Indústria cai 0,2% em julho e registra quarto mês seguido sem crescimento
Resultado veio um pouco melhor do que a mediana das expectativas dos analistas ouvidos pelo 'Projeções Broadcast', de retração de 0,3%; tarifas de Trump já afetam confiança
RIO - Em meio ao cenário de política monetária contracionista, a produção industrial brasileira caiu 0,2% em julho ante junho, segundo os dados da Pesquisa Industrial Mensal divulgados nesta quarta-feira, 3, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A indústria nacional completou assim uma sequência de quatro meses sem crescimento.
Apesar de negativo, o resultado de julho foi um pouco mais ameno do que o esperado por analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Projeções Broadcast, que estimavam uma retração mediana de 0,3%. O patamar elevado da taxa básica de juros, a Selic, tem impactado a performance da indústria brasileira, afirmou André Macedo, gerente da Pesquisa Industrial Mensal no IBGE.
"Claro que a taxa de juros em patamar mais elevado traz uma série de consequências que vão afetar o andamento da economia", afirmou Macedo.
O pesquisador cita que a política monetária mais restritiva provoca um encarecimento do crédito, dificuldade de acesso a financiamento e um aumento da inadimplência. Além disso, o juro elevado "limita os investimentos das empresas e as decisões de consumo das famílias", enumerou.
"Muito do comportamento de menor intensidade do setor industrial nos últimos meses tem relação direta com o aumento na taxa de juros, que começou a ocorrer no ano passado", afirmou Macedo.
Na passagem de junho para julho, as categorias de uso com redução na produção são justamente as mais expostas à política monetária contracionista: bens de capital (-0,2%) e bens de consumo duráveis (-0,5%).
"Em bens de capital, as decisões de investimento também passam por essa política monetária restritiva", disse o pesquisador. "E bens duráveis, as decisões de consumo também passam pela questão do crédito, são bens de valor mais elevado, passam pela concessão de crédito."
Segundo a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), a falta de dinamismo dos últimos meses reflete o cenário desafiador enfrentado pela indústria nacional.
"O desânimo acende sinal de alerta, pois pode resultar em cortes de produção, adiamento de projetos e redução de contratações, fatores que podem deflagrar uma nova crise do setor", alertou a Firjan, em nota.
O desempenho da indústria nos últimos meses reforça a expectativa de que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresça menos em 2025 do que no ano passado, avaliou a economista Claudia Moreno, do C6 Bank. "Essa perda de fôlego é reflexo dos juros altos, que tendem a impactar os investimentos e provocar uma desaceleração da atividade econômica. Nossa expectativa é de que o PIB cresça 2% em 2025 e 1,5% em 2026", previu Moreno, em nota.
O tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a exportadores brasileiros também já afetou em julho alguns informantes da Pesquisa Industrial Mensal do IBGE.
Segundo André Macedo, gerente da pesquisa, os questionários referentes a julho mostram alguns informantes sinalizando influência do tarifaço nas expectativas e na produção futura, mas ainda sem impactos relevantes sobre nenhuma atividade específica nem no resultado geral da indústria nacional no período.
"A gente observou (influência de tarifaço) em algumas informações muito pontualmente nesse momento, aqueles que têm relação mais direta com o mercado externo e relação mais com os Estados Unidos indicando algum tipo de impacto quanto a isso. Nesse momento ele (o empresário afetado) já pisa no freio. Dentro do resultado em geral não tem importância nesse momento", disse Macedo. "A perda de intensidade da indústria tem muito mais relação nesse momento com a política monetária mais restritiva", reforçou.
Macedo lembra que os dados divulgados pelo IBGE nesta quarta-feira são referentes a julho, enquanto o tarifaço entrou em vigor em agosto.
"A questão do tarifaço tem relação mais importante com expectativas e com produção mais futura. Claro que vai trazer impacto mais à frente, a gente não sabe como mensurar, mas nesse momento ainda está no campo das expectativas dos empresários", frisou o pesquisador do IBGE.
Em relação a julho de 2024, a produção industrial subiu 0,2%. No acumulado do ano, que tem como base de comparação o mesmo período do ano anterior, a indústria teve uma alta de 1,1%. No acumulado em 12 meses, a produção subiu 1,9%.
Na passagem de junho para julho, 13 dos 25 ramos industriais analisados registraram perdas na produção. Em comparação a julho de 2024, também houve queda em 13 dos 25 ramos.
Para André Valério, economista sênior do Banco Inter, o resultado da indústria é condizente com o cenário "de condições financeiras mais adversas, além da elevada incerteza causada pelo tarifaço".
"A perspectiva é de que continuemos a ver a produção industrial perdendo força na margem, andando de lado até o fim do ano, uma vez que ainda há parte do aperto monetário a ser transmitido para a economia real. Entretanto, podemos ver a indústria perder força além do esperado a depender do impacto das tarifas americanas sobre o setor, que ainda está bastante exposto mesmo após as isenções já anunciadas. Esse cenário desafiador se manifesta na confiança da indústria, que em agosto caiu para o menor nível desde outubro de 2023", disse Valério, em comentário.