

Depende. Em termos de pesquisa acadêmica e visão de futuro, estamos muito à frente. Temos o CPQD em Campinas desenvolvendo 5G, 6G, carros elétricos e uso de fibra ótica, além de parques tecnológicos no Rio Grande do Sul que superam centros na Europa e nos Estados Unidos. O Brasil é, sim, um país de futuro quando falamos de inteligência artificial, produção de conhecimento e incentivo à pesquisa, embora precise de mais investimento e visibilidade.

Ao mesmo tempo, temos uma massa populacional analfabeta e sem acesso básico à internet, saneamento, saúde e educação. Como a gente traz essas pessoas para o centro do progresso? E como incentivamos que países estrangeiros vejam o Brasil como um parceiro no desenvolvimento de novas tecnologias e pesquisas?

Quais são as principais travas dessa jornada?

São vários entraves. Primeiro, a infraestrutura, especialmente em um Estado como o Rio Grande do Sul, que enfrentou desastres climáticos severos que arrasaram toda a infraestrutura. Existe um processo de reconstrução e cabeamento a ser desenvolvido. O restante do Brasil enfrenta desafios semelhantes. Existe um Brasil urbanizado no eixo Rio-São Paulo, tem o Brasil do agro e do campo. Como eu faço para, por exemplo, ter internet das coisas e sensores em todos esses lugares? Infraestrutura, energia e transporte são necessários. Não é só a IA pela IA.

Além disso, existe o entrave de acesso técnico e de conhecimento. Quem é que vai operar essas novas máquinas? Esse é um grande desafio no Rio Grande do Sul, que é o Estado mais longevo do Brasil. Quando falamos de tecnologia é sempre sobre os jovens, mas e as pessoas idosas? Como é que uma pessoa com 50, 60 anos vai se recapacitar?

Achamos que existe transformação cultural porque mais de 60% da população fala que já usou inteligência artificial, como o ChatGPT. Agora (as pessoas) estão apreensivas que o ChatGPT vai tomar o emprego delas e acabar com tudo. Aprendi que a tecnologia vem para alavancar o que temos de melhor e poupar tempo para o que gostamos. Como eu faço dessa transformação um alavancador do potencial humano?

Você construiu carreira em big techs e agora atua no setor público, que tem fama de ser mais lento. Como você aplica suas experiências anteriores nesta nova realidade?

No setor público, existe desconhecimento por parte da população da influência das leis no dia a dia. Nós somos o primeiro Estado a ter internet como um direito fundamental. Porém, temos legisladores que não têm conhecimento do marco legal da internet. Hoje, tenho noção da grandeza e da influência do governo para criação e uso da tecnologia. E essas pessoas não têm conhecimento técnico para fazer esses marcos legais.

O setor público tem a fama de ser mais burocrático e devagar porque as pessoas não têm noção da ordem de grandeza do impacto que temos e das consequências dos nossos atos. Uma coisa é ser gerente do Google. Na área de recrutamento, meu impacto era de 5 mil a no máximo 10 mil pessoas. Agora eu impacto indiretamente 11 milhões. A decisão que eu tomar hoje pode refletir no próximo governo, na próxima década ou no próximo século. Ela (a decisão) exige um nível de pensamento maior, um nível de criticidade maior e uma responsabilização muito maior. Tem de ter processo, tem de garantir que a gente está fazendo o certo pelo bem público.

É um ritmo mais lento, mas isso não pode impedir de pensar em novos mecanismos e parcerias para trazer agilidade. Fizemos imersão de grandes empresas de tecnologia para apresentar esse mundo aos nossos agentes públicos. No segundo ano, comecei a fazer acordos de cooperação e protocolos de intenção para oferecer treinamentos de tecnologia e inteligência artificial à população de forma gratuita. Trouxe a criatividade do setor privado: pensar no que podemos fazer diferente e trazer novas soluções.

Você tem um programa voltado à inclusão tecnológica de idosos. Onde reside a maior barreira desse movimento? Nas empresas ou no próprio público?

Em ambos. Das empresas, dou o exemplo de um benchmark na área de saúde, em que o aumento da fonte no aplicativo melhorou a usabilidade em 45%. As empresas, às vezes, não entendem como pequenas modificações fazem sentido conforme envelhecemos. Isso acontece porque não tem pessoas idosas ou com deficiência dentro das empresas, desenvolvendo as soluções. A inovação de verdade só funciona quando as pessoas que são atingidas estão à mesa tomando as decisões. Meu trabalho é orientado por dados e complementado por experiência.

Sobre a própria população, acho que não temos incentivos e recompensas para que essas pessoas façam uso da internet e elas ficam cada vez mais excluídas. A tecnologia tem de ir até as pessoas, não as pessoas atrás da tecnologia. Se você não tem um laboratório com um instrutor que pegue pela mão, a chance de aprendizagem é muito baixa. Por isso, temos muitos laboratórios descentralizados.

