Juro alto manterá ofertas de ações 'baixíssimas ou nulas' no 2º semestre, prevê o CEO do Itaú
Neste mês, o Brasil completa quatro anos sem ofertas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês); Milton Maluhy Filho vê o mercado com concorrência acirrada e diversificação de opções
O CEO do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, avalia que, por conta da alta taxa de juros, a atividade do mercado de capitais pela frente não deve ser muito forte. Na renda fixa, em emissões de dívida, a expectativa é de volumes 20% a 30% menores no segundo semestre do que foi no ano passado. Nas ofertas de ações, o volume de ofertas pode ser "baixíssimo ou nulo", na visão do banco.
"Nossa expectativa é de que os volumes no mercado de dívida continuem abaixo do que foram no ano passado, em pelo menos 20% a 30% para o segundo semestre", disse Maluhy a jornalistas, após a divulgação dos resultados do segundo trimestre. "Não vejo o segundo semestre muito diferente do que foi a dinâmica do primeiro."
"Com o nível de juros que estamos observando, difícil imaginar que vai se abrir uma janela para equities (ações) no segundo semestre", disse Maluhy. Neste mês, o Brasil completa quatro anos sem ofertas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês).
O que pode acontecer são "muito eventuais" ofertas de ações de empresas já listadas na B3, os chamados "follow-on", onde já há referência de preço, na visão do CEO do Itaú. Mesmo neste caso, a expectativa não é de muitas operações, e sim casos pontuais.
Na renda fixa, tem havido demanda de fundos por papéis, mas algumas empresas estão reticentes em emitir. "O mercado está muito competitivo em termos de preços", disse o CEO do Itaú.
Com o mercado de capitais mais fraco, as receitas com assessoria financeira e corretagem do Itaú tiveram queda de 39% no segundo trimestre na comparação com igual período de 2024. Na comparação com o primeiro trimestre deste ano, a redução foi de 13%.
Sobre os efeitos das tarifas de Donald Trump de 50% para o Brasil, Maluhy disse que não vê impacto material na carteira de crédito do banco. "Os impactos são imateriais para a carteira."
Diversificação de negócios
Maluhy disse que o banco de investimento tem sido o maior ofensor das receitas com serviços do banco, dado o fato de o mercado de ações seguir muito fechado e a atividade no mercado de renda fixa crédito privado ter se retraído em relação aos números recorde do segundo trimestre do ano passado.
"O maior ofensor é o banco de investimento. Olhando para produtos, vemos equity (ações) muito fechado, com pouquíssimas operações e fees muito baixos", afirmou. Maluhy lembrou que o segundo trimestre de 2024 foi muito maior e historicamente o maior do banco. No entanto, ressaltou que o banco de investimento tem tido desempenho muito bom e com atividade acima do mesmo período do ano passado em transações de fusões e aquisições (M&A).
Maluhy acrescentou que o banco como um todo tem buscado diversificação em seus negócios e que é importante olhar a completude para entender a linha de receitas com serviços e seguros, que é a maior no resultado do banco.
Ele nota que os volumes nas pessoas físicas têm caído, citando receitas com conta corrente e tarifas, uma vez que o trabalha com uma proposta de valor. "Queremos ampliar a relação de longo prazo com clientes". No atacado, acrescentou, o grande destaque foi o fee com administração de recursos.
Aprendizado com o consignado privado
O CEO do Itaú Unibanco disse que o crédito consignado privado, lançado este ano pelo governo, começou bem, mas teve desaceleração nas semanas seguintes, por questões operacionais e de risco. "É um produto em evolução", afirmou.
Maluhy ressaltou que o consignado privado é um mercado de R$ 40 bilhões, mas que era muito limitado a convênios específicos e por isso foi repaginado pelo governo. "Era um mercado relativamente pequeno. Vem crescendo, vemos uma evolução da carteira", afirmou o CEO em teleconferência com analistas.
O Itaú está rodando com participação de 11% a 12% da produção desse segmentos, mas em algumas semanas, esse porcentual chegou a 30%. "Nossa estratégia está muito robusta."
Maluhy mencionou que o Itaú e o Banco do Brasil foram os primeiros a entrar nesse produto, desde o início das operações. "Estamos em evolução, ainda tem um longo caminho pela frente."
A taxa de inadimplência do consignado privado está mais alta, mas não no caso do Itaú, ressaltou o presidente do banco. No mercado, o número que circula é que a taxa de inadimplência chegou a 16%.
Ele disse que o banco tem tido um "bom share (fatia)" de produção de consignado privado, mas lembrou que esse é um mercado que ainda está em seu início, dado que as instituições financeiras ainda estão fazendo ajustes estruturais ao produto.
"Entramos no início, temos aprendido com a evolução da plataforma e desafios operacionais e conseguimos contratar volume importante", afirmou. "Estamos animados" e, assim como todo o mercado, acrescentou, o banco está em modo de transição, o que fez com que a atividade em todo o mercado tenha caído um pouco.
O banco não segmentou a quantidade de operações feitas na modalidade de crédito consignado privado. Considerando as operações com INSS, a carteira de crédito consignado recuou 1,6% em 12 meses para R$ 72,8 bilhões.
"Temos duas questões que impactaram o consignado do INSS, que são os tetos de remuneração e com o aumento do custo do funding (fonte de recursos), deixamos sem geração de produção", afirmou. A segunda, diz respeito ao processo com recadastramento, com impacto negativo nos volumes. Ele lembrou que os dois pontos são estruturais dessa indústria e que atingiram todas as instituições.
Inadimplência de pequenos e médios negócios
Maluhy afirmou que a inadimplência na carteira de Pequenas e Médias Empresas (PMEs) pode registrar algum aumento nos próximos trimestres, mas sem afetar índice de modo relevante.
"Boa parte do crescimento de PMEs vem dos produtos governamentais, que em boa parte está em período de carência e como não tem crédito com vencimentos no período, deve haver ligeiro aumento na inadimplência, mas sem afetar o número de modo relevante de forma geral", afirmou o executivo na teleconferência.
No segundo trimestre, o índice de inadimplência acima de 90 dias na carteira de PMEs ficou estável em 1,4% no trimestre ante os três meses anterior e caiu ante 1,7% de igual etapa de 2024.
Ele afirmou ainda que o custo do crédito está comportado. O custo do crédito sobre a carteira ficou estável em 2,7% no segundo trimestre frente ao anterior e caiu de 2,9% em junho do ano passado.
Retorno acima de 20%
Maluhy afirmou que o banco está direcionado para entregar retorno (ROAE) acima de 20% este ano e no próximo, mas que há muitos fatores condicionados, citando a concorrência, além de fatores macroeconômicos e microeconômicos. Ele disse, no entanto, que criação de valor é o mantra do Itaú Unibanco.
"É difícil prever o retorno para 2025 e 2026, mas acima de 20% é razoável", disse em conferência para analistas. Maluhy reforçou que não se trata de um guidance (tendência), mas que não vê a rentabilidade caindo para abaixo do que o banco está entregando. "Acho que o nível que estamos entregando é sustentável", afirmou.
"Temos capacidade de entregar boa rentabilidade, claro que depende da concorrente, sempre foi, temos excelentes bancos trabalhando todos os dias e tentando entrar em segmento que somos lideres, mas temos capacidade, equipes, infraestrutura e investimentos para concorrer de forma forte para entregarmos bom resultado em todos os segmentos que estamos atuando", afirmou.
O CEO do Itaú Unibanco desdobrou a rentabilidade do banco, que ficou em 23,2% no balanço consolidado, por segmento de negócio, e ressaltou que na operação de atacado, quando se considera só o Brasil, o indicador chega à casa dos 30% ou 31%.
