Master tinha apenas R$ 4 milhões em caixa e R$ 127 milhões a vencer antes de liquidação pelo BC
Números, que demonstram que a instituição de Vorcaro estava quebrada, foram citados em depoimento pelo diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino
BRASÍLIA - O Banco Master tinha apenas R$ 4 milhões em caixa no dia em que foi liquidado pelo Banco Central, em novembro de 2025, e mais de R$ 127 milhões a pagar na mesma semana, apurou o Estadão/Broadcast. Os números demonstram que a instituição estava efetivamente quebrada.
Além do montante expressivo de pagamentos, o banco de Daniel Vorcaro também já devia cerca de R$ 2 bilhões em depósitos compulsórios. Esses depósitos são obrigatórios, mas foram interrompidos pelo Master, diante das dificuldades de liquidez enfrentadas.
O tamanho do problema foi exemplificado pelo diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino, durante depoimento à Polícia Federal no dia 30 de dezembro. Quando indagado, ele explicou que a autarquia acompanhou de perto o Master, um banco de R$ 80 bilhões em ativos, justamente devido à crise de liquidez enfrentada.
"Um banco de R$ 80 bilhões tem liquidez de R$ 3 bilhões, R$ 4 bilhões de títulos livres, e o Master, antes da liquidação, só tinha R$ 4 milhões em caixa", disse Aquino. "O acompanhamento era diante da crise de liquidez, se fechava ou não fechava o caixa."
O conteúdo dos depoimentos de Aquino, Vorcaro e do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa — todos prestados no dia 30 de dezembro — só foi divulgado na última quinta-feira, 29. Relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Dias Toffoli retirou o sigilo das peças após o BC pedir para ter acesso.
Liquidação do Will Bank
Aquino disse durante depoimento que uma eventual liquidação do Will Bank, do Banco Master, levaria a prejuízos maiores para o Banco de Brasília (BRB). A instituição foi liquidada no último dia 21.
"Existem muitos ativos do Will dentro do balanço do BRB. A morte (do Will Bank) — se não for possível (resolver os problemas) dentro do Raet —, o prejuízo do BRB será maior", disse Aquino, durante o depoimento.
O Will Bank foi poupado da liquidação em novembro, quando o BC decidiu liquidar o Master e diversas empresas do grupo. O Banco Master Múltiplo, controlador do Will Bank, foi colocado em Regime de Administração Especial Temporário (Raet), pela avaliação de que o banco digital ainda poderia ser vendido. A expectativa acabou não se confirmando.
Durante o depoimento, Aquino explicou que o perfil do público do Will Bank, das classes C e D, foi considerado. A avaliação, na diretoria colegiada, era de que esses clientes simplesmente deixariam de pagar os cartões em caso de liquidação. Também por isso, houve a opção por um Raet.
No mesmo depoimento, o diretor do BC avisou à PF que as perdas do BRB com a compra de ativos o Master poderia ultrapassar R$ 5 bilhões. O banco do DF pagou R$ 12,2 bilhões por carteiras de crédito falsas, mas conseguiu substituir cerca de R$ 10 bilhões por outros ativos do Master. No entanto, esses outros papéis também têm problemas e podem gerar prejuízos.
Diretor nega pressão
O diretor de Fiscalização do BC negou em depoimento à Polícia Federal ter sofrido qualquer pressão política para liquidar ou não o Banco Master.
"Que eu tenha conhecimento como diretor de Fiscalização, eu não conheço, não recebi nenhuma pressão de liquidar ou não liquidar de autoridades da República, não tenho conhecimento", disse Aquino, quando indagado sobre uma possível pressão política durante a oitiva.
O diretor do BC disse que o trabalho de supervisão do caso foi feito normalmente. Ele também negou que a autoridade monetária tenha adotado uma medida prudencial preventiva contra o BRB — proibindo o banco de comprar novas carteiras de crédito — para impedir a compra do Master. A medida é datada de 14 de outubro, enquanto a operação entre BRB e Master foi negada em setembro.