Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Mercado de capitais supera bancos em oferta de crédito para empresas pela primeira vez na história

Recursos oferecidos em debêntures, CRIs, CRAs, notas comerciais e FIDCs atingem 23% do PIB em 2025, um recorde histórico

14 abr 2026 - 05h42
Compartilhar

BRASÍLIA - O mercado de capitais superou os bancos como fonte principal de crédito para as empresas pela primeira vez na história no Brasil, em 2025, segundo dados do Banco Central e da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em estudo da Rio Bravo Investimentos.

Há dez anos, o mercado de capitais representava a metade do volume de crédito bancário vendido às pessoas jurídicas (na foto, Avenida Faria Lima, principal centro financeiro do País)
Há dez anos, o mercado de capitais representava a metade do volume de crédito bancário vendido às pessoas jurídicas (na foto, Avenida Faria Lima, principal centro financeiro do País)
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

Os números mostram uma forte expansão do estoque de crédito não bancário, que compreende debêntures, Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI), Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA), notas comerciais e Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FDICs).

Esses papéis atingiram no ano passado um estoque de R$ 2,7 trilhões, o equivalente a 23% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto os bancos ofereceram R$ 2,6 trilhões no mesmo período, aproximadamente 22% do PIB. Há dez anos, o mercado de capitais representava a metade do volume de crédito bancário vendido às pessoas jurídicas.

O aumento é reflexo da queda de juros observada ainda no período de 2016 a 2021, que impulsionou o mercado de capitais com investidores em busca de outros canais, somado a fatores como apetite por risco e incentivos fiscais, segundo o levantamento.

"A queda dos juros trouxe uma cultura de crédito que antes estava concentrada em empresas muito específicas; e, de lá para cá, o Brasil começou a ter um crescimento exponencial na oferta de crédito em modalidades diferentes", diz José Alfaix, economista da Rio Bravo e um dos autores do estudo. "A mudança ocorreu porque havia falta de oferta de crédito mais flexível para empresas importantes, e surgiu uma versatilidade que dentro dos bancos não era oferecida."

A emissão de debêntures incentivadas mais que dobrou de 2023 para 2024 e continuou crescendo no ano seguinte. Esses títulos são dívidas de longo prazo emitidas por empresas ou projetos de infraestrutura considerados prioritários pelo governo federal. As debêntures desfrutam de isenção tributária para pessoas físicas e redução de impostos no nível de pessoas jurídicas.

Tradicionalmente, projetos de longo prazo em setores como transporte, saneamento e energia elétrica dependiam de crédito subsidiado do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). De 2023 para cá, as emissões privadas ultrapassaram os desembolsos públicos na área de infraestrutura.

Outro mercado em ascensão são os FIDCs. Esses fundos são flexíveis e podem comprar praticamente qualquer título ou cédula bancária e oferecer cotas a investidores. Na maior parte dos casos, esses veículos compram valores que empresas têm para receber e vendem esses créditos no mercado.

É o caso, por exemplo, de precatórios (que tramitam na Justiça) oriundos de ações contra a União, Estados e municípios e carteiras de empréstimos. Quem tem valores para receber vende o crédito e recebe um valor menor antecipadamente. Quem compra fica com aquele crédito e vende no mercado. O estoque de FIDCs no Brasil era de R$ 78 bilhões em 2013 e alcançou R$ 734 bilhões em 2025.

Para o economista Camillo Bassi, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a mudança é estrutural e os bancos deixaram de ser os grandes ofertantes de crédito no Brasil. Os juros não explicam a migração, que é muito mais motivada pela flexibilidade para escolher investimentos e as formas de crédito e de pagamento, tanto para quem está vendendo quanto para quem está comprando, segundo ele.

"Quem vai muito no mercado de capitais é uma indústria de carnes, por exemplo. Não porque ela é negativa em relação ao banco, ou que não tenha acesso ao banco, mas é um caminho alternativo. No mercado de capitais, ela tem condições de estipular a maturidade do financiamento e, o que é extremamente importante, as garantias", diz o especialista. "O banco é fechado nos pontos colaterais. No mercado de capitais, a empresa consegue negociar muito mais."

Bassi ressalta que o mercado de capitais tem tudo para crescer ainda mais, porém, ainda está restrito a grandes investidores, separados em duas categorias, os investidores qualificados, que investem mais de R$ 1 milhão, e os investidores profissionais, que colocam mais de R$ 10 milhões. "Os fundos não abrem acesso ao investidor de varejo, e não é por um óbice legal. Ainda existe um exclusivismo porque é mais fácil movimentar R$ 1 milhão do que R$ 1."

Crescimento do mercado de capitais não é ruim para os bancos, diz Febraban

O estudo aponta que o protagonismo do mercado de capitais abriu espaço no balanço dos bancos para empresas menores e pessoas físicas, não atendidas pelos fundos de investimentos.

Além disso, as instituições bancárias se adaptaram ao mudar o modelo de operação, antes concentrado em originar, carregar e gerir o crédito até o vencimento, e começaram a também repassar esses créditos, tirando o risco de seus balanços.

De acordo com o gerente de Assuntos Econômicos da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Luiz Castelli, o desenvolvimento do mercado de capitais no País é positivo e amplia as opções de financiamentos para a economia brasileira.

"Não significa que seja ruim para os bancos porque eles também participam. O banco pode ser o originador do crédito e ter a receita da originação e não precisa correr todo o risco de segurar uma debênture, por exemplo, na carteira dele. É mais uma forma de diversificar receita e operação e até mais importante do que concentrar tudo em crédito bancário."

Castelli aponta como principais motivos da migração a mudança da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) para a Taxa de Longo Prazo (TLP) no governo Michel Temer (2017), que alterou a forma como o BNDES calcula os juros de seus empréstimos, o incentivo a outras formas de investimentos no período de redução da taxa básica de juros (Selic) e a demanda por títulos isentos de tributação, como CRIs, CRAs e debêntures incentivadas, especialmente para pessoas físicas.

"A migração da captação das empresas via mercado de capitais vai na direção de economias desenvolvidas. É o que vemos em economias mais maduras, como os Estados Unidos, onde o mercado de crédito privado é muito grande", diz o gerente da Febraban.

Mercado de capitais precisa ser melhor regulado, diz estudo

O estudo da Rio Investimento aponta algumas preocupações com o crescimento do mercado de capitais. O alerta existe pela diminuição de controle e de fiscalização nessas operações.

O Banco Master, liquidado no ano passado, utilizava os FIDCs para adquirir e escoar investimentos, mas a Polícia Federal e o Banco Central detectaram operações simuladas para praticar crimes como lavagem de dinheiro. O Ministério da Fazenda começou a elaborar uma medida dando poder ao Banco Central para fiscalizar os fundos de investimentos, que hoje estão nas mãos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

"Os bancos são fiscalizados e regulados pelo Banco Central, que tem uma estrutura de fiscalização muito mais decente e elaborada, e o crédito não bancário não tem o mesmo grau de exigência. Isso deveria levar a um ajuste para alguns casos, como os FIDCs, que se beneficiam muito de não ter o mesmo ônus de capital regulatório do crédito originário dos bancos", afirma José Alfaix.

Estadão
Compartilhar
TAGS
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra