'A fuga de Flávio vai mais pesar contra ele do que causar preocupações aos empresários', diz Maílson
Mercado deve se concentrar em acompanhar se o novo governo Lula poderá promover ajuste fiscal, e a decisão do presidente é mais importante do que a escolha na Fazenda, diz ex-ministro
Para o ex-ministro Maílson da Nóbrega, a ida de Flávio Bolsonaro aos EUA não preocupa o empresariado, que enxerga o ato apenas como inconformismo pela derrota e foca na sobrevivência financeira. Ele descarta retaliações comerciais americanas e alerta que o verdadeiro risco econômico reside na falta de compromisso do governo Lula com o ajuste fiscal. Por fim, avalia que o sucesso das reformas depende centralmente da convicção do próprio presidente, e não apenas da escolha do ministro da Fazenda.
A saída do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato derrotado à Presidência da República, para os Estados Unidos, e a sua declaração de ser "verdadeiro presidente eleito do Brasil", designação modificada em uma versão posterior da mesma carta para "líder do Brasil", não deve ser uma preocupação para os empresários brasileiros, defende o economista Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda.
"Para qualquer empresário brasileiro que segue política e que acompanha análises macroeconômicas, isso não vai ter muita influência. Pelo contrário. Vão ver como uma demonstração de não aceitar uma derrota", afirma. "Nenhum brasileiro com o mínimo de informação vai acreditar que ele é o presidente eleito. O presidente reeleito teve 10 milhões de votos a mais (no segundo turno) e só 34 mil votos foram pós-prorrogação do horário da votação. O empresário está preocupado de ir vivendo da mão para a boca, sobrevivendo e pagando juros altos. Isso vai pesar mais contra ele e a sua família, no futuro, do que gerar preocupações para os empresários."
Segundo o economista, a comparação de Flávio Bolsonaro com líderes venezuelanos soa "super-ridícula". "Ele fugiu por razões íntimas e até razoáveis, com a ideia de que pode ter percebido, e é verossímil, que há uma perseguição contra ele pelo ministro (do Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes", diz. "Mas ele não é um refugiado. Só alguém exercendo o seu direito de espernear."
Ele também acredita que, apesar da imprevisibilidade do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não haverá medidas comerciais contra o Brasil. "É pouco provável que ele faça alguma retaliação ao Brasil por conta disso. Ele fez coisa parecida com isso, quando exigiu que o ex-presidente Jair Bolsonaro fosse inocentado rapidamente, e nunca mais fez algo parecido", avalia Maílson. "Agora, ele diz que gosta do Lula. Foi o único chefe estrangeiro a dizer que desconfiou da eleição brasileira. Mas aplicar novas tarifas por isso seria uma medida tão estúpida e tão desarrazoada que só aceleraria a situação complicada dele na política americana."
A preocupação maior para a economia, defende Maílson, então, deve permanecer na necessidade de o Brasil fazer um ajuste fiscal. "O que gera risco agora, para quem consegue perceber isso e quem estuda finanças públicas, é que o Brasil pode estar caminhando para uma grande crise", afirma. As primeiras declarações de membros do governo de que as reformas que evitariam essa crise não são uma prioridade seriam mais relevantes do que uma crise institucional com a saída de Flávio Bolsonaro do País.
"Crescentemente, vai se perceber que Lula dificilmente vai promover a reforma fiscal de que o Brasil precisa. Primeiramente, ele é contra as ideias de reformas, que, para ele, são babaquice", diz. "A dívida vai adquirindo uma trajetória explosiva e ele diz que não se preocupa com isso. Mas, se não fizer ajuste fiscal, a crise é inevitável."
Por isso, a grande preocupação dos empresários estará em se vão se concretizar "as declarações irresponsáveis" do ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, e do líder do PT na Câmara dos Deputados, Pedro Uczai (SC), de que o ajuste fiscal não está na pauta. "Se for assim, vai vir uma quebra, e o governo vai correr contra o prejuízo, talvez tarde demais", diz. "A esperança é que historicamente o Brasil só realiza suas reformas essenciais em momentos de grande crise.
Atenção para a escolha do ministro da Fazenda
Maílson também acredita ser um equívoco a grande preocupação do mercado financeiro com a escolha do ministro da Fazenda para o novo mandato de Lula. "Se o presidente não assumir a agenda de reformas acabou, mesmo se for o melhor ministro da história", diz. "O mercado incorporou a ideia, há muitos anos, de que o ministro da Fazenda é quem resolve tudo, com poderes que não possui."
O cargo é "de destaque", por tratar de crédito, capitalização e, em alguns países, do comércio exterior, áreas que chamam a atenção da opinião pública. "Mas, aqui, se interpreta que ele recebe autonomia e passa a ter poder de ditador", analisa. "A figura-chave é, na verdade, a do presidente, que é quem dialoga com a opinião pública, quem articula com a sociedade e a classe política. É necessário um ministro competente, que saiba montar uma equipe e que seja um conselheiro importante do presidente, até por que precisa convencer ele da agenda de reformas. Mas, sem o presidente convencido, a agenda não anda."
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