Loja de decoração para bebês deixa clientes sem produtos e sem respostas: 'Fiquei agoniada'
Mudança no comando da Grão de Gente teria causado demissão em massa e problemas em plataforma de vendas
A loja Grão de Gente, localizada na cidade de Santos em São Paulo, foi adquirida por um fundo, causando demissões em massa e milhares de pedidos não entregues, o que gerou mais de 81 mil reclamações em site.
O sonho de muitas famílias se tornou um pesadelo quando, ao tentarem comprar a decoração do quarto de bebê em uma loja online --que diz ser uma das maiores do país--, seus produtos jamais foram entregues, e nenhuma satisfação sobre os pedidos foi dado.
São mais de 81 mil reclamações de clientes insatisfeitos sobre a loja Grão de Gente só no site Reclame Aqui, por exemplo. No JusBrasil, são 270 processos ativos envolvendo o nome da marca.
Nas redes sociais e em aplicativos de mensagens, mulheres grávidas, mães e famílias indignadas participam de grupos que reúnem milhares de pessoas lesadas pela loja, que nunca tiveram seus pedidos entregues. O site e as redes sociais da Grão de Gente, porém, continuam operando normalmente.
A Grão de Gente foi procurada pelo Terra, mas os responsáveis recusaram dar entrevista.
A empresa foi fundada por uma família na cidade de Santos, litoral de São Paulo, com outras sedes em Ibitinga e fábrica em Jacutinga, no interior do estado.
Ao Terra, ex-funcionários relataram que há especulação sobre a empresa entrar em recuperação judicial. Neste caso, pode haver um acordo para que seja efetuado o pagamento dos funcionários demitidos. A informação sobre recuperação judicial não foi confirmada pela empresa.
Um ex-funcionário, que prefere não ser identificado, afirmou em entrevista exclusiva ao Terra que os colaboradores foram informados no início de janeiro de 2024 sobre a compra da maior parte da empresa. "Esse grupo viria com o intuito de salvar a marca porque a Grão de Gente já estava passando por algumas crises financeiras entre agosto e dezembro."
O ex-funcionário alega que há especulação sobre a crise ter sido gerada por problemas de gestão, atraso de clientes, problemas com a qualidade dos produtos e alta demanda. Os problemas teriam afetado o caixa da empresa, culminando na demissão em massa em janeiro deste ano.
Compras atrasadas
Ainda de acordo com o ex-funcionário, a falta de entrega das compras de milhares de clientes pode ter sido causada por problemas técnicos no site.
"Os fornecedores foram os primeiros a não serem pagos. Alguns produtos tinham que ser esgotados no site por falta de entrega do fornecedor, mas já tinham sido vendidos. Acontecia uma demora em tirar o produto do ar e em avisar os clientes que o produto ficou indisponível, virou um efeito em cadeia com muitas reclamações", explica.
Por serem milhares de pedidos feitos todos os dias, a equipe que realizava o atendimento ao cliente ficou sobrecarregada com as reclamações, piorando a situação da loja e a reputação online.
Reclamações de clientes
Nas redes sociais, são centenas de relatos em vídeos, posts e comentários de clientes lesados pela Grão de Gente. Entre os relatos, o da jornalista e influenciadora digital Janaína Xavier foi um dos que mais viralizou.
Em um vídeo com mais de 800 mil visualizações e mais de 3.000 comentários no TikTok, ela diz ter comprado uma cama para a filha e nunca ter recebido o produto, nem qualquer satisfação sobre a compra. Os comentários da publicação mostram que ela não está sozinha.
Ao Terra, Janaína disse que estava se mudando do Paraná para São Paulo, e comprou uma cama para a filha no site Grão de Gente, junto com o enxoval. A compra foi feita no início de novembro de 2023, com previsão de entrega de 20 dias, mas o prazo não foi cumprido.
"Gastei R$ 4.000, eu comprei porque eles prometiam no site que a entrega se daria em, no máximo, 20 dias úteis. Então, eu receberia no prazo da minha mudança. Eu me mudaria no dia 11 de dezembro, então daria tempo. Mas eu me mudei e a cama não chegou, comecei a entrar em contato com eles, eles não respondiam, sem retorno absoluto, nada de atualização no site", conta.
