A crise de energia que deixa 90% dos venezuelanos vivendo no escuro
A Venezuela possui enorme potencial hidrelétrico e as maiores reservas conhecidas de petróleo do mundo. Mesmo assim, o país sofre graves problemas com a falta de eletricidade.
Maria tinha a esperança de que, no dia do seu aniversário, a única vela de que iria precisar seria colocada em cima do seu bolo.
Mas, no último dia 5 de maio, quando telefonei para dar os parabéns, não havia eletricidade na sua casa em Maracaibo, a segunda cidade mais populosa da Venezuela, no oeste do país.
"Eu acreditava que, hoje, não iriam nos cortar a luz, porque já haviam cortado ontem e, nas semanas anteriores, os apagões ocorriam em dias alternados", comentou ela, resignada.
O corte se estendeu das 20 horas até à meia-noite. Por isso, quando chegou a hora de cantar "Ah, que noite tão linda" — a longa canção tradicional de aniversário da Venezuela —, eles continuavam sem luz.
Por sorte, não foram necessárias muito mais velas que a do bolo. Afinal, depois de anos de falhas constantes do fornecimento de energia, Maria comprou algumas lâmpadas que funcionam com baterias.
Ela também comprou ventiladores, que ajudam a enfrentar o calor sufocante da sua cidade. Ali, a temperatura média anual é de cerca de 30 °C.
A falta de eletricidade não é um problema exclusivo de Maracaibo.
A edição mais recente da Pesquisa de Condições de Vida (Encovi, na sigla em inglês), publicada em 2025 pela Universidade Católica Andrés Bello, da capital venezuelana, Caracas, indica que nove em cada 10 residências do país relataram interrupções do fornecimento de energia elétrica. E quatro em cada 10 afirmaram que esses cortes são diários e se estendem por várias horas.
Também não se trata de um problema novo.
Pelo menos desde 2009, durante a presidência de Hugo Chávez (1954-2013), o governo venezuelano começou a aplicar medidas de racionamento do consumo de eletricidade. E, em 2010, foi declarada a chamada "emergência elétrica", supostamente para possibilitar os investimentos necessários neste setor.
Mais de 15 anos se passaram e os venezuelanos continuam sofrendo com a falta de energia elétrica. E os cortes parecem ter aumentado neste ano de 2026.
Crescimento sem energia?
No primeiro trimestre de 2026, houve 36 protestos na Venezuela por falta de eletricidade. Destes, 24 ocorreram em março, segundo o Observatório Venezuelano de Conflitos Sociais.
A organização atribuiu as manifestações aos frequentes cortes elétricos sem anúncios programados, "que afetam as atividades domésticas, comerciais e de serviços, além de gerar prejuízos econômicos e danos em equipamentos".
O governo da presidente interina, Delcy Rodríguez, atribui os problemas elétricos ao aumento das temperaturas e da atividade econômica do país.
"Estamos observando a abertura e o desenvolvimento econômico do país nos últimos meses. E esta abertura traz consigo um aumento do consumo", declarou o ministro da Energia Elétrica, Rolando Alcalá, em entrevista à televisão estatal VTV, no início de maio.
"Os venezuelanos têm mais receita e isso permite que eles comprem mais eletrodomésticos. E a maior quantidade de aparelhos conectados à rede aumenta a demanda", explica o ministro.
Alcalá afirmou que a demanda por eletricidade atingiu 15.579 MW e atribuiu o aumento à reativação do setor comercial e industrial.
"Do ponto de vista industrial e comercial, as empresas e lojas que trabalhavam em 50% ampliaram suas atividades e isso aumenta o consumo de eletricidade", prosseguiu ele.
O engenheiro Miguel Lara trabalhou por três décadas (até 2004) no escritório responsável por coordenar a operação e o planejamento do sistema elétrico venezuelano.
Ele destaca que uma demanda de 15.579 MW representa apenas um aumento de pouco mais de 5% em relação à demanda de 2025, que era de cerca de 14.724 MW.
Se um aumento tão pequeno da demanda está provocando cortes recorrentes, que se estendem em algumas cidades por até oito horas por dia, como a Venezuela poderá avançar na recuperação econômica e petrolífera prometida por Rodríguez e pelo presidente americano, Donald Trump?
Nem potência, nem transmissão
Miguel Lara chefiou a equipe técnica que assessorou o programa da líder oposicionista venezuelana María Corina Machado no setor elétrico.