Também fazemos cursos focados para populações minorizadas. Se é para mulheres, a maioria das instrutoras são mulheres. Se é para jovens, que os instrutores sejam jovens. Se é para idosos, que tenha a participação ativa de um instrutor idoso.

Como a diversidade pode combater os preconceitos embutidos na inteligência artificial e nas entidades, cada vez mais acostumadas a receber respostas instantâneas da IA?

Toda tecnologia é orientada a dados e comportamento. Estatisticamente, a chance de eu ser uma mulher jovem, negra e gaúcha numa cadeira de ciência e tecnologia beira o zero porque não temos série histórica. Ninguém como eu sentou nessa cadeira. Se repetirmos apenas o comportamento do passado e for olhar a população prisional ou pessoas que fazem parte do CadÚnico, repetiremos comportamentos preconceituosos. Quando levamos bases de dados para a IA, temos de estar atentos aos ajustes e interpretações. Se for só algo preditivo, não estaríamos aqui conversando.

Temos softwares que fazem reconhecimento facial e análise de sentimento voltado a processos judiciais. A primeira pergunta que eu fiz foi: "O quanto isso é baseado numa série histórica que pode prejudicar pessoas que são periféricas ou vulnerabilizadas?". Por isso, incentivamos a formação de pessoas nas áreas de engenharia com bolsas e programas de permanência escolar.

Lemos afirma que o Brasil se destaca em temas como inteligência artificial, produção de conhecimento e incentivo à pesquisa, mas precisa de mais investimento e visibilidade
Lemos afirma que o Brasil se destaca em temas como inteligência artificial, produção de conhecimento e incentivo à pesquisa, mas precisa de mais investimento e visibilidade
Foto: Divulgação / Estadão

Toda empresa será uma empresa de tecnologia. É fundamental ter diversidade proporcional nos espaços de decisão e conselhos de administração. Ter pessoas diversas permite questionar softwares que podem prejudicar pessoas periféricas. Trazer a dúvida para os espaços de poder é um grande passo para a transformação.

Também é necessário um aprendizado voltado à governança corporativa, na alta liderança. Não importa que você tenha paridade na base, se nos espaços de decisão não existe diversidade proporcional. Não pode ser algo pontual. Se eu colocar uma mulher e ela não tem voz, vai adiantar o quê?

Em que momento estamos em relação às pautas de ESG e diversidade no ambiente corporativo?

Vivemos ciclos. No final de 2013, tivemos um grande ciclo de diversidade e inclusão, com a criação de muitos grupos de afinidade. Eu mesma cocriei a rede de profissionais negros, que foi a primeira rede focada no mundo corporativo no Brasil. Tivemos uma onda de fortalecimento desses grupos. Depois teve uma queda antes de 2019. A crise econômica e o cenário político colocaram a pauta em segundo plano.

Durante a pandemia, com o caso George Floyd e o do Carrefour, voltamos ao pico de ESG. Acredito que agora estamos no vale de novo. Tanto por questões macroeconômicas quanto pela guerra, questões de diversidade e inclusão ficaram em segundo plano. O maior retrato disso é a diminuição de mulheres, pessoas negras, pessoas com deficiência e LGBTQPN+ em posições de liderança em grandes empresas.

Daqui a pouco voltamos de novo a um pico e veremos um fortalecimento da estratégia ESG, com conversas sobre energia limpa e sustentabilidade, e pautas sociais. Nosso papel sempre foram as constantes defesas dessas pautas e estarmos preparados, com pessoas, alianças e materiais, para fortalecer o movimento.

Falando dessa inclusão, o esforço das empresas em diversidade e ESG é genuíno ou apenas marketing?

Tem empresas que são puramente marketing e existem aquelas que fazem isso de forma genuína. Quando é só marketing, a iniciativa não se sustenta. E aí a gente tem de entender: "será que estou disposto a trabalhar numa empresa que vai contra os meus valores?"

Eu, felizmente, posso trabalhar em um lugar que tem pautas que eu acredito. Por exemplo, a gente foi o primeiro Estado no Brasil a fazer um treinamento antirracista para alta liderança.

Quais iniciativas você implementou desde que assumiu esse papel no Estado?

Entendemos que, para fazer inclusão digital, primeiro temos de cuidar das pessoas. Ninguém vai pensar em tecnologia e inovação se está passando fome e frio. Essa pessoa tem de ter acesso a políticas sociais. Temos o Programa Família Gaúcha para manutenção de jovens na escola de famílias em situação de vulnerabilidade. Feito o básico, voltamos para o letramento digital.

