Exportação como métrica real da inovação
Se almejamos uma pauta exportadora sofisticada, as missões da Nova Indústria Brasileira são assertivas
Dados da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) revelam uma radiografia preocupante da inserção externa brasileira. Em 2024, 83% das receitas de exportação originaram-se de commodities agrícolas e minerais. Produtos de média tecnologia responderam por 14%, enquanto o segmento de alta densidade tecnológica não atingiu 3%.
Nos últimos 50 anos, nossa produtividade agrícola triplicou e o papel da pesquisa tecnológica conduzida pela Embrapa é incontestável.
Nesse mesmo meio século, a Coreia do Sul não priorizou a ciência básica de imediato, mas o desenvolvimento tecnológico e a engenharia de produtos e processos. Em paralelo, avançou na educação e formação de mão de obra qualificada em tecnologias industriais. Hoje se volta para a ciência básica, buscando perpetuar a competitividade da indústria e liderar fronteiras, como a inteligência artificial (IA) e a computação quântica.
No Brasil, o investimento em ciência priorizou o âmbito acadêmico, muitas vezes desatrelado das necessidades do mercado. Dispomos de laboratórios de excelência, mas nossa pauta exportadora revela baixa ênfase em desenvolvimento tecnológico e engenharia de produto.
Ora, para haver inovação em processos e produtos industriais competitivos, a empresa é o ator indispensável. Vale lembrar que a ênfase brasileira na ciência está ancorada na premissa da "hélice tripla" (governo-academia-empresa). Sem pesquisa aplicada nas empresas, a sinergia entre esses mundos é meramente protocolar.
Se almejamos uma pauta exportadora sofisticada, as missões da Nova Indústria Brasileira são assertivas ao focar em indústria 4.0, defesa, saúde, bioeconomia, mobilidade e agroindústria. Todavia, essas iniciativas naufragarão se a política industrial se limitar a atrair fábricas de produtos projetados no exterior.
O sucesso internacional do agro brasileiro não deve ser o teto de nossas ambições. Se somos líderes em soja, café e suco de laranja, por que não ser também exportadores globalmente relevantes de implementos e maquinário agrícola?
A Coreia do Sul adota a exportação de alto valor agregado como métrica para aferir a efetividade das subvenções e renúncias fiscais voltadas à inovação. O país registrou exportações totais de US$ 710 bilhões em 2025: 48% correspondem a bens de alta tecnologia, 47% a produtos de média intensidade tecnológica e apenas 5% a commodities.
Na lógica coreana, a inovação só se valida quando conquista o mercado externo. Inovações brasileiras que não atravessam fronteiras tendem a ser, na melhor hipótese, "jabuticabas" sem competitividade global; na pior, configuram alocação ineficiente de recursos públicos.
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