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Dizer que o Brasil não tem tecnologia para mineração é ideia equivocada, diz diretor de associação

Diretor da AMC diz que há no País 40 projetos de exploração de terras raras em fase pré-operacional, com previsão de geração de caixa em 2028

29 ago 2026 - 05h42
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Resumo
O Brasil possui capacidade técnica para explorar minerais críticos e terras raras, com mais de 40 projetos em andamento, segundo a Associação de Minerais Críticos. A recente identificação de depósitos em argila iônica garante uma extração mais barata e sustentável. Para aproveitar a janela de oportunidade global até 2032, o país precisa superar a aversão a risco dos investidores locais e evitar entraves regulatórios que tragam insegurança jurídica.

ESPECIAL PARA O ESTADÃO - A história mais conhecida é a de que o Brasil tem uma das maiores reservas de terras raras do mundo, mas ainda não domina a tecnologia necessária para explorar esses minerais, essenciais para a fabricação de baterias, motores elétricos e outros equipamentos. Essa visão, porém, é apenas parcialmente verdadeira, segundo o geólogo e advogado Frederico Bedran, diretor executivo da recém-criada Associação de Minerais Críticos (AMC).

Segundo ele, que participou do Fórum Minério Verde, do Estadão, na semana passada, há mais de 40 projetos de exploração de minerais críticos em desenvolvimento no País, conduzidos por 25 a 30 empresas. "Dizer que o Brasil não tem tecnologia passa uma impressão de incapacidade técnica que não é correta", afirma. O desafio, diz, é desenvolver rotas específicas para cada tipo de minério e acelerar os investimentos para que os projetos avancem (assista à íntegra do fórum aqui).

A seguir, trechos da entrevista ao Estadão.

Por que foi criada a AMC?

Já temos mais de 30 empresas associadas. Os fundadores da associação foram nove empresas: duas de lítio, Pilbara Minerals, ou PLS Brasil, e Lithium Ionic; duas de níquel, Atlantic Nickel e Centaurus; além de outras, como Aclara, Graphcoa, Graph+, Meteoric e Viridis. A intenção é representar o setor, organizá-lo e participar dos debates sobre a futura Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

Quais são as empresas que estão ou querem explorar minerais críticos no Brasil?

Se falarmos de terras raras, temos mais de 40 projetos de exploração. São empresas que chamamos de pré-operacionais. Elas estão em vias de entrar em operação: estão realizando estudos geológicos e obtendo licenças para que, nos próximos dois ou três anos, possam ser implantadas. Se tudo correr dentro do esperado, começam a gerar caixa no fim de 2028.

Em operação, há apenas uma, a Serra Verde Mineração, em Minaçu, Goiás, não é? Mas, em abril, a empresa americana USA Rare Earth firmou um acordo para adquirir uma participação na mineradora...

Sim. A Serra Verde está nesse setor desde 2010. Foi um projeto com um período de maturação muito longo. Todo o processo de pesquisa mineral, testes, recuperação metalúrgica e licenciamento demorou muito tempo. Seus donos são fundos de investimento. Naquele período, houve uma primeira onda de interesse por terras raras. Mas, naquela época, a perspectiva de extração no Brasil estava concentrada em depósitos de rocha dura, como ocorre na Austrália e nos Estados Unidos. O investimento e o custo são muito altos. A China, por ter custos menores e tecnologia mais desenvolvida, acabou inibindo a abertura de novas minas no mundo e também no Brasil. A Serra Verde, porém, resolveu continuar pesquisando e foi bastante bem-sucedida.

Mas o Brasil tem terras raras em depósitos que não são de rocha dura?

São terras raras encontradas em argilas iônicas, um tipo de depósito que passou a ser identificado no Brasil em 2023. O custo de extração é bem menor e mais competitivo, e os depósitos são semelhantes aos encontrados na China. As primeiras descobertas foram feitas na região de Poços de Caldas e Caldas, no Sul de Minas. Ali, o Brasil tem uma grande reserva. Também houve descobertas na Bahia, no Norte de Minas, no Norte de Goiás e até em algumas áreas do Amazonas. Essa pesquisa geológica ganhou força depois que a China restringiu a exportação desses minerais. O Brasil e outros países passaram a procurar novas fontes de suprimento, diante do risco de escassez que poderia afetar não apenas a indústria automobilística, mas também a indústria de defesa e outros setores. É essa corrida que estamos vivendo atualmente.

E como seria essa exploração, na prática?

Há a etapa da mineração, ou extração, que, no caso da argila, é mais simples. A argila é lavada com sulfato de amônia, que extrai as terras raras presentes naquele material. Depois, a argila é novamente lavada para retirar os resíduos do sulfato de amônia e devolvida à cava, evitando que sobre material no meio ambiente. Ou seja, você fecha a cava: não há barragem nem montanhas de resíduos. Depois vem o beneficiamento, quando se produz o concentrado de terras raras. Em seguida, ocorre a separação, com a produção dos óxidos de forma individualizada. A etapa seguinte é o refino e a metalização. O mineral se transforma em metal e, depois, são produzidos os ímãs utilizados, por exemplo, em motores de carros elétricos e geradores eólicos. o, refino e fabricação de ímãs.

Por que ainda não exploramos esses minerais críticos em todo o seu potencial?

Entre iniciar uma pesquisa geológica, adquirir uma área, explorar o mineral e começar a gerar caixa, tudo isso pode levar de quatro a seis anos, ou até dez anos. É nesse estágio que estão as empresas que citei anteriormente. Nessa fase inicial, elas precisam de aportes muito elevados. Como ainda não há produção nem geração de caixa, o investidor brasileiro, infelizmente, não tem tanta cultura de investir em negócios com esse tipo de risco. Ainda mais em um momento em que todos estão olhando para a renda fixa. Em países como Austrália e Canadá, há bolsas de valores com projetos listados nessa etapa da cadeia, e os investidores estão muito mais acostumados a esse tipo de risco.

Mas o investidor não se anima, mesmo com essa febre mundial por terras raras?

Alguns, sim. Estamos vendo um movimento interessante, com a criação de vários fundos nacionais. Houve uma iniciativa importante do BNDES, que criou o primeiro fundo com foco em mineração. A partir daí, outros fundos também começaram a olhar para o setor.

Mas tudo isso não está acontecendo muito devagar?

Sim. Temos uma janela de oportunidades aberta até 2032, no máximo. Por quê? Porque outros países também estão explorando esses minerais e, quando todos começarem a produzir, essa janela se fecha. As empresas precisam acelerar o processo. Para isso, são necessários recursos e também políticas públicas. Os dois projetos de lei que tramitam no Senado, o PL 2.780 e o PL 4.443, podem frear esse avanço, porque trazem uma anomalia que, na minha visão, só existe no Brasil: vinculam a formação do conselho dessas empresas à Presidência da República. Ou seja, além do Ministério de Minas e Energia, da Agência Nacional de Mineração (ANM) e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que já regulam o setor, haveria mais esse controle. Em vez de garantir a soberania nacional, como defendem seus proponentes, isso poderia aumentar a insegurança jurídica para os investidores.

Como fica a questão ambiental e social na exploração de terras raras?

Genuinamente, essas empresas de terras raras já nascem com estratégias de cuidado ambiental e social. Elas são obrigadas a nascer assim, por três motivos: exigência dos investidores, da sociedade e da legislação. Essas empresas reutilizam água e devolvem a argila à cava. Além disso, prever o cuidado ambiental e social desde a fase de projeto ajuda a acelerar o processo e atrai investimentos.

Estadão
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