Na pessoa física, Maluhy disse que o banco mudou de patamar em rentabilidade. Com isso, no segundo trimestre, pela primeira vez em alguns anos, a rentabilidade do banco no varejo ultrapassou a do atacado.
"Os dois lados, atacado e varejo, estão performando com ótima rentabilidade", disse o CEO. "A agenda de eficiência vai ser um driver importante para a rentabilidade no longo prazo", afirmou Maluhy.
Ele afirmou que a margem com clientes teve crescimento importante no segundo trimestre, citando o cartão financiado que não foi o único fator de expansão, mas que o ritmo pode se desacelerar daqui para a frente.
"Acho que chegamos em grau de maturidade relevante", afirmou. "Para a frente essa aceleração não vem na mesma intensidade, mas vamos entregar guidance, que foi revisado e mais forte do que planejado."
Maluhy observou que o Itaú tem evoluído na jornada do cliente, citando a oferta do Pix crédito, por meio do cartão, que teve boa aderência entre os clientes Uniclass e Personalitté.
Maluhy disse que as receitas com serviços no segmento de atacado (banco de investimento) podem ser afetadas de forma ainda maior se a atividade no mercado de emissão de títulos de dívida por empresas (DCM, na sigla em inglês) seguir recuando.
Ele notou que o DCM tem uma participação muito relevante no negócio do Itaú e que no segundo trimestre houve uma retração de 20%, a qual contribuiu negativamente para as receitas do banco de investimento, já que o mercado de ações segue parado e ainda que a atividade em fusões e aquisições (M&A) tenha havido uma boa atividade para a instituição.
Maluhy afirmou ainda que a base de comparação é muito elevado, lembrando que no segundo trimestre de 2024 o banco teve uma atividade em patamar histórico no mercado de crédito privado.
De toda a forma, ele reiterou que no restante das linhas de negócios do banco, incluindo varejo, as margens têm desempenhado bem, mas que, o importante não é olhar para a linha, mas pensar no valor futuro do cliente. Segundo ele, um olhar para as linhas não é o principal, dada as mudanças que estão sendo feitas para melhorar o resultado no longo prazo e das mudanças estruturais do mercado.
Distribuição de dividendo adicional
Maluhy disse que o banco deve fazer uma "distribuição importante" de dividendo adicional no começo do ano que vem, tudo o mais constante.
Ele afirmou que o banco não tem como objetivo reter excesso de capital, isso depois de todas as análises de cenários, estratégias e perspectivas. No segundo trimestre, o Itaú continuou gerando capital.
"Vamos terminar o ano, vamos fazer o orçamento, ver quais as oportunidades que temos, que podem ser M&A (fusões e aquisições), temos feito operações menores de M&A, vamos ver a expectativa de crescimento", disse.
O índice de capital principal do banco fechou o segundo trimestre em 13,1%, acima dos mínimos regulatórios. O presidente do Itaú disse que a instituição trabalha com 12% desse capital para fins de dividendos, embora o conselho tenha definido em 11,5% — o banco prefere deixar um "colchão" de reserva.
"Vamos ser capazes sim de fazer novo dividendo adicional no começo de 2026", acrescentou.
Sobre o índice de eficiência, que terminou o segundo trimestre em 37,4%, considerando a operação brasileira, o CEO disse que o banco está com o melhor índice da série do banco. "A palavra do jogo é consistência", disse.
Recompra de US$ 1,5 bi em bonds perpétuos
O CEO do Itaú Unibanco disse que o banco fez recompra de títulos de divida perpétuas (bonds) emitidos no exterior, que somam US$ 1,5 bilhão.
Cada um dos calls (opção de recompra) é de US$ 750 milhões, referentes a duas emissões.
O banco conseguiu fazer essa operação porque conseguiu emitir um bom volume de títulos perpétuos no mercado doméstico, na casa dos R$ 5 bilhões, captados em letras financeiras perpétuas. "Isso está permitindo que a gente recompre esses papéis."