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Master paraguaio? Entenda crise em banco digital ligado ao presidente Santiago Peña

Quebra do Ueno Bank abriu crise política e financeira no Paraguai; colapso tem semelhanças com o escândalo do Banco Master, de Daniel Vorcaro, no Brasil

4 nov 2026 - 20h08
(atualizado às 20h20)
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Resumo
A quebra do banco digital Ueno Bank deflagrou uma grave crise política e financeira no Paraguai. Ligada ao presidente Santiago Peña, a instituição sofreu intervenção do Banco Central, gerando protestos populares e a prisão de executivos por fraude. O episódio levou à renúncia do chefe da autoridade monetária e motivou a oposição a protocolar um pedido de impeachment contra Peña por conflito de interesses, enquanto o governo corre para garantir os depósitos de quase 3 milhões de clientes.

A quebra do Ueno Bank, banco digital ligado ao presidente do Paraguai, Santiago Peña, abriu uma crise política e financeira no país. Nesta terça-feira, 3, o Banco Central paraguaio assumiu o controle da instituição, e o destino das economias de milhões de clientes e de centenas de milhões de dólares em fundos públicos ficou incerto. A crise tem semelhanças com o escândalo do Banco Master, de Daniel Vorcaro, no Brasil.

O Master foi liquidado pelo Banco Central do Brasil em novembro do ano passado e Vorcaro, que foi preso em duas ocasiões no âmbito da Operação Compliance Zero, tornou-se alvo de investigações por suspeitas de fraudes bilionárias, em meio à revelação de vínculos com diferentes estruturas de poder.

Na terça, oito executivos ligados ao Ueno, maior emissor de cartões de crédito do país, foram presos por suspeita de fraude financeira. Entre eles estão o presidente da instituição, Juan Manuel Gustale, e o diretor executivo, Federico Miguel Vázquez Villasan.

Já Carlos Carvallo renunciou à presidência do Banco Central do Paraguai, cargo que assumiu depois de comandar o Ueno.

Ainda na terça-feira, o colapso da Ueno levou correntistas e aposentados a protestar em Assunção e em frente a Mburuvicha Róga, residência oficial de Santiago Peña.

Peña anuncia novo presidente do Banco Central

O conselho do Banco Central paraguaio votou por unanimidade na noite de segunda-feira, 2, para colocar o Ueno em processo de resolução e entregar sua gestão a funcionários encarregados de avaliar suas finanças e proteger seus ativos.

A instituição tem aproximadamente 3 milhões de clientes, quase metade dos 6,4 milhões de paraguaios. A intervenção tem como objetivo "proteger os depositantes e preservar a estabilidade do sistema financeiro", informou o Banco Central em comunicado.

Peña, que assumiu o cargo em 2023 para um mandato até 2028, possuía ações de um grupo que controlava o Ueno, das quais se desvinculou em 2025.

O presidente paraguaio afirmou que nomeou Raúl Vera Bogado como novo presidente do Banco Central e dois novos diretores, Pedro Acosta e Étsel González. O anúncio foi feito em publicação nas redes sociais, após pedir a renúncia do atual presidente Carlos Carvallo, que liderou a equipe anterior do Ueno antes de ser nomeado ao cargo.

"Estou plenamente ciente de que milhares de paraguaios estão preocupados com os acontecimentos de ontem, decorrentes da decisão do Banco Central do Paraguai de proceder à dissolução do Ueno Bank. Compreendo a incerteza que uma situação como essa causa e, acima de tudo, sei que por trás de cada poupança estão os esforços e o trabalho de milhares de paraguaios", afirmou o presidente na publicação, em sua segunda aparição após a crise.

Oposição pede impeachment de Peña

Deputados da oposição do Paraguai apresentaram formalmente um pedido de impeachment contra o presidente do país, Santiago Peña. A informação foi confirmada nesta quarta-feira, 4, à AFP por uma fonte do Legislativo.

O deputado Mauricio Espínola, dissidente da base governista, disse à agência de notícias que o documento apresentado ao presidente da Câmara dos Deputados obteve 35 assinaturas e que a convocação para discutir o impeachment "será amanhã, quinta-feira, às 10h" (mesma hora em Brasília).

O texto da acusação apresentado à Câmara dos Deputados pede a abertura de um processo de impeachment "por mau desempenho de suas funções no exercício do cargo". Entre as acusações estão "conflito de interesses" e questionamentos sobre a evolução de seu patrimônio.

Os deputados precisam reunir 53 votos, de um total de 80 parlamentares, para aprovar o pedido contra Peña e seu vice-presidente, Pedro Alliana.

Se aprovado, o Senado conduzirá o julgamento, que poderá destituir os governantes caso sejam alcançados 30 votos entre os 45 senadores.

Onda de protestos

Sem acesso às suas contas no aplicativo do banco, clientes em pânico se reuniram em frente a agências fechadas em todo o país nos últimos dois dias, exigindo respostas sobre suas economias, enquanto a polícia fazia a segurança.

Os clientes não puderam sacar ou transferir dinheiro na terça-feira, embora a maioria esteja protegida pelo seguro de depósito.

Um fundo do banco central garante até 228,3 milhões de guaranis paraguaios (US$ 38 mil) por pessoa, o suficiente para cobrir integralmente cerca de 97% dos depositantes do Ueno, segundo estimativas preliminares. Por lei, esse valor deve ser pago em até 15 dias após a intervenção, prazo que pode ser prorrogado uma vez.

Como primeiro passo, o Banco Central afirmou que os depositantes receberiam em breve até 10 milhões de guaranis (US$ 1,7 mil), menos quaisquer dívidas que tenham com o Ueno, embora não tenha divulgado uma data.

Aqueles com saldos maiores enfrentam mais incertezas. O Banco Central não chegou a prometer o reembolso integral, afirmando apenas que buscaria "a maior proteção possível".

O fundo de pensões estatal afirmou que as pensões serão pagas normalmente e que está transferindo os cerca de 32 mil aposentados que recebem suas pensões pelo Ueno para outro banco. Também planeja entrar com uma ação judicial para recuperar seu investimento. / COM INFORMAÇÕES DE AP E AFP

Estadão
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