Ele destaca que a Venezuela, teoricamente, tem capacidade instalada para gerar cerca de 36 mil megawatts. Mas a capacidade realmente disponível é de 13 mil a 13,5 mil MW.
"O sistema elétrico está em uma fase crítica e talvez já seja continuamente deficitário", explica Lara.
"Ele chegou ao seu limite. Não suporta mais a incorporação de nenhuma nova necessidade de fornecimento, nem em potência, nem em energia."
A Venezuela detém as maiores reservas conhecidas de petróleo do mundo, mas a maior parte da sua eletricidade provém de fontes hidrelétricas.
Lara explica que, atualmente, as fontes renováveis (basicamente, hidrelétricas) geram cerca de 17 mil MW, mas só podem ser usados, no máximo, 10 mil MW, que é o limite de capacidade do sistema de transmissão do país.
Os outros 3 mil megawatts disponíveis provêm de usinas termelétricas. Segundo números mencionados pela agência de notícias Reuters, elas operam a cerca de 13% da sua capacidade.
Por isso, a disponibilidade real de eletricidade está muito abaixo da capacidade teórica instalada no país.
"Como você irá reativar um país que não tem eletricidade?", questiona Lara. "Não é possível."
"O aparato de produção não tem, agora, capacidade de ser reativado porque não tem os megawatts, nem poderá ter em curto prazo. Não há como fazer."
Esta limitação também afeta a possibilidade da Venezuela de aumentar sua produção petrolífera, que, aparentemente, é o principal objetivo da intervenção realizada pelo governo Trump, desde a captura do então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, no último dia 3 de janeiro.
Trump defendeu investimentos de US$ 100 bilhões (cerca de R$ 506 bilhões) para recuperar a indústria petrolífera venezuelana. Mas, sem luz, não há petróleo.
"Sem eletricidade, não há como fazer as brocas funcionarem e elas são as peças fundamentais para começar a produção", afirma Lara à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
"Para as refinarias e todos os processos, desde a exploração até a comercialização, mover os gasodutos e impulsionar tudo isso, é preciso ter motores."
O especialista defende que, para ter eletricidade nos campos petrolíferos, as empresas estrangeiras que queiram investir na Venezuela precisarão importar suas próprias usinas elétricas, incluindo seu próprio combustível.
Ele afirma que o combustível que a Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA) pode oferecer é de qualidade muito ruim. Por isso, as usinas elétricas que o utilizam necessitam de manutenção mais cara e frequente.
A gerente de assuntos corporativos da Chevron na Venezuela, Susana Brugada, explicou que os campos petrolíferos operados pela empresa estão conectados diretamente à rede elétrica. Por isso, a produção é prejudicada quando ocorrem falhas de abastecimento.
"Imagine o que acontece com os poços de petróleo toda vez que ocorre uma daquelas faltas de luz que fazem com que as geladeiras de todos nós comecem a sofrer e o computador a desligar", ela conta.
"Cada queda de luz pode derrubar 40 poços em um piscar de olhos e, quando a luz volta, os 40 poços não retornam automaticamente."
"Calculamos o que se pode produzir e o caso é que isso realmente reduz a produção nacional", destacou Brugada, em declarações divulgadas no dia 21 de maio pela emissora de TV Televen.
Ela explica que, embora haja poços que contam com instalações elétricas independentes, a maior parte do petróleo bruto venezuelano, produzido na Faixa Petrolífera do Orinoco, depende da rede elétrica do país.
A falta de energia pode se tornar um problema ainda maior, no caso de regresso à Venezuela de uma parte dos oito milhões de cidadãos que hoje vivem no exterior.
"O país não tem eletricidade para todas as pessoas que vivem aqui, agora", prossegue ela.
"Imagine que a metade dos que se foram regresse. São 4 milhões de pessoas, o equivalente à população de Caracas. Você não tem como abastecer mais gente com eletricidade", explica Miguel Lara.
Soluções a médio e longo prazo
Os cortes de eletricidade vêm prejudicando a economia venezuelana.
O presidente da Câmara de Comércio de Valência, Ernesto Abbass Sosa, destaca que sua cidade (a terceira mais populosa da Venezuela, na região central do país) sofre apagões que se estendem entre cinco e oito horas por dia.
"É uma situação complicada", lamenta ele, "é um desafio enfrentado por todas as pessoas do setor comercial da cidade."
"Mesmo não operando nesses horários, os estabelecimentos comerciais ou de serviços precisam igualmente pagar aluguéis, impostos fiscais, parafiscais, serviços de energia elétrica, água, limpeza, salários, tudo o que faz parte dos gastos fixos", explica Abbas à BBC.
Ele indica que a situação também prejudica os cidadãos que não são comerciantes, devido à frustração e ao esgotamento.
"O esgotamento físico e mental dessas pessoas como fator de produção, social e familiar age em detrimento do desenvolvimento do país", explica Abbas.
Ele destaca ainda que a Câmara de Comércio de Valência propôs ao Executivo nacional o estabelecimento de um mecanismo para facilitar créditos para as empresas adquirirem equipamentos básicos, como geradores elétricos, painéis solares etc., e poderem operar quando não houver eletricidade.
Paralelamente, Abbas indica que muitas lojas estão informando possíveis clientes pelas redes sociais quando há ou não energia elétrica. E também estão ampliando os horários de operação para compensar parcialmente as horas fechadas.
Mas quais são as opções da Venezuela para voltar a ter um sistema elétrico confiável, que seja capaz de impulsionar a recuperação econômica do país?
Tempo, dinheiro e planejamento
Miguel Lara calcula que, para ter um sistema elétrico com estas características, é preciso ter uma equipe de gerenciamento profissional, com capacidade de execução, que conte com "um plano bem estruturado, com todos os subprojetos, com todas as possibilidades, todas as ações que é preciso tomar do ponto de vista jurídico, técnico, em todos os aspectos".
Além disso, seria preciso ter dinheiro procedente de organismos multilaterais e do setor privado. Mas quanto dinheiro e tempo são necessários para isso?
O especialista calcula que cerca de US$ 45 bilhões (R$ 228 bilhões) e cerca de seis anos seriam necessários para contar com um sistema elétrico com capacidade de sustentar um crescimento anual de 15% da demanda e um aumento do PIB de 10 pontos percentuais por ano.
Lara destaca que os primeiros dois ou três anos podem ser suficientes para estabilizar o sistema e recuperar parte da capacidade instalada existente no país, que não está em operação no momento.
Mas o especialista ressalta que o primeiro passo neste caminho requer uma mudança política no país. Para ele, o estado de deterioração atingido pelo serviço de abastecimento de eletricidade na Venezuela não se deve à falta de recursos, mas ao seu modelo de gestão.
"A mudança política positiva é o primeiro elemento, embora não seja suficiente, para mudar este modelo autoritário, sem conhecimento, sem mérito, sem manutenção, com um sistema obscuro no qual não sabemos os números e há desperdício e impunidade", afirma Lara.
Lara defende que a deterioração não se deve à falta de recursos.
Ele explica que todo o sistema elétrico instalado na Venezuela durante a segunda metade do século 20 custou cerca de US$ 48,25 bilhões (em valores de 1998, cerca de R$ 244 bilhões ao câmbio atual), entre investimentos públicos e privados. Já o governo chavista investiu cerca de US$ 117,04 bilhões (R$ 592 bilhões) entre 1999 e 2025.
Ainda assim, 80% do abastecimento atual continuam sendo gerados pelas instalações existentes antes da chegada de Hugo Chávez ao poder.
"O dinheiro sobrou e foi desperdiçado em obras inconvenientes", lamenta ele.
Lara se refere, por exemplo, à compra pela Venezuela, durante o governo Chávez, de usinas elétricas revendidas por Cuba, com potencial para cerca de 1.800 MW. Mas nenhuma delas, hoje, funciona.
Ele afirma que as usinas eram inadequadas para um país como a Venezuela e que, na prática, a operação serviu como transferência de dinheiro para Havana.
"Depois, eles começaram a incorporar máquinas e embarcações em locais onde não havia combustível, máquinas que não tinham sistema de transmissão e outras consertadas que foram perdidas."
Em termos hidrelétricos, Lara destaca que o governo chavista destinou US$ 9 bilhões (cerca de R$ 45,5 bilhões) à central elétrica de Tocoma, no leste do país. Este valor representa "três vezes mais do que o governo afirma ter custado a central de Carauchi, que é uma construção idêntica, em termos de obras civis e eletromecânicas".
Tocoma deveria ter ficado pronta em 2010, mas continua sem funcionar até hoje, 16 anos depois.
De qualquer forma, com ou sem mudanças políticas, o que parece certo é que Maria continuará precisando das suas lâmpadas e ventiladores a pilha para não precisar passar seus próximos aniversários à luz de velas.
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