'Mineração exige associar a extração à descarbonização global', diz presidente da Cedro
Para José Carlos Martins, futuro do setor passa por minério de alta qualidade, tecnologia, infraestrutura e menor impacto ambiental
A mineração brasileira passa por uma transição estrutural para alinhar a extração à descarbonização global, focando na oferta de minério de alta pureza para a siderurgia sustentável. Para consolidar esse modelo e eliminar barragens, o setor amplia aportes em tecnologia e práticas ESG. Contudo, o crescimento ainda é limitado por gargalos críticos, como a carência de infraestrutura em portos e ferrovias, a morosidade no licenciamento ambiental e o alto custo de transição tecnológica.
ESPECIAL PARA O ESTADÃO - A mineração brasileira passa por uma profunda transformação, em que o desafio deixou de ser apenas ampliar a produção e passou a ser oferecer minério de alta qualidade, com menor impacto ambiental e capaz de atender à demanda da siderurgia verde. Para isso, o setor terá de investir em tecnologia, infraestrutura e governança, além de avançar em ações para descarbonização das operações.
"O setor mineral vive uma transição profunda. O caminho exige associar a extração à descarbonização global", afirma José Carlos Martins, presidente do conselho de administração da Cedro Participações.
Segundo ele, porém, o País ainda precisa encarar outras questões relevantes. "Os gargalos mais críticos estão na infraestrutura logística (falta de capacidade em portos e ferrovias) e na morosidade dos processos de licenciamento", afirmou.
Ele foi um dos palestrantes do Fórum Minério Verde, realizado no dia 20 passado, em São Paulo (assista à íntegra do debate aqui).
A seguir, a entrevista concedida por Martins ao Estadão.
Quais são os rumos para o setor de mineração no Brasil?
O setor mineral brasileiro atravessa uma transformação estrutural sem precedentes, na qual a legitimidade e a longevidade da atividade dependem diretamente de sua capacidade de atuar como vetor da descarbonização global. O antigo paradigma pautado exclusivamente no volume de extração dá lugar a uma estratégia focada no valor agregado, na excelência metalúrgica e no alinhamento rigoroso com as metas de transição energética das grandes siderúrgicas mundiais. Para isso, temos alguns desafios que são a entrega de minério de altíssimo teor e siderurgia verde. A demanda internacional migra decisivamente para produtos premium (com teores de ferro que chegam a 68%) e para o pellet feed de alta pureza. Esses insumos são indispensáveis para os processos de Redução Direta (como os reatores DRI/H2, alimentados por hidrogênio verde ou gás natural), permitindo corte drástico nas emissões de CO2 em comparação com os altos-fornos tradicionais a carvão mineral, agregação de valor e inovação processual. O futuro do setor exige investir fortemente em tecnologias de beneficiamento avançado e concentração a seco, eliminando a dependência de barragens de rejeitos e gerando produtos sob medida para as especificações técnicas das usinas de aço mais eficientes do planeta, e sólida governança e transparência (ESG). A consolidação do novo perfil da mineração exige práticas corporativas impecáveis, rastreabilidade total da cadeia produtiva, segurança de processos de nível mundial e uma gestão socioambiental proativa que assegure a licença social para operar, e autonomia e eficiência logística. Para garantir competitividade global e resiliência nas exportações, torna-se estratégico o investimento direto e contínuo em infraestrutura própria ou compartilhada de transporte — integrando malhas ferroviárias modernas e terminais portuários dedicados e de alta capacidade.
Quais são os caminhos para o crescimento do setor?
A mineração é a espinha dorsal da balança comercial brasileira e da indústria de base. Para o setor crescer, o caminho está na eficiência operacional, na inovação tecnológica e em aportes estratégicos — na Cedro, por exemplo, temos um plano de investimentos focado em minério de ferro e infraestrutura. O Brasil possui vocação mineral única e um potencial geológico imenso que ainda precisa ser mapeado e explorado.
Onde estão os entraves?
Os gargalos mais críticos estão na infraestrutura logística (falta de capacidade em portos e ferrovias) e na morosidade dos processos de licenciamento. Além disso, existe hoje uma percepção de mercado por vezes distorcida em relação ao real valor do setor. Outro desafio é a necessidade de capital intensivo para transitar rumo a tecnologias mais limpas. A superação dos entraves estruturais do setor mineral é uma precondição para que o Brasil consolide sua liderança na transição global para uma mineração de baixo carbono. Os gargalos enfrentados pelas mineradoras ultrapassam as fronteiras operacionais da mina, alcançando a gestão pública, o mercado de capitais e a percepção da sociedade civil. O enfrentamento dessas barreiras exige uma agenda articulada de reformas regulatórias, atração de investimentos e comunicação estratégica. A capacidade esgotada de ferrovias e terminais portuários, por exemplo, limita o escoamento eficiente da produção e encarece o custo do frete por tonelada. Sem uma malha multimodal integrada e a expansão da capacidade portuária dedicada, o país corre o risco de criar "apagões operacionais" para o minério de alta qualidade. A insegurança jurídica e burocracia de licenciamento com uma excessiva morosidade na concessão de licenças ambientais gera volatilidade e imprevisibilidade aos cronogramas de projetos. A falta de critérios padronizados e a sobreposição de competências entre órgãos reguladores paralisam bilhões de reais em investimentos que poderiam modernizar o setor. O setor ainda enfrenta um estigma reputacional derivado de acidentes passados, o que muitas vezes oculta na precificação de mercado o papel fundamental que a mineração desempenha para a própria transição energética global (fornecendo insumos indispensáveis para tecnologias limpas) e por último custo do capital e financiamento da transição que é a migração para tecnologias sustentáveis - como beneficiamento a seco, eletrificação de frotas e filtragem de rejeitos - exige CAPEX massivo e contínuo. A captação desses recursos é dificultada pela taxa de juros e pela restrição de capital internacional para ativos perceptivelmente de maior risco.
