Esqueça o currículo, profissionais 50+ conversam com a IA para se realocar sem depender da CLT
Mulheres maduras enfrentam mais dificuldades para reinventar carreira, mas novas tecnologias se tornam aliadas na hora de procurar empregos, afirmam especialistas
A longevidade da população brasileira, que aumentou 31,1 anos nas últimas nove décadas segundo dados do IBGE, está forçando empresas e trabalhadores a repensar o modelo de carreira. Na busca por novas formas de trabalho, profissionais acima de 50 anos estão recorrendo à inteligência artificial na tentativa de substituir empregos de carteira assinada de segunda a sexta por contratos mais flexíveis e projetos de curto prazo em várias empresas de maneira simultânea.
"O mercado está passando por uma evolução. Agora estamos em uma era digital, podemos fazer outros trabalhos com as mesmas empresas que só podiam contratar no formato CLT antes", afirmou Juliana Ramalho, CEO da Talento Sênior, ao lado de Andrea Denuta, head de novos negócios da Maturi, e Arine Rodrigues, nesta quarta-feira, 5, durante mesa sobre longevidade e trabalho no Summit Mulheres nas Profissões, evento organizado pela empresária Luiza Trajano.
"Quando falamos em longevidade em 2020, o mato era muito alto", relembrou Arine. "Ainda falta muito para encaixar a longevidade no lugar onde ela deveria estar." Hoje, seis anos depois, Juliana apresenta um novo conceito de carreira para profissionais maduros baseado na "trabalhabilidade", que significa gerar renda em diferentes formatos, não apenas por meio da carteira assinada.
Mudança de paradigma nos modelos de trabalho
A mudança acontece devido o próprio modelo econômico não conseguir responder às necessidades atuais dos trabalhadores, explica Juliana, acrescentando que a economia mudou nos últimos 50 anos. De um modelo tradicional migrou para novas possibilidades de prestação de serviços.
"Os empresários brasileiros não têm mais necessidade de um gerente de RH cinco vezes por semana, é um empregador cada vez mais carente de talento", disse. É neste contexto que surge o executivo fracionado, que atende diferentes empresas simultaneamente.
"As empresas estão começando a perceber vantagem nesse modelo", observou Juliana. Por isso, o conceito de "trabalhabilidade" auxilia principalmente profissionais que acumulam competências, mas que não encontram oportunidades no formato de trabalho tradicional ou quando são contratados a remuneração é aquém do padrão de vida.
Para as mulheres 50+, essa reinvenção profissional é ainda mais difícil. "As mulheres ficam o dobro do tempo desempregadas procurando emprego do que os homens 50+", afirmou Andrea, citando levantamento da Maturi, empresa que é especializada em empregabilidade de pessoas com mais de 60 anos.
Segundo Andrea, cerca de 70% das mulheres respondentes sinalizaram estar planejando ou vivendo uma transição de carreira. "Como vamos envelhecer com dignidade? Isso passa por renda e trabalho." Diante desse cenário, o papel da CLT perdeu espaço para as trabalhadoras maduras e a IA surge como solução.
IA transforma currículo em portfólios
Na contramão das pesquisas de que a IA pode substituir até mesmo trabalhadores mais experientes que teriam pouca intimidade com a ferramenta, as painelistas argumentaram que a tecnologia pode ser uma aliada para quem deseja se reposicionar após os 50 anos.
Para a CEO da Talento Sênior, a IA facilita no exercício de identificar competências construídas ao longo de décadas de experiência. "Todos nós temos bagagem, mas ainda não sabemos como essa bagagem vai encaixar no mundo de 2030", afirmou.
Ela orientou profissionais maduros a abandonar o currículo tradicional em troca de utilizar as ferramentas da IA para mapear habilidades e adaptar o antigo currículo em um portfólio de serviços.
A recomendação é conversar com a IA contando toda a trajetória profissional, incluir as experiências de vida, projetos, trabalhos voluntários e atividades paralelas. Em seguida, é necessário pedir que a ferramenta identifique competências que passam despercebidas pelo próprio profissional.
A partir dessa análise, é possível perguntar ao robô quais dores aquela experiência ajuda a resolver, quais serviços podem ser oferecidos, quais segmentos apresentam maior demanda e como posicionar melhor esse conhecimento no mercado.
Diferentemente dos currículos enxutos, nesse exercício vale apresentar toda a trajetória profissional. "Quem se dá melhor? Quem sabe fazer boas perguntas. E quem sabe fazer boas perguntas? Quem tem repertório", provoca Andrea.
Arine complementou que profissionais maduros também costumam ter maior capacidade crítica para avaliar as respostas produzidas pela inteligência artificial. "As pessoas maduras sabem perguntar e questionar as respostas da IA."
"Não estamos falando de trabalho informal. Estamos falando de trabalho com valor agregado e cada vez menos por horas, e sim por resultado", concluiu.
Aprenda a conversar com a IA para se realocar no mercado
- Conte toda a sua trajetória: em vez de resumir a carreira, informe à IA todos os cargos, projetos, trabalhos voluntários e experiências relevantes;
- Peça para identificar competências: pergunte quais habilidades sua trajetória demonstra e como podem ser úteis no mercado de trabalho de 2030;
- Transforme o currículo em portfólio: peça à IA sugestões de serviços e soluções que você pode oferecer a empresas;
- Descubra onde sua experiência tem valor: pergunte quais setores e tipos de empresas podem se beneficiar do seu conhecimento;
- Identifique problemas que você resolve: peça à IA para apontar quais "dores" das empresas sua experiência pode solucionar;
- Defina seu posicionamento profissional: use a ferramenta para construir uma apresentação que reflita quem você é e o valor que entrega ao mercado.
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