'Lista de exceções mostra que tarifaço é negociação comercial, e não política', diz especialista
Para diretor de estratégia da Arko Advice, que conecta empresas ao poder público em diferentes países, negociação do governo começa efetivamente agora
Desde o dia 9 de julho, quando Donald Trump anunciou que as exportações brasileiras aos EUA seriam taxadas em 50%, o telefone de Thiago de Aragão, diretor da Arko Advice Public Affairs, não parou de tocar: ele acordou todos os dias com pelo menos 50 mensagens de empresas e representantes setoriais brasileiros tentando entender e se posicionar no cenário incerto.
Com escritórios e parcerias em diferentes países e Estados norte-americanos, a Arko acompanha de perto a artilharia de Trump. Esteve envolvida, por exemplo, nas negociações com o México e tenta usar essa experiência como um paralelo para o Brasil.
Para Aragão, a publicação do decreto do tarifaço nesta quarta-feira, 30, — e da gigantesca lista de produtos isentos — mostrou que o estardalhaço não deixa de ser comercial. "Se fosse 100% política, não haveria exceções", afirma. Para ele, as negociações começam agora.
Veja trechos da entrevista a seguir.
O que o sr. achou do decreto?
Ele é mais ou menos como o esperado, uma vez que a lista de exceções acabou sendo antecipada por (Howard) Lutnick (secretário do Comércio dos EUA) 24 horas antes. De certa forma, ela acabou sendo menos impactante para o Brasil do que muita gente temia, quando foi anunciada pela primeira vez.
Qual o significado da lista de exceções?
A lista de exceções demonstra existir uma saída de emergência para várias empresas brasileiras que têm argumentação para serem beneficiadas. Ela mostra que, no fundo, o tarifaço segue sendo uma negociação comercial, por mais que se fale muito de política. Se fosse 100% política, não haveria exceções e o anúncio teria "explodido" tudo o mais rápido possível.
O governo Trump conseguiu o que queria?
Ele separou o ataque feito em relação ao Alexandre de Moraes (no decreto publicado). Isso está categorizado no aspecto político das expectativas dele. Já a questão das tarifas, agora elas estão voltadas para questões comerciais em si. O Brasil tem de separar as duas questões e não cair no erro de oferecer algo político para obter algo comercial.
É preciso oferecer algo comercial para ter sucesso comercial. E, se for de interesse do governo brasileiro, levar a conversa política num fórum estritamente político. O ideal seria ter dois negociadores paralelos para isso. Ou ficar só numa negociação comercial no momento.
O Brasil deve retaliar?
O Brasil não deveria retaliar agora porque nada do que aconteceu é novo: tudo foi meio que anunciado lá atrás e, agora, a negociação de fato começa. Até a publicação do decreto, havia apenas uma promessa de que ele seria feito. Com o decreto, nós temos agora uma base para começar — e é agora que o governo brasileiro deve negociar: deve montar seu arsenal de narrativas, de argumentações, entender muito bem do que ele está disposto a abrir mão e saber que o resultado positivo envolve o maior número de setores possíveis isentos.
Para aqueles que não conseguirem exceção, ao menos buscar a menor tarifa possível, que deve girar por volta de 25% a 20%, mas dificilmente abaixo dos 10%. O governo conseguiu mandar a mensagem que queria.
O que os setores não contemplados pela isenção devem fazer?
Primeiro: não dependa do governo brasileiro para isso, principalmente se não for uma indústria gigante. O caminho é contar com alguém que possa ajudar nos Estados Unidos para que consiga desenvolver uma narrativa que justifique por que que deve haver essa excepcionalidade, por que merece a isenção, com argumentos muito sólidos.
Segundo, contar com alguém que tem a capacidade de fazer com que essa mensagem chegue à Casa Branca por diversos caminhos diferentes e, principalmente, por personagens que têm a capacidade de influenciar o governo Trump. É momento de gerar uma argumentação plausível que justifique esse tipo de operação e esse tipo de isenção.