Como o sr. define o propósito principal da Cedro Mineração e qual é o maior diferencial competitivo da empresa hoje?
Nosso propósito é produzir minério de ferro de alta qualidade de forma responsável, ágil e com foco em eficiência operacional, mostrando que uma mineradora independente pode competir e crescer com sustentabilidade. Abastecemos tanto o mercado interno, fortalecendo a siderurgia nacional, quanto o mercado externo, atendendo clientes exigentes que buscam minério com excelente teor de ferro. A flexibilidade operacional e a rapidez na tomada de decisões são nossos diferenciais. Conseguimos nos adaptar às oscilações do mercado global muito mais rápido do que as grandes corporações.
Como fazer para que uma atividade extrativa, como a mineração, tenha o mínimo de impacto possível para o meio ambiente? A sustentabilidade ainda é um desafio?
É um compromisso diário. Não existe mais espaço para mineração sem responsabilidade ambiental e social; hoje, a licença para operar vem da capacidade de inovar com menor impacto. É plenamente possível conciliar mineração com preservação. Isso exige investimentos massivos em tecnologia: processamento a seco, eliminação progressiva do uso de água no tratamento de minério, filtragem e empilhamento a seco de rejeitos. A legislação ambiental brasileira é rigorosa e madura; o papel das empresas é ir além do compliance, integrando economia circular e recuperação de áreas.
Já se passaram sete anos do rompimento da barragem de Brumadinho e 11 anos do rompimento da barragem de Mariana, dois dos maiores desastres ambientais de nossa história. O que aprendemos?
As tragédias de Mariana e Brumadinho mudaram o patamar do setor. Aprendemos que a segurança de processos e a gestão de riscos são inegociáveis. O setor migrou aceleradamente para o desassoreamento, descaracterização de barragens a montante e adoção do empilhamento a seco. A Cedro foi pioneira na descaracterização de barragens e empilhamento a seco, em Nova Lima (MG). O que ainda exige evolução contínua é a agilidade na reparação e o aprimoramento constante da relação de transparência e confiança com as comunidades afetadas.
As normas de regulação atuais são suficientes para garantir que sejam cumpridos critérios mínimos de segurança social e ambiental na atividade mineradora brasileira?
O arcabouço regulatório e ambiental brasileiro é um dos mais rígidos do mundo. A fiscalização fortaleceu-se com a criação da ANM e a implementação da Política Nacional de Segurança de Barragens. Contudo, o sistema regulatório precisa de maior eficiência burocrática, sem perder o rigor técnico. Sugiro maior celeridade nos processos de licenciamento para projetos de baixo impacto/tecnologia limpa e maior estímulo à pesquisa geológica.
Qual é sua opinião sobre o novo Marco da Mineração e qual a avaliação que o sr. faz da tramitação desta proposta no Congresso?
O setor necessita de segurança jurídica para atrair capital de longo prazo. A discussão sobre a modernização do marco mineral e tributário deve ser equilibrada: é essencial garantir que a arrecadação retorne em infraestrutura e desenvolvimento para os municípios mineradores, sem desincentivar os novos investimentos e a competitividade do produto brasileiro no exterior.
O que significa, na prática, a pauta do "minério verde" para a Cedro?
É a entrega de um produto com alto teor de ferro e baixa presença de impurezas, o que permite aos clientes siderúrgicos reduzirem significativamente as emissões de carbono na fabricação do aço. A transição para uma mineração mais verde é uma enorme oportunidade. O mercado global de aço está exigindo matérias-primas limpas; quem entrega o minério verde hoje garante competitividade e lugar no futuro do setor.
Qual é o maior obstáculo para o crescimento do setor mineral no Brasil hoje? Como o sr. vê o setor daqui a 10 anos?
A burocracia e a gargalo de infraestrutura logística. Garantir o escoamento eficiente da produção ainda é um dos maiores desafios do país. Daqui a 10 anos, vejo a mineração brasileira mais tecnológica, descarbonizada, altamente profissionalizada e integrada à infraestrutura logística nacional. O Brasil será líder no fornecimento do "minério verde", para a transição energética global, com operações mais enxutas, seguras e com governança corporativa transparente.
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