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Haddad diz que mercado está muito mais tenso hoje do que antigamente: 'Estão com o dedo no gatilho'

Ministro da Fazenda citou turbulência vivida nos Estados Unidos, com a falta de previsibilidade sobre as ações do novo governo Trump

25 fev 2025 - 10h04
(atualizado às 15h02)
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BRASÍLIA - O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse nesta terça-feira, 25, que o mercado está mais tenso do que em outros momentos da história e citou a turbulência vivida nos Estados Unidos, com a falta de previsibilidade sobre as ações do novo governo Trump.

"De fato, quando você vê uma turbulência na economia americana, do que as autoridades econômicas daquele país vão fazer e da dependência do mundo em relação a essas decisões, as pessoas estão mais tensas. E não é só no Brasil, está todo mundo tenso. Converso toda semana com alguma autoridade de outro país", disse Haddad, que participou do painel Cenário Econômico 2025 na CEO Conference 2025, organizada pelo BTG Pactual.

Ele citou sua recente viagem ao Oriente Médio que, segundo o ministro, enfrenta uma pressão "enorme" dos Estados Unidos para baixar o preço do petróleo, "meio que na marra". "Definindo até o preço, 'vai ter que ser tanto para ajudar na desaceleração da inflação nos Estados Unidos'. Isso vai comprometer crescimento, investimento, uma série de coisas que eles tinham planejado até 2030. Eles possivelmente vão ter que refazer cálculos e tudo mais", afirmou Haddad. "A situação externa é mais desafiadora."

Haddad voltou a mencionar situação desafiadora que Lula herdou na transição de governo
Haddad voltou a mencionar situação desafiadora que Lula herdou na transição de governo
Foto: Wilton Junior/Estadão / Estadão

"As pessoas estão mais com o dedo no gatilho hoje, esperando uma notícia para agir, para se proteger, ou para especular, ou para o que quer que seja, tudo dentro da regra do jogo, ninguém está acusando ninguém", disse.

Haddad também citou a imprevisibilidade com as decisões do Banco Central americano e classificou o cenário como "muito ruim". "É muito ruim você não saber o que o Fed vai fazer. O Fed já mudou de ideia quantas vezes? Desde o final de 2023? Eu acompanho diariamente a fala dos diretores, como é que ele se posiciona, o orçamento era de 150 pontos, cai para 50, do dia para a noite. Uma hora você acha que a economia está desaquecendo, outra hora você acha que não está desaquecendo. Uma hora você acha que agora vai, aí sai uma notícia qualquer sobre emprego, atividade, ou o que quer que seja, já muda tudo de figura do dia para a noite", disse. Segundo ele, vivemos em "um mundo de incerteza, inclusive geopolítica".

O ministro também mencionou a situação desafiadora que Lula já herdou em transições de governo, quando "ninguém dizia que o Brasil ia quebrar". "Nem o Fernando Henrique disse, nem o Lula disse, nem o mercado disse, ninguém achava que o Brasil ia quebrar".

'Coisas estão se acomodando'

O ministro disse ainda que o Brasil teve um "deslocamento maior" da economia em dezembro na comparação com outros pares, mas ponderou que, desde o início do ano, "as coisas estão se acomodando" num patamar mais próximo dos outros Países.

Para Haddad, algum "escape" do câmbio em função do déficit de transações correntes iria acontecer. Ele defendeu que o diagnóstico feito por sua equipe desde o início continua válido, a exemplo do desafio imposto pelo gasto tributário.

"Eu recebi um Orçamento para 2023 com uma receita primária de 17% do PIB, a menor da história em muitos e muitos anos. O ano passado o dado oficial não está fechado, mas a verdade é que deve ter chegado a 18,3%. Sem aumento nenhum de carga tributária, não se criou imposto, nada. Só se cobrou um pouco de quem não paga e nem tem um economista no Brasil sério que diga que o gasto tributário não é exagerado no Brasil", afirmou.

