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Investimentos privados e busca por parceiros confiáveis: como o Brasil pode virar potência em urânio

Setor defende abertura do mercado para participação de empresas privadas como saída para falta de capacidade do País de explorar o mineral; reservas do Brasil chegam a 276,8 mil toneladas

23 jul 2026 - 12h10
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BRASÍLIA - O setor de mineração nacional há tempos defende a abertura do mercado de urânio para a participação de empresas privadas como saída para uma alegada falta de potencial e capacidade do País de explorar o mineral existente nos solos nacionais. Hoje, em fase de regulamentação, além de receber investimentos, começa a se discutir quais seriam os parceiros ideais para o Brasil no setor.

Com reservas de 276,8 mil toneladas, o Brasil produziu pouco mais de 5 mil toneladas de urânio desde 1982, quando a estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) — que monopoliza o segmento — iniciou a mineração no município de Caldas, em Minas Gerais.

Para aproveitar o potencial nacional e navegar em um setor complexo como o do urânio, o setor de mineração defende que haja instituições "fortes e confiáveis" no Brasil que evitem envolvimento em "escândalos" ao negociar com empresas e países envolvidos em guerra ou com enriquecimento de urânio acima do limite.

Unidade de Concentrado de Urânio em Caetité, na Bahia
Unidade de Concentrado de Urânio em Caetité, na Bahia
Foto: INB/Divulgação / Estadão

A ideia não seria inédita. O presidente interino do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Pablo Cesário, defende que o órgão de cooperação seja criado aos moldes da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC), criada em 1991 para assegurar que todo o material e as instalações nucleares nos dois países sejam usados para fins exclusivamente pacíficos.

"Se algum país chegar ao Brasil querendo investir, é necessário analisar se é válido ser aceito. Assim como se algum país fizer exigências para parcerias. Tudo precisa ser entendido. Se vai ser necessário olhar para o País, ou para quem está no governo. Por isso a gente tem que criar instituições fortes nesse sentido. Como a Comissão", afirmou em entrevista ao Estadão/Broadcast.

A ABACC tem formato único no mundo e faz auditorias e inspeções constantes — com e sem aviso prévio — em todas as instalações nucleares civis do Brasil e da Argentina para contabilizar o material nuclear e verificar os relatórios.

Essa seria a alternativa para que o Brasil tenha capacidade para realizar análises complexas dos critérios de parceria, aumentando também a confiança no País. "É um processo de cooperação baseado na construção de confiança, que é genial. É uma instituição que funciona há muito tempo."

Ao mesmo tempo, o advogado e ex-secretário nacional de Mineração do Ministério de Minas e Energia Alexandre Vidigal afirma já haver instituições capazes de garantir que o Brasil não receba investimentos de empresas que representem risco à sua reputação.

"O Brasil tem instituições muito sólidas de controle. Temos o Ministério Público. Nada que se faça aqui, nenhuma possível parceria, deixará de passar pelos olhos do MP", disse.

Ele afirma ainda que, além do controle interno exercido pelo MP, o mercado internacional de urânio é "altamente monitorado" por instituições como a Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea), vinculada às Nações Unidas (ONU), que não permitem que países que descumpram os limites de enriquecimento "passem batidos".

"Você vê a questão do Irã, que é o país mais fechado, e o mundo não desconhece o que o Irã fazia no que diz respeito ao enriquecimento. Há instituições internacionais de altíssima credibilidade e com profunda capacidade de monitoramento da produção nuclear dos países que podem negociar com o Brasil", disse.

Mercado vive movimento de fusões e aquisições

A World Nuclear Association, em seu relatório "Cenários Globais de Demanda e Disponibilidade de Oferta 2025-2040", afirma que a capacidade de captação de recursos para projetos de mineração ao redor do mundo tem mostrado redução desde 2014, dada a baixa do preço do urânio no mercado internacional.

A condição, somada ao desinvestimento e à demanda elevada por aporte de capital, tem feito com que investidores busquem países que ofereçam, além do retorno sobre o investimento, segurança jurídica.

"O desenvolvimento de uma mina é um processo que exige grande aporte de capital (...). A capacidade das empresas de captar recursos depende fortemente dos recursos identificados, do risco jurisdicional, do retorno potencial ajustado e da avaliação de mercado", afirma o relatório.

Dado o cenário, o mercado tem assistido, há pelo menos dois anos, a um movimento elevado de fusões e aquisições entre grandes empresas em detrimento da abertura de novos projetos, em especial com aquisições chinesas. Em dezembro de 2024, a Paladin Energy concluiu a aquisição da Fission Uranium Corp., uma desenvolvedora canadense de projetos de urânio.

No Cazaquistão, a participação de 49,98% da Uranium One no projeto Zarechnoye foi vendida, em dezembro de 2024, para a SNURDC Astana Mining, cujo beneficiário final é a estatal chinesa State Nuclear Uranium Resources Development Company.

Da mesma forma, em janeiro de 2025, foi fechado o negócio para a venda da participação de 30% da Uranium One na joint venture Khorasan-U para a China Uranium Development Company.

Para Vidigal, mesmo com o movimento de fusões e aquisições, a forma mais eficiente para se evitar que haja uma espécie de suspeita em relação ao processo de definição de investidores seria a realização de licitações, como no setor de petróleo e gás. Ele afirma que a modalidade, por si só, seria capaz de garantir a transparência e a competitividade.

"A licitação é o instrumento mais viável do ponto de vista concorrencial e da própria transparência. Não há como ser de outra forma no setor de urânio aberto ao privado. A rigor, o que eu sei é que o mundo gosta muito desse modelo que o Brasil pratica."

Estadão
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