Lucro da MBRF cai quase 20% no 2º tri em meio a consumo "relevante" de capital de giro
A companhia de alimentos MBRF reportou nesta quinta-feira um lucro líquido de cerca de R$69 milhões no segundo trimestre, queda de 19,6% no comparativo com o mesmo período do ano passado, com resultados financeiros pressionados pelas taxas de juros mais altas e pela variação cambial, em meio a um aumento do endividamento.
O desempenho operacional medido pelo Ebitda ajustado somou R$3,2 bilhões, crescimento de 5,4%, com margem de 7,9%, enquanto o volume de vendas atingiu 1,969 milhão de toneladas, recorde para um segundo trimestre.
O Ebitda ajustado ficou em linha com a expectativa de analistas, conforme pesquisa da LSEG.
O ambiente macroeconômico desafiador colaborou para um aumento da dívida, enquanto a companhia registrou um consumo "relevante" de capital de giro, principalmente pela dinâmica de estoques para atender mercados do Oriente Médio em meio à guerra no Irã, disse o diretor vice-presidente de Finanças, Relações com Investidores, Gestão e Tecnologia, José Ignácio Scoseria Rey.
"Estamos conseguindo abastecer a região, porém com um estoque maior", disse ele a jornalistas em entrevista por ocasião da divulgação do balanço.
A companhia também aumentou estoques por conta da preparação do portfólio de "comemorativos" do final do ano -- um importante período de vendas da empresa --, e ampliou os confinamentos, entre outros.
Todo esse consumo de capital de giro deverá retornar no segundo semestre, assegurou o executivo, ressalvando que o único item que a companhia "não controla" está vinculado ao conflito no Oriente Médio, região que é grande importadora de produtos da empresa.
Com o consumo de capital de giro, disse o executivo, a MBRF não conseguiu reduzir a alavancagem, que ficou em 3,41 vezes a dívida líquida/Ebitda ajustado no segundo trimestre, ante 3,37 vezes no período de janeiro a março, contra 2,74 vezes no segundo trimestre do ano passado.
Já a dívida líquida saltou quase 20%, para R$45 bilhões.
Rey comentou também que a alavancagem da companhia também reflete "o momento desafiador" do ciclo de bovinos nos Estados Unidos, onde a baixa oferta de animais encarece a matéria-prima.
Na unidade da América do Norte, o volume de vendas cresceu 2%, para 477 mil toneladas, contribuindo para mitigar os efeitos da menor disponibilidade de gado, acrescentou.
A companhia indicou ainda que, com um fluxo de caixa operacional de R$2,17 bilhões, investimentos de R$1,4 bilhão e despesas financeiras de R$1,6 bilhão, o consumo de caixa foi de R$864 milhões no segundo trimestre.
ESTRATÉGIA "CORRETA" E COPA
Já o CEO da MBRF, Miguel Gularte, reforçou que a estratégia adotada para atender o Oriente Médio "está se mostrando totalmente correta", diante da rentabilidade obtida na região.
Ele destacou ainda que, apesar do impacto momentâneo do consumo de capital de giro sobre a alavancagem, "desalavancar" a companhia segue sendo parte da disciplina da empresa. Para o Rey, a empresa tem condições de "gradualmente" trazer para baixo esse indicador.
"Conseguimos de maneira muito clara abastecer a região, a MBRF é vista como uma empresa no Oriente Médio que em nenhum momento deixou faltar produtos nas gôndolas", disse.
Gularte destacou que neste ano a companhia tem registrado um mês melhor do que o anterior, "o que nos dá bastante otimismo para o que resta do ano". Ele lembrou que a empresa normalmente tem bom desempenho no segundo semestre.
No mercado externo, receita líquida da MBRF aumentou 16,5%, para R$12,7 bilhões no segundo trimestre, enquanto no mercado interno a companhia registrou uma receita praticamente estável, com R$28 bilhões.
O volume vendido no Brasil atingiu, em junho, o maior patamar do ano, com impulso adicional das vendas relacionadas à Copa do Mundo, apesar da eliminação precoce do Brasil.
O vice-presidente de Mercado Brasil e Marketing da MBRF, Manoel Martins, citou um crescimento de 41% com o evento esportivo, ante uma expectativa de alta de 50% nos volumes de produtos destinados a encontros relacionados à Copa, em relação ao torneio anterior.
"Esperávamos que o Brasil avançasse um pouco mais...", comentou ele, citando um "gostinho um pouco frustrante" da Copa. Ainda assim, executivos disseram que o torneio foi importante para a marca Sadia, patrocinadora da seleção brasileira.
A MBRF informou ainda que a integração dos negócios da Marfrig com BRF continuou avançando, com a companhia capturando R$ 158 milhões em sinergias no segundo trimestre.
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