O ministro também voltou a dizer que o olhar de investidores externos sobre o Brasil é um pouco diferente da visão doméstica e que foram registrados avanços na economia que nem sempre são considerados. "Só que eles (investidores externos) não têm a força que os domésticos têm, então eles ficam aguardando um pouco", afirmou o ministro, para quem a agenda fiscal não pode perder o ímpeto nem "perder o momento".

Haddad destacou o momento de mudança na presidência das casas do Congresso para reendereçar temas importantes. "Se nós recuperarmos os números pré-crise de 2015 e chegarmos num patamar de receita próximo de 19%, num patamar de despesa próximo de 18% do PIB, com 0,2 de margem para cima e para baixo... Acredito que temos um horizonte de sustentabilidade que vai dar potência para todas as reformas microeconômicas que estamos fazendo em paralelo", disse.

Pressão por ajuste fiscal

O ministro da Fazenda criticou ainda quem pressiona pelo ajuste fiscal, especialmente aqueles que atuam por lobbies, mas não querem mudanças em seus setores. Ele ponderou que o Congresso colaborou com a agenda do governo, aprovando propostas importantes, mas que muita coisa ficou de fora por pressões além do jogo político.

"Eu nunca reclamei do Congresso. O Congresso deu aquilo que a democracia permitiu. Houve um avanço considerável nas pautas fiscais e pautas não fiscais, de crédito, de contrato, de marcos institucionais muito relevantes, que vão significar mais desenvolvimento. Eu tenho que ser honesto com o Congresso Nacional, que apoiou todas as medidas e entregou 60%, 70% da pauta fiscal. Não entregou 100%? Não. Mas não entregou 100% porque muita gente se mexeu fora do Congresso para que isso não acontecesse. Para a surpresa ingênua de alguns, são os que mais reclamam da falta de ajuste fiscal. É o cara que está fazendo o lobby lá e está pedindo ajuste fiscal, mas nunca no quintal dele", disse o ministro.

Ao longo da participação no evento, o ministro defendeu diversas vezes o equilíbrio das contas públicas. Ele reconheceu que há um engessamento real do Orçamento e defendeu o arcabouço fiscal como instrumento para atingimento da sustentabilidade das contas públicas. "Na minha opinião, o caminho do arcabouço é o caminho da sustentabilidade orçamentária de longo prazo no Brasil", disse Haddad.

Ele disse que o teto de gastos, adotado na gestão de Michel Temer, não melhorou as contas públicas, e que continuou a gerar déficits primários, ainda que não tenha havido despesas extraordinárias, como a pandemia ou a crise do Rio Grande do Sul.

Haddad defendeu que é preciso ter memória do que cada governo representou em termos de carga tributária, de taxa de juros e de déficit primário, inclusive as gestões petistas.

"Se a gente perder a memória e a coragem de enfrentar as desonerações, que até foi do governo Dilma, erramos ou acertamos? Ela própria veio a público e disse que não acertamos nisso. Estavam imbuídos, às vezes, das melhores intenções. A gente erra. Tinha uma agenda da Fiesp ali que foi comprada e era uma agenda que se mostrou equivocada. Não gerou crescimento, gerou incerteza em relação às contas públicas", disse o ministro.

Ele ainda argumentou que é preciso fugir da polarização eleitoral para defender uma agenda comum a um projeto de país.

Comando para arrumar contas

Haddad afirmou que recebe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o comando para arrumar as contas públicas sem fazer com que o ajuste recaia "na parte mais fraca" da sociedade. "Então vamos corrigir distorções, mas vamos distribuir essa responsabilidade de maneira socialmente justa. Eu não penso que é um comando equivocado, eu penso que é um comando certo. E o desafio da equipe econômica é grande, mas é combater todo esse patrimonialismo do Brasil, que existe no Brasil para a conta fechar de maneira correta", disse.

Segundo o ministro, ele nunca recebeu um comando negativo de Lula, para que ele não equilibre as contas públicas. "Não é esse o comando que eu recebo do presidente". Ele repetiu não acreditar que o Brasil vai conseguir operar o "milagre" do ajuste sem crescimento econômico.