Temos um mapeamento de alta vulnerabilidade e criminalidade. Quais são os locais com maior número de crimes letais e roubos? Esses são os primeiros que a gente orienta a fazer política pública. Dentro de equipamentos, chamados de centros de juventude, temos laboratórios de costura, tecnologia, cabeleireiro, maquiador e barbeiro. Acho que todos deveriam aprender a programar, mas se a pessoa deseja fazer um curso de cuidador de idosos, de barbeiro ou de cabeleireiro, tenho de ajudá-la a endereçar essa vocação e tentar um meio do caminho entre os dois.

Lemos comanda programa voltado à inclusão tecnológica de idosos e aponta a importância de ter esse público ativo no mercado de tecnologia
Lemos comanda programa voltado à inclusão tecnológica de idosos e aponta a importância de ter esse público ativo no mercado de tecnologia
Foto: Divulgação / Estadão

Também temos programas como o Professor do Amanhã, para suprir a lacuna de professores, e o RS Talentos, formando engenheiros e profissionais técnicos. Por último, temos o Avança Mulher Empreendedora, projeto que cocriei com a Lauren Mombak, primeira mulher presidente da Junta Comercial em 150 anos, para garantir autonomia financeira a mulheres que foram atingidas pelos desastres climáticos ou estão em situação de violência.

Começa por coisas básicas, como formalização do CNPJ e a jornada de bancarização. Ajudamos a estruturar um negócio com um plano, logo etc. Depois, ajudamos com capital semente e acompanhamos durante 90 dias para ver se ela está colocando em prática o conhecimento.

E onde entra a tecnologia?

A tecnologia permeia todas as etapas. Não dá para vender sem rede social, acessar o banco sem celular ou pedir crédito sem documentação digital.

Porém, os dados não contam toda a história. É necessário visitar o lugar, conhecer as pessoas e escutar. E a representatividade importa. Não dá para dizer que minha jornada teria sido a mesma se as pessoas as quais eu sirvo não se enxergassem em mim, seja porque eu sou local, seja porque eu fiz essa trajetória de ir e voltar ou porque eu pareço com as pessoas que moram nesses territórios de alta vulnerabilidade.

Você mencionou que toda empresa será uma empresa de tecnologia. Pode elaborar melhor essa ideia?

A chave do sucesso de qualquer carreira é ser um tradutor para outras pessoas. Tudo que a gente conversa aqui, você tem de chegar em casa e compartilhar com a sua família e com seus amigos. O presente para a gente é um futuro para alguém. No meu dia a dia, é normal falar de cloud code, de data center, de modernização de 5G, de internet das coisas. Porém, para uma pessoa que nunca teve acesso a um computador, isso é o futuro. Quem souber traduzir esses mundos diferentes é que vai funcionar.

No mundo corporativo, o poder do pequeno e médio empreendedor frente ao grande é a conexão afetiva. Ele tem um conhecimento sobre o cliente que o outro não tem. Quando o feirante sabe que o aniversário da sua mãe e manda um presente é mais eficiente do que receber um e-mail com 10% de desconto. Essa conexão afetiva é mais poderosa do que um algoritmo.

Para Lisiane Lemos, secretária de inovação, ciência e tecnologia do Rio Grande do Sul, algoritmos não pode ser usados sem uma análise do contexto
Para Lisiane Lemos, secretária de inovação, ciência e tecnologia do Rio Grande do Sul, algoritmos não pode ser usados sem uma análise do contexto
Foto: Divulgação / Estadão

E é muito mais fácil eu, que trabalhei com diversidade e inclusão, aprender sobre tecnologia do que um programador aprender sobre os anos de experiência que eu tenho. A gente tende a ser especialista no mundo de generalistas. Entender como a sua área está se modernizando, quais sensores ou ideias eu poderia ter. A Luiza Trajano perguntava: "Se você tivesse todo o dinheiro do mundo, o que você faria pela sua indústria?"

As pessoas têm de entender os desafios da sua área e saber como isso pode ser solucionado por um agente que aprende com a nossa experiência. Toda empresa será uma empresa de tecnologia porque a tecnologia se aplica à construção, à indústria siderúrgica, ao agro, à diversidade, à inclusão e ao RH.

Algum último comentário?

Pensando no São Paulo Innovation Week, estamos falando de inovação. Se eu pudesse dar uma dica é: seja a pessoa mais preparada no evento. Veja a programação, com foco na sua carreira. Deixe o seu perfil e currículo prontos. Vá com boas perguntas para os palestrantes. Foram nesses grandes eventos que fiz todas as grandes transformações da minha carreira.

Então, quem é o palestrante que você quer assistir? Se você tiver a chance de fazer uma pergunta, qual é a pergunta que você vai fazer? Não vai só por ir. E tendo a oportunidade, devolva para o seu grupo e para sociedade o que aprendeu. De novo, parafraseando Luiza Trajano, a gente é do tamanho do que a gente compartilha. É assim que transformamos a sociedade, uma conversa por vez.

Estadão
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