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De restos de comida do lixão à empresária: a história de uma confeiteira que transformou sua vida com bolo e coxinha

Hoje dona de duas confeitarias, Patrícia Lopes Santos, de 42 anos, conheceu a fome e as dificuldades ainda na infância

26 jan 2026 - 04h59
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Resumo
Patrícia Lopes Santos superou a fome e o trabalho no lixão na infância, tornando-se proprietária de duas confeitarias no litoral de São Paulo, referência de resiliência e empreendedorismo.
Patrícia Lopes Santos, de 42 anos, hoje é dona de duas lojas de bolos e salgados em Praia Grande (SP)
Patrícia Lopes Santos, de 42 anos, hoje é dona de duas lojas de bolos e salgados em Praia Grande (SP)
Foto: Arquivo Pessoal

A confeiteira Patrícia Lopes Santos, de 42 anos, conheceu a fome e a dificuldade ainda criança. Aos 9 anos, ela e o irmão começaram a frequentar o lixão do Sambaiatuba, em São Vicente, litoral paulista, em busca de alimentos descartados e materiais recicláveis. Antes de conhecer o lixão, ela e a família passavam fome e tentavam se alimentar apenas com farinha e feijão.

"Antes de conhecermos o lixão, passávamos muita fome e enfrentávamos grandes dificuldades. Chegava a ser comum comer farinha com açúcar ou até farinha com feijão, pois não tínhamos nem pão para o café da manhã. Era uma situação muito precária", recorda. "Depois que começamos a frequentar o lixão, nossa vida melhorou um pouco, porque lá havia mantimentos que podíamos aproveitar, já que minha mãe não trabalhava", conta a confeiteira.

Ela conta que muitas pessoas trabalhavam no lixão por falta de emprego. Patrícia lembra que alguns caminhões despejavam restos de carne, chamados por eles de “caminhão da pelanca”, que eram aproveitados para alimentação. No próprio lixão, cortavam e temperavam a carne, preparavam sobre fogueiras e comiam com farinha. Havia barraquinhas que ofereciam abrigo em dias de chuva, e a solidariedade também se fazia presente: pessoas mais velhas distribuíam água, sopas e alimentos para ajudar as crianças que trabalhavam ali.

Em postagem nas redes sociais, confeiteira relembrou a infância difícil
Em postagem nas redes sociais, confeiteira relembrou a infância difícil
Foto: Arquivo Pessoal

A infância foi marcada não apenas pela escassez, mas também pelo preconceito. Patrícia tentou manter os estudos mesmo enfrentando a vergonha que sentia dos colegas. O cheiro do lixo e as marcas deixadas pelas botas no corpo eram motivo de questionamentos na escola. 

"Eu tinha parado de estudar, depois eu voltei. Tinha sim o preconceito, eu não contava para ninguém que eu trabalhava no lixão, porque eu tinha vergonha. Mas as pessoas sentiam o cheiro do lixo e eu ficava cheia de vergonha", relembra. “Todo mundo na escola ficava perguntando que marca que era aquela na minha perna, e eu sempre inventava uma história, para não falar que era a marca da bota", acrescenta. 

A adolescência trouxe novos desafios. Patrícia se casou jovem, aos 17 anos, e teve seu primeiro filho. Após a separação, precisou continuar trabalhando no lixão para garantir a sobrevivência da família, enquanto o filho ficava sob os cuidados de familiares. Quando o bebê tinha apenas seis meses, ela enfrentou o momento mais doloroso de sua vida: entregar o filho à avó paterna por falta de condições financeiras. 

"A pensão que o pai dele dava não era suficiente para manter uma criança, então eu tive que entregar ele para a avó. Eu falei para ela: ‘A senhora toma conta dele para mim enquanto eu vou trabalhar. Assim que eu arrumar um emprego, eu volto para pegar ele.’ E assim foi feito", conta ao Terra

O trabalho no lixão exigia esforço e dedicação diária. Patrícia chegou a dormir no local quando não havia outro lugar para ficar, trabalhando de dia e à noite para sobreviver. Mesmo grávida, continuou a trabalhar, atravessando de barco para o lixão de Santos em busca de recicláveis de maior valor. Ela lembra que continuou a trabalhar lá até cerca de oito meses de gestação. 

Patrícia em 2018, quando já vendia os próprios salgados
Patrícia em 2018, quando já vendia os próprios salgados
Foto: Arquivo Pessoal

Novo emprego e o caminho ao empreendedorismo 

A virada aconteceu aos 21 anos, quando um vizinho, padeiro, lhe ofereceu um emprego em uma padaria. Foi a primeira oportunidade fora do lixão e Patrícia aproveitou para reconstruir sua vida. Em pouco tempo, passou por outras padarias, trabalhou em um supermercado e como diarista, até se tornar sócia no ferro-velho da irmã.

Com a chegada da segunda filha, Patrícia decidiu investir no próprio negócio. Inspirada por um sonho em que vendia coxinhas, abriu a primeira lanchonete improvisada na favela do Charmes, em São Vicente, com uma janela e um balcão feito de cabos de vassoura. A irmã lhe ensinou a preparar os salgados, e o negócio prosperou.

Quando começou a vender salgados, ela não se limitou à sua pequena barraquinha. A empresária passou a levar os produtos também para o feirão local, conhecido como feira do rolo, onde as pessoas vendem objetos usados, como bicicletas e eletrônicos. “Lá vende de tudo. Eu levava meus salgados para vender lá e, depois que me mudei para a Praia Grande, continuei indo todo domingo. Tinha que levantar às 4 horas da manhã para pegar um espaço, porque não havia espaço marcado, era para quem chegasse primeiro”, explica.

