Fed segura juro, mas segue com discurso duro; mercado vê alta em dezembro
Segundo economistas, a força da atividade econômica nos EUA e os índices inflacionários prescrevem um aumento de 0,50 ponto porcentual nos juros, mas em duas etapas
O Federal Reserve manteve a taxa de juros entre 3,75% e 4,00% ao ano, em decisão com placar de 10 a 2, mas adotou um comunicado duro ("hawkish") que sinalizou preocupação com a inflação persistente e a forte atividade econômica. O mercado financeiro prevê um novo aumento de 0,25 ponto porcentual em dezembro e outro no início de 2027. Como surpresa adicional, a autoridade monetária anunciou a redução gradual do número anual de reuniões decisórias de política a partir do próximo ano.
CORRESPONDENTE EM NOVA YORK - A inflação nos Estados Unidos está há meses acima da meta, mas um novo freio para os preços será dado pelo banco central americano somente mais à frente. Segundo economistas, a força da atividade econômica e o atual nível dos índices inflacionários prescrevem um aumento de 0,50 ponto porcentual nos juros, mas em duas etapas. Uma delas deve vir em dezembro, como mostram as chances calculadas pelo FedWatch, ferramenta do CME Group.
Na reunião desta quarta-feira, 28, o Federal Reserve (Fed) manteve os juros dos Fed Funds inalterados na faixa entre 3,75% e 4,00% ao ano em um movimento amplamente esperado por analistas consultados pelo Estadão/Broadcast. Para conter a inflação sem encarecer ainda mais o crédito, a estratégia foi contar com o gogó. "Quase não há uma palavra no breve comunicado do Fed que não tenha uma inclinação hawkish", diz relatório do ING.
"O comunicado descreve um crescimento forte, gastos resilientes e investimento robusto com (...) inflação acima da meta. No entanto, a maioria (no Fed) quer mais informações antes de ajustar a política novamente. Os mercados parecem querer "um pouco menos de conversa, um pouco mais de ação, por favor", escreveu Ole Håkon Eek-Nielsen, da Nordea.
No comunicado divulgado com a decisão nesta tarde, o Fed tratou de mostrar mais rigor e foi considerado levemente mais "hawkish" (duro) por analistas. Assim como na diplomacia internacional, as palavras carregam grande simbologia na política monetária. E a mudança na descrição da expansão da atividade econômica dos Estados Unidos de ritmo sólido para ritmo forte foi lida como um sinal de alerta sobre possíveis impactos na inflação.
Sobre a inflação em si, o comunicado passou a afirmar que o "acúmulo de mais informações" ajudará a determinar a postura monetária apropriada para assegurar a convergência dos preços à meta. Antes, compreendia que a elevação dos juros contribuiria para um retorno mais rápido da inflação à meta de 2%.
Quando devem vir os próximos aumentos no juro
Um novo aumento - além do dezembro - é previsto para março por economistas como David Doyle, do Macquarie Group, e Thomas Ryan, da Capital Economics, que preveem aumento de juros pelo Fed em dezembro e em março. Os analistas Thomas Simons e Blake Birkins, do Jefferies, preveem o segundo aumento de 0,25 ponto porcentual no primeiro trimestre de 2027.
"Isso se baseia na visão de que o 'modus operandi´ do Fed está focado em remover os 75 pontos base de acomodação que eles forneceram em 2025, trazendo a postura da política para um lugar mais restritivo", diz relatório do Jefferies. "Julgar se haverá mais ou menos aumentos provavelmente deve se basear nos comentários dos dirigentes do Fed sobre suas opiniões quanto ao grau em que a política é ou não restritiva, em vez de se o deflator PCE vem 0,001% acima ou abaixo do consenso", escrevem Simons e Birkins.
O que surpreendeu na decisão do Fed
Uma surpresa na decisão amplamente esperada foi o anúncio de um novo calendário para decisões do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) a partir do ano que vem. "Pode-se argumentar que a notícia mais importante foi o anúncio de que o Fomc substituirá uma reunião de definição de taxas de juros por uma 'sessão de estratégia' em 2027, aumentando para duas em 2028, colocando o Fed no caminho para realizar apenas seis reuniões de política por ano", escreveu Ryan, da Capital Economics. Na prática, o mercado pode vir a ficar ainda mais carente de "insights" sobre juros, algo que já reclamam visto que Warsh afirma e reafirma que prefere não dar guidance (indicação de tendência).
A decisão desta quarta-feira, 28, teve um placar de 10 a 2, com dois membros do Fomc votando por aperto. A dirigente Lisa Cook e a presidente do Fed de Cleveland, Beth Hammack, votaram por uma alta de 0,25 ponto porcentual hoje. A falta de uma unanimidade era esperada por economistas de instituições como ING e Rabobank. O que eles não esperavam é que Cook seria uma voz dissidente.
"O voto de Cook foi uma surpresa, dada a percepção geral de que ela era uma centrista. O voto dela não fará nada para melhorar seu relacionamento tenso com o presidente Trump", escreveu o ING. Uma outra surpresa foi o voto pela manutenção de outros dois dirigentes. "Neel Kashkari e Lorie Logan, considerados integrantes da ala mais hawkish do Comitê, acompanharam a decisão de manutenção", disse Yihao Lin, economista da Genial.
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