Guerra comercial e crise do agro nos EUA são oportunidades para o Brasil, diz Pessôa, da Agroconsult
CEO lembrou que, da última vez em que houve disputa tarifária entre as duas maiores economias do mundo, o Brasil foi um dos principais favorecidos pelo redirecionamento da demanda chinesa
O Brasil tem diante de si uma chance de consolidar sua posição como fornecedor estratégico de produtos agrícolas no mercado internacional, diante dos desdobramentos da atual guerra comercial entre Estados Unidos e China. A avaliação é do CEO da Agroconsult, André Pessôa, que também citou a "crise de rentabilidade" do agro americano (leia mais abaixo), ao identificar oportunidades para que o agronegócio brasileiro avance em novas frentes, além da simples substituição de exportações.
"Claro que a gente pode ter um benefício pontual com o aumento de tarifas sobre produtos americanos, especialmente se essa sobretaxa se mantiver até a entrada da próxima safra dos EUA", disse nesta terça-feira, 6, durante evento promovido pela Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) — Sistema CNA/Senar —, em parceria com o Estadão e o Broadcast, em São Paulo. "Mas o mais relevante é a oportunidade que se abre no longo prazo. Não podemos ser apenas espectadores ou beneficiários passivos."
Pessôa lembrou que, da última vez em que houve uma disputa tarifária entre as duas maiores economias do mundo, durante o primeiro governo de Donald Trump, o Brasil foi um dos principais favorecidos com o redirecionamento da demanda chinesa.
Agora, em sua visão, isso pode até se repetir, mas a China está mais bem preparada, com estoques formados. "Os chineses se prepararam melhor. Estão com estoques elevados de soja, milho e carnes. Eles já redesenharam os canais de fornecimento para esse tipo de cenário", disse.
Apesar de ver impacto positivo nos preços e prêmios pagos ao produtor brasileiro, Pessôa avalia que esses efeitos devem ser temporários. "O efeito imediato nas cadeias é positivo, mas talvez nem dure até o fim do ano", afirmou.
Para ele, o foco deve ser outro: "O que importa é o que isso representa para o Brasil como fornecedor confiável, especialmente quando os EUA perdem confiança em parte dos seus clientes estratégicos."
O executivo defende que o País aproveite a conjuntura para avançar em negociações paralisadas, assim como buscar novos pactos que vão além da abertura de mercados. "Precisamos de parcerias de longo prazo, que envolvam financiamento, investimento, estruturação de cadeias, tecnologia e até transição energética", disse.
Para ele, o agronegócio brasileiro pode ser protagonista da reorganização global do comércio agrícola. "É uma oportunidade que está acima de governos e ideologias. Trata-se de uma questão estratégica para o País, e que exige articulação imediata", comentou.
Crise do agro é oportunidade para o Brasil
Pessôa acrescentou que também a crise de rentabilidade na agricultura dos Estados Unidos abre uma janela de oportunidade para o Brasil se consolidar como protagonista no cenário global de segurança alimentar e ambiental.
Ele afirmou que os produtores americanos enfrentam hoje uma combinação de custos altos, juros elevados e perda de apoio institucional. "O nosso principal adversário nos mercados internacionais está em uma situação muito pior do que a nossa", afirmou.
Além dos Estados Unidos, o Canadá tem enfrentado desafios semelhantes. "Sofre com custos altos e preços reprimidos. Isso fragiliza nossos concorrentes", comentou.
Nesse cenário, o executivo defende que o Brasil assuma um papel mais ativo na construção das novas regras do comércio global. "A gente precisa ter protagonismo na narrativa da sustentabilidade. A contribuição do agro brasileiro para os desafios das mudanças climáticas é significativa, desde que a gente assuma essa narrativa e não fique apenas respondendo passivamente às regras impostas por outros países", disse.
Pessôa acredita que ainda há tempo para o Brasil estabelecer acordos com parceiros estratégicos, especialmente na Ásia. "Com a Europa, talvez já tenhamos perdido o timing, mas com a Ásia ainda dá tempo de construir regras que sejam interessantes", afirmou.