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Lula rechaça 'posto Ipiranga'; ele é quem falará de economia

Ex-presidente, que ainda não anunciou oficialmente a candidatura, não quer "palpiteiros" falando de economia em seu nome

21 dez 2021 12h28
| atualizado às 12h35
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Lula
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Foto: Amanda Perobelli / Reuters

Enquanto pré-candidatos à Presidência na eleição do ano que vem anunciam gurus ou 'postos Ipiranga' como representantes para assuntos econômicos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, líder disparado nas pesquisas de intenção de voto, já deixou claro: não tem porta-vozes e quem fala sobre economia é ele.

Mesmo entre dúvidas sobre se o Lula atual é mais radical do que aquele que assinou uma "Carta aos Brasileiros" em 2002 ou se seguirá a mesma linha de 20 anos atrás, o ex-presidente, que ainda não anunciou oficialmente a candidatura, não quer "palpiteiros" falando de economia em seu nome e quem cruza esta linha é afastado do grupo mais próximo.

As razões são várias, mas giram principalmente em torno de dois pontos: o primeiro deles, dizem fontes ouvidas pela Reuters, é a crença de que o fiel da economia precisa ser o presidente, e não um ministro, que pode sair ou ser demitido a qualquer momento.

"Quem vai ser nosso porta-voz econômico? Ele (Lula). Ele sobretudo não quer delegar para ninguém, não acha necessário fazer agora, acho que tem mais credibilidade ele falar que um terceiro", disse uma das fontes ouvidas pela Reuters.

Um ex-ministro do círculo mais próximo ao ex-presidente, a fonte lembra que Lula não quer a repetição do início de seu primeiro mandato, quando o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e da Casa Civil, José Dirceu, eram tratados como os fiadores da política econômica do governo. A saída de ambos, envolvidos em escândalos, causou turbulências até que ficou claro que, de fato, nada iria mudar.

"Em oito anos de governo e mesmo depois, Lula aprendeu muito, tem hoje um pensamento econômico muito mais sofisticado e não tem e não quer um superministro", disse uma das fontes ouvidas pela Reuters.

No entorno do ex-presidente, vários nomes ligados à economia circulam, são ouvidos e fazem análises. Na lista há nomes tradicionais como Luiz Gonzaga Beluzzo, o professor da Universidade de Campinas (Unicamp) Guilherme Mello, o ex-ministro da Fazenda de Dilma Rousseff Nelson Barbosa, e os ex-ministros Fernando Haddad e Aloizio Mercadante. Nenhum deles, no entanto, está autorizado a falar em nome de Lula, e as chances de serem ministro da Economia ou da Fazenda são mínimas.

Lula não fala de nomes ainda nem com seu círculo mais próximo, mas faz avaliações. Nomes essencialmente técnicos estão descartados, disse uma fonte. O ex-presidente quer alguém que entenda a política, para não correr riscos com desempenhos semelhantes ao da relação do atual titular da Economia, Paulo Guedes, com o Congresso.

Ao mesmo tempo, três fontes descartaram que, por exemplo, Aloizio Mercadante, um nome que traz arrepios ao mercado financeiro, possa ser esse ministro --até porque falta a ele, diz uma delas, justamente essa habilidade política que Lula quer, mesmo tendo sido senador e deputado federal.

Cada vez mais, o ex-presidente quer mostrar que as políticas econômica, social e todas as demais, serão dele, e não de um ministro ou outro. E essa é uma das razões que ele não quer adiantar nomes, nem de equipe econômica, e nem do resto.

"Não parece fazer sentido antecipar um nome que representaria uma determinada linha econômica. Ainda mais que isso dá percepção de fraqueza do seu capital político", diz Rafael Cortez, analista político da consultoria Tendências.

"Bolsonaro, ao transferir para (Paulo) Guedes essa responsabilidade total pela economia, colocou-se abaixo, mobilizou outro ator para emprestar credibilidade a seu governo."

Cortez diz ainda que, com chances de vencer no primeiro turno segundo as últimas pesquisas, Lula não tem porque fazer acenos ao mercado, especialmente tendo oito anos de governo para mostrar.

"Não é o mercado que ganha eleição. Talvez nos bastidores, de maneira mais discreta, ele possa fazer essa aproximação, mas não tem porque apostar todas as fichas nessa relação", disse.

Conversas não têm faltado. Fontes contaram à Reuters que Lula tem se encontrado com empresários de vários setores --e o próprio ex-presidente confirmou, em entrevista à Reuters, que tem participado de jantares e conversas, mas sem citar nomes.

"Muitos começaram a procurar, mas ainda discretamente. A maioria ainda não quer se indispor com o atual governo", contou uma das fontes.

Na entrevista que deu à Reuters na última sexta-feira, Lula deixou claro que tem conversado com empresários. Contou histórias de encontros e do que tem dito a eles. "Eu fui agora na Espanha e tive uma conversa com alguns empresários e eu disse para os empresários o quê? Qual é a coisa importante que eu vou garantir para vocês, a única coisa que eu vou garantir para vocês: eu vou oferecer para vocês mercado, eu vou oferecer poder aquisitivo. Eu vou oferecer uma sociedade de consumo para você poder vender os produtos de vocês, e parem de perturbar. Parem de discutir reforma tributária, parem de discutir privatização, tudo isso é coisa do governo", disse.

"Colocar dinheiro no bolso do pobre" é o mote central do pensamento econômico do ex-presidente. Reduzir a inflação e o desemprego e, consequentemente, aumentar o mercado consumidor, taxar os mais ricos enquanto reduz os impostos sobre o consumo, que atingem os mais pobres, e manter a estabilidade fiscal.

"A preocupação de Lula com a inflação, a instabilidade, é porque isso atinge diretamente os mais pobres. Essa é a política central dele", disse uma fonte.

Além disso, um "estado indutor" de crescimento, na linha do que se viu a partir de 2003 até 2010, mas diferente das políticas adotadas pela ex-presidente Dilma Rousseff. Dentro do PT se tem bem claro que aquilo que a população quer é o governo de Lula. Pesquisas qualitativas apontam que a ex-presidente é bem quista e considerada honesta, mas ninguém quer seu governo de volta. O erro, dizem os petistas, foi uma ênfase nas empresas e não na população.

"O Estado que eu quero, o Estado que eu sonho, não é um Estado empresarial. Eu não quero estar administrando empresa. Eu quero empresas públicas, empresas de economia mista, mas eu quero um Estado capaz de induzir o crescimento, capaz de ser um indutor, capaz de colocar dinheiro para alavancar", disse Lula.

O que o setor empresarial e o mercado financeiro não verá é uma nova "Carta aos Brasileiros", como Lula apresentou em 2002, comprometendo-se com as metas fiscais. O ex-presidente é bem claro: tem um histórico de oito anos no governo para mostrar, não precisa de apresentações.

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