Efeitos da guerra no Irã podem agravar problemas financeiros da Europa, diz BCE
Segundo o Banco Central Europeu, conflito 'representa riscos de alta para a inflação e de baixa para o crescimento econômico'
O Banco Central Europeu (BCE) afirmou que os efeitos da guerra no Irã representam riscos de alta para a inflação e de baixa para o crescimento econômico na Europa.
"As interrupções no transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz e os ataques à infraestrutura energética levaram a forte volatilidade nos mercados globais de petróleo, além de preços mais altos de petróleo e gás, bem como alguns ajustes relativamente ordenados nos mercados financeiros, considerando o tamanho do choque", escreveu o BCE - que é o banco central dos países da União Europeia que adotaram o euro - em seu Relatório de Estabilidade Financeira semestral, publicado nesta quarta-feira, 27.
"Esse choque de oferta representa riscos de alta para a inflação e de baixa para o crescimento econômico", continua o relatório. "Ele também pode aumentar a volatilidade dos mercados e dificultar a capacidade de pagamento da dívida, à medida que os custos de financiamento sobem. Projeções de consenso baseadas em pesquisas indicam impacto relevante de curto prazo sobre a inflação, impulsionado pelo aumento dos preços da energia", diz o documento.
A instituição afirmou que, embora o crescimento também deva desacelerar, as implicações de médio prazo dependem da intensidade e da duração do conflito.
O relatório indica que, apesar de a guerra ser o tema central que "molda o sentimento dos mercados", a incerteza da política comercial continua, e "anúncios de tarifas, pausas e reversões tornaram-se uma característica estrutural do ambiente global".
"A incerteza em torno do compromisso da administração dos Estados Unidos com a cooperação multilateral também aumenta o risco de que choques de política desestabilizem a ordem internacional e estimulem a fragmentação geoeconômica e regulatória em todo o mundo", afirma.
O BCE apontou que a maior necessidade de financiamento dos governos europeus - devido a fatores como gastos com defesa, transição verde e medidas fiscais para reduzir o impacto do aumento dos preços de energia sobre famílias e empresas - tende a aumentar as pressões no médio prazo.
"Um cenário de crescimento significativamente mais fraco associado a um choque energético mais persistente poderia desencadear uma reavaliação da sustentabilidade fiscal e uma reprecificação abrupta nos mercados de títulos soberanos", avalia.
Segundo a instituição, essas questões podem se espalhar para as empresas e desencadear ciclos de retroalimentação adversos entre governos, mercados financeiros e economia real, o que representa riscos para a estabilidade financeira da área do euro.
O BCE também alertou para o risco de piora da confiança dos mercados financeiros, já que os riscos negativos associados a desenvolvimentos geopolíticos, fiscais e macrofinanceiros parecem subestimados.
"Surpresas negativas - incluindo piora acentuada nas perspectivas dos mercados de energia, inflação e crescimento, reescalada das tensões comerciais, mudanças abruptas nas expectativas de política monetária ou aumento das preocupações do mercado com o risco de disrupção da inteligência artificial - podem desencadear mudanças bruscas de sentimento, com efeitos de contágio entre classes de ativos e regiões", afirma.
O BCE aponta que, apesar de os títulos do Tesouro dos EUA funcionarem como "ativos de refúgio" desde o início da guerra, as preocupações do mercado com a credibilidade fiscal dos EUA, devido a déficits elevados, expectativas de aumento dos custos de dívida e altos níveis de endividamento, podem levar a mudanças na percepção de risco e a uma reprecificação do risco soberano em nível global.
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