A situação se tornou uma grande preocupação para ela. "Começou a me deixar muito agoniada, porque eu cheguei de mudança, e aí minha filha começou a dormir no colchão, com todo mundo com seu quarto", relembra. Perto da véspera do Natal, Janaina decidiu fazer a mesma compra em uma loja concorrente, e o produto foi entregue no dia seguinte.
"Fui lá e fiz o cancelamento da compra, aguardando o retorno deles, para ver se eles fariam o estorno e eles não responderam. Depois que fiz meu primeiro post, que viralizou, eu consegui um contato de pós-atendimento". No dia seguinte à publicação do vídeo em que relata o descaso do atendimento, o dinheiro foi depositado na conta dela, sem mais explicações sobre o atraso.
Janaina diz que não esperava que o mesmo problema estivesse afetando um número tão grande de clientes e que ficou surpresa com a quantidade de outras mães que se solidarizaram com a situação. "Eles fizeram o depósito, sim, claramente, para ver se eu ficava quieta. Porque eles viram que eu estava ajudando a liberar uma rebelião de mães", comentou.
Em seu perfil no instagram, a jornalista deu voz a outras famílias, inclusive grávidas que iriam ter seus bebês sem receber o enxoval. "Recebi relatos de mãe que estava indo em três dias para a maternidade e não tinha o berço em casa ainda."
Além das mães, ex-funcionários fizeram acusações contra a empresa nas redes sociais. "Comecei a receber relatos de funcionários que foram demitidos e não receberam nada. Ou de funcionários que trabalhavam em situação de assédio moral extremo", relatou Janaina Xavier.
Abusos no ambiente de trabalho
Além de não atender aos pedidos dos consumidores, a empresa Grão de Gente foi alvo de diversos comentários em redes sociais criticando a conduta da empresa com os funcionários, que relataram ter sofrido abusos enquanto atuavam na empresa.
Além disso, a falta de pagamento de rescisão para os que foram demitidos em janeiro também é alarmante.
Ao Terra, um ex-funcionário, que terá sua identidade preservada, relatou ter sofrido diversos tipos de abuso psicológico e presenciado situações constrangedoras no ambiente de trabalho. Ele acusa a família que fundou a empresa de má gestão e alega que presenciava constantes humilhações.
"Era comum que as equipes presenciassem cenas muito constrangedoras, tanto para os funcionários quanto para os próprios parentes, que eram frequentemente humilhados pelo dono", diz.
O ex-funcionário conta que presenciou o dono da empresa chegando para trabalhar visivelmente alterado. "Protagonizando episódios que iam da falta de educação, até racismo, homofobia e misoginia. Era comum que alguns líderes de equipes tivessem comportamentos no mínimo reprováveis na abordagem que faziam com mulheres da equipe."
A dificuldade em estabelecer processos também foi um fator determinante para o aumento das reclamações dos clientes, segundo o ex-colaborador. "Mesmo no início, as reclamações de clientes eram ignoradas, pois, segundo o dono, era uma porcentagem pequena e que jamais conseguiria ter voz suficiente para impactar a imagem da marca."
De acordo com ele, indepedente da reclamação, a estratégia era apagar os comentários. "Caso a pessoa decidisse se pronunciar num canal que a empresa não tinha controle, a empresa recorria ao assédio jurídico, com ameaças de processos por difamação."
O ex-funcionário ainda diz que não havia respeito pelos trabalhadores, que muitas vezes eram contratados em um dia, e demitidos no outro, na frente dos colegas. "Era muito comum que o dono enviasse mensagens de madrugada para os funcionários, com gritos e agressividade habituais. Nunca trabalhei em um local onde tantas pessoas adoeceram em decorrência de problemas psicológicos. Era um local que só conseguia funcionar quando as pessoas estavam medicadas, uma experiência que espero nunca mais presenciar", desabafou.
A empresa não quis se manifestar sobre as acusações.