Quando começou com a venda de salgados, confeiteira esteve na feira do rolo para conseguir mais clientes
Quando começou com a venda de salgados, confeiteira esteve na feira do rolo para conseguir mais clientes
Foto: Arquivo Pessoal

Na época, a filha mais nova ainda tinha apenas um ano, e Patrícia se organizava para levar os salgados preparados no dia anterior em isopor. Com o tempo, adaptou-se ao feirão: passou a levar uma fritadeira a gás e montar uma barraca para fritar os salgados na hora. Além de salgados, também vendia pastéis, conquistando um público fiel.

Patrícia passou a levar uma fritadeira a gás e montar uma barraca na feira do rolo para fritar os salgados
Patrícia passou a levar uma fritadeira a gás e montar uma barraca na feira do rolo para fritar os salgados
Foto: Arquivo Pessoal

O começo da venda de bolos

Em 2015, ela teve outro insight: vender bolos de pote. Sem saber que era uma tendência, Patrícia pesquisou receitas e começou a receber encomendas. Hoje, ela é proprietária de duas lojas de bolos e salgados em Praia Grande (SP), e vem transformando a vida que começou entre os lixões em uma trajetória de superação e empreendedorismo.

Atualmente, Patrícia emprega nove pessoas. Entre os funcionários, quatro trabalham no atendimento e quatro na cozinha, além do filho, que cuida das compras e das entregas. “Foi muito difícil, não foi fácil. Não comecei a viver da confeitaria assim que iniciei. Eu comecei a viver de fato da confeitaria a partir de 2018”, lembra. No começo, a produção era pequena e a renda mal cobria os custos.

Atualmente, Patrícia emprega nove pessoas em suas duas lojas
Atualmente, Patrícia emprega nove pessoas em suas duas lojas
Foto: Arquivo Pessoal

A mudança significativa aconteceu quando a empresária participou de um concurso online de bolos em 2018. Seu bolo ficou entre os dez mais votados e passou a chamar a atenção do público nas redes sociais. A partir daí, as encomendas aumentaram rapidamente, chegando a 10 bolos personalizados por dia. “Tinha que acordar às 5 horas da manhã e virar a noite trabalhando para fazer os bolos personalizados, que eram bem artísticos”, conta.

Durante a pandemia, as encomendas de bolos personalizados diminuíram devido às restrições de festas. Para driblar a crise, Patrícia começou a vender bolos em fatias na garagem de casa. A estratégia deu certo, mas o verdadeiro crescimento veio quando conseguiu se mudar para uma loja em uma rua movimentada próxima à sua residência. “Na garagem da minha casa eu vendia muito pouco, mas na loja vendia sete vezes mais. Foi aí que comecei a contratar funcionários”, lembra.

Com o sucesso, Patrícia registrou seus funcionários, deixou o microempreendedorismo individual (MEI) para se tornar microempresária e expandiu seus negócios. “Não é fácil, não foi fácil. É muito difícil, principalmente quando você passa para microempresa, pobreza, muitas taxas. Mas estou nessa caminhada e continuo na luta”, afirma.

Loja de Patrícia em Praia Grande, no litoral de São Paulo
Loja de Patrícia em Praia Grande, no litoral de São Paulo
Foto: Arquivo Pessoal

Persistência e desafios

Para Patrícia, a persistência foi fundamental para transformar a vida. “Eu iniciei em 2015, mas fiquei três anos patinando para fazer meu negócio dar certo. Só a partir de 2018 ele começou a prosperar. Se eu tivesse desistido em 2015, 2016 ou 2017, não teria dado certo”, afirma.

A confeiteira também vê sua trajetória como uma inspiração para outras mulheres. Ela relembra que começou do zero, com apenas cerca de R$ 20 para comprar ingredientes básicos e fazer brigadeiros. “Eu comecei assim, saí do lixão, saí da extrema pobreza. Morei muitos anos na favela e, com 33 anos, saí de lá. Hoje tenho uma casa de bloco, que sempre foi meu sonho”, conta.

Para Patrícia, a persistência foi fundamental para transformar a vida
Para Patrícia, a persistência foi fundamental para transformar a vida
Foto: Arquivo Pessoal

Ela acredita que qualquer pessoa pode começar com o que tem em mãos, sem esperar apoio ou grandes recursos. “Se você for esperar ganhar dinheiro ou que alguém te apoie, você nunca vai. Tem que começar com o que você tem. É R$ 20 reais, é R$ 30. Com esse dinheiro você pode fazer um brigadeiro e vender”, aconselha.

Patrícia também destaca como a tecnologia tornou mais fácil empreender hoje em dia. “Na minha época, eu não tinha rede social, minha sobrinha teve que criar uma para mim. As receitas do YouTube não mostravam o ‘pulo do gato’. Quantos chantilly eu bati e joguei fora, massas de pão de ló que não davam certo. Hoje é muito mais fácil. As redes sociais ajudam muita gente a vender. É só persistir e não ter medo, porque se ficar com medo, a gente não vai mesmo."

Patrícia inaugurou sua segunda loja em Praia Grande, SP, nesta sexta-feira, 23
Patrícia inaugurou sua segunda loja em Praia Grande, SP, nesta sexta-feira, 23
Foto: Arquivo Pessoal
Fonte: Portal Terra
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