"Não consigo ver crescimento econômico se a gente bombardear o andar de baixo. Não vai acontecer também. Então eu penso que é um receituário que deveria fazer sentido para mais gente, buscar combater os privilégios, fazer o ajuste necessário, garantir para os debaixo um caminho de emancipação e fazer a prosperidade chegar a mais pessoas", disse Haddad.

Grau de investimento

O ministro também defendeu que o Brasil não vai conseguir atingir o grau de investimento se não olhar de maneira correta os números do Orçamento, voltando a destacar os gastos tributários. Ele ressaltou as despesas que já estão contratadas pela Constituição e que, por isso, não há como "escapar" delas.

Para Haddad, o Brasil não vai conseguir mudar, por exemplo, a regra que alimenta o Fundeb, "bomba" jogada pela última gestão para "esse governo pagar". "Então não adianta inventar. Teve emenda constitucional multiplicando por dois, três, o aporte da União para o Fundeb, e aí no ano seguinte você vai convencer os mesmos parlamentares que aprovaram e festejaram a emenda constitucional a mudar as regras? Não vai acontecer. Então a gente tem que ter clareza do que é possível fazer. E aí fazer a conta chegar em quem tem como pagar. Que é essa obsessão do presidente Lula", disse.

O ministro ainda argumentou que o combate ao lobby precisa ser feito com transparência e mobilização da opinião público, repetindo sua avaliação de que a verdadeira "caixa-preta" é a do Orçamento, com as várias vantagens aprovadas para diferentes setores.

"Porque falava-se muito de caixa-preta do BNDES, abriram a caixa preta e não acharam nada, porque lá no BNDES tudo foi sempre transparente", disse. "Você não vai escapar dos números que eu acabei de te apresentar aqui. Pode trocar governo, pode trocar presidente, pode trocar ministro da Fazenda. O Brasil não vai conseguir atingir o grau de investimento se não mirar os números certos do Orçamento."

Iniciativas econômicas

Haddad disse não abrir mão de nenhuma das 25 iniciativas da equipe econômica que foram destacadas aos novos presidentes da Câmara e do Senado neste ano. "Nós chamamos de 25 iniciativas, que são projetos de lei que tocam em temas importantes. E é muito obtusa a afirmação de que uma área econômica pode viver de uma iniciativa só. Ou a pessoa não tem experiência na vida pública, ou passou pelo cargo sem deixar legado, o que é muito comum no Brasil", afirmou.

Para ele, o calendário eleitoral não deve atrapalhar o avanço dessas propostas porque, em sua avaliação, a agenda de reformas é "neutra" do ponto de vista ideológico. "É uma agenda institucional, assim como a lei das PPPs que eu mencionei", disse o ministro da Fazenda.

Consignado privado

Ele voltou a dizer que o novo consignado para os trabalhadores privados será uma "revolução" por possibilitar o crédito com o mecanismo da garantia da folha de pagamentos, resolvendo problemas tecnológicos que não permitem essa oferta ampla nos dias atuais.

"Nós temos de folha, de aposentado e servidor público, R$ 100 bilhões. Ele alavanca R$ 600 bilhões de consignado, entre INSS e regime próprio. No caso do privado celetista, a folha é mais ou menos R$ 100 bilhões e ele alavanca R$ 40 bilhões. Por quê? Porque não está disponível o mecanismo de garantia, muito burocrático", disse.

Para Haddad, os novos empréstimos com custo mais barato também podem abrir um "nova avenida" de empreendedorismo no Brasil, que o ministro chamou de "terra de empreendedores".

O mesmo avanço pode acontecer com a possibilidade de microempreendedores usarem a receita do Pix como garantia no crédito, medida já em estudo pelo Ministério da Fazenda, mencionou.

O chefe da equipe econômica ainda citou que fez um apelo para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), designar um relator para o projeto que trata da consolidação legal das infraestruturas do mercado financeiro, já aprovado na Câmara no ano passado.

O destravamento da proposta é uma das apostas da Fazenda para o pós-carnaval. "Uma democratização do crédito pode fazer muita diferença no Brasil, que é uma terra também de empreendedores. Nós temos muitos trabalhadores, mas nós temos muita gente que quer empreender e fica limitado pelas altas taxas de juros", disse Haddad.

Estadão
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