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Cúpula Rússia-África: entenda por que Moscou quer fortalecer seus laços com o continente

A terceira cúpula Rússia-África começa nesta quarta-feira (28) em Moscou, com a energia nuclear para fins civis entre os temas centrais das discussões. Para os países africanos, que enfrentam necessidades crescentes de eletricidade, a energia nuclear representa uma via para apoiar seu desenvolvimento industrial. Para Moscou, esses projetos constituem também um mercado de longo prazo e um meio de reforçar sua influência no continente.

28 out 2026 - 14h34
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Resumo
A Cúpula Rússia-África reúne dezenas de líderes em Moscou para ampliar trocas comerciais e cooperações tecnológicas, com foco na energia nuclear civil para suprir o déficit elétrico africano. A russa Rosatom oferece um ecossistema completo com financiamento e capacitação, modelo atraente para o continente, mas que gera forte influência russa duradoura. Para os países africanos, o desafio central é impulsionar seu desenvolvimento sem criar novas dependências financeiras e geopolíticas com Moscou.

Nas próximas 24 horas, a capital russa será palco de discussões e reuniões durante a terceira edição da cúpula, uma iniciativa do Kremlin, com um Vladimir Putin particularmente engajado. O evento reúne 22 chefes de Estado do continente africano, além de representantes de 48 países, bem como líderes empresariais, com o objetivo de desenvolver trocas comerciais.

Entre os temas na pauta está a energia nuclear para fins civis. A África tem uma grande necessidade no setor elétrico. Na África Subsaariana, por exemplo, apenas metade da população tem acesso à rede elétrica. Com o crescimento demográfico e o desenvolvimento industrial, a demanda tende a aumentar significativamente.

Os governos buscam, portanto, produzir mais eletricidade, diversificando ao mesmo tempo suas fontes de geração. Neste contexto, a energia nuclear apresenta vantagens: permite a produção de grandes quantidades de eletricidade de forma contínua, com baixas emissões de carbono. 

Por isso, diversos países africanos demonstram interesse na tecnologia nuclear russa. Atualmente, o principal projeto de Moscou no continente está no Egito, onde quatro reatores estão em construção. Contudo, outros Estados também planejam desenvolver essa fonte de energia.

Todos esses esforços visam demonstrar o interesse da Rússia pela África e sua influência no continente. Paralelamente às discussões diplomáticas, o programa de negócios deve reunir cerca de 4 mil empresários russos e africanos de diversos setores, ao longo de cerca de quarenta eventos, segundo dados oficiais.

Além da questão energética, a edição deste ano também dá ênfase ao intercâmbio relacionado ao acesso a tecnologias. Inclusive, uma declaração sobre a cooperação na área de inteligência artificial deverá ser adotada ao final da cúpula, nesta quinta-feira (29).

Ecossistema nuclear completo

Vista da primeira usina nuclear da Bielorrússia, construída pela estatal nuclear russa Rosatom, em de agosto de 2020.
Vista da primeira usina nuclear da Bielorrússia, construída pela estatal nuclear russa Rosatom, em de agosto de 2020.
Foto: RFI

A Rússia atrai os países africanos, em parte, por oferecer uma proposta diferenciada. Sua gigante estatal do setor nuclear, a Rosatom, não vende apenas usinas; ela também pode financiar a construção, fornecer o combustível, realizar a manutenção e treinar equipes locais. Em suma, Moscou oferece um ecossistema nuclear completo.

Para Estados que, por vezes, carecem de capital, essa proposta é um argumento de peso. O financiamento é, de fato, um dos principais obstáculos ao desenvolvimento de projetos nucleares, cujos custos podem chegar a dezenas de bilhões de dólares.

Para Moscou, contudo, o interesse também é estratégico. Uma usina nuclear estabelece uma relação comercial que perdura por várias décadas, podendo chegar a quase um século, se considerarmos todo o seu ciclo de vida. Uma vez construído o reator, o país permanece vinculado ao seu fornecedor no que diz respeito ao combustível, às peças de reposição e à parte das competências técnicas necessárias para o seu funcionamento.

Essa relação pode até transcender o setor energético, envolvendo cooperações na área de formação e no meio universitário, além de um interesse potencial nos recursos de urânio presentes no subsolo africano.

Risco de dependência para países africanos

Essa cooperação, contudo, acarreta riscos para os países parceiros. O primeiro é de natureza tecnológica. Quando um Estado adquire um reator de um fornecedor, não é simples trocar de parceiro da noite para o dia. O suprimento de combustível, a manutenção e as competências exigidas para a operação podem gerar uma dependência duradoura.

O segundo risco é financeiro. Os empréstimos destinados ao financiamento das usinas podem atingir montantes vultosos. Caso o pagamento dessas dívidas se torne excessivamente oneroso, os Estados podem enfrentar dificuldades e ver sua margem de manobra reduzida.

Por fim, esses contratos possuem uma dimensão geopolítica. Para Moscou, eles representam um meio de ampliar sua influência no continente, especialmente em certos países do Sahel (faixa semiárida que atravessa a África ao sul do deserto do Saara) que se aproximaram da Rússia. Vale ressaltar que a assinatura de um acordo não implica, necessariamente, a construção de uma usina. Em alguns casos, o alcance político dessa aproximação pode ser tão relevante quanto a efetiva concretização do projeto.

Isso porque, embora a energia nuclear possa impulsionar o desenvolvimento industrial da África, ela demanda grandes investimentos, redes elétricas adequadas e competências que levam anos para serem adquiridas. Para as capitais africanas, o desafio reside, portanto, em transformar essas promessas em eletricidade, sem comprometer sua autonomia.

O objetivo é fazer da cooperação nuclear um vetor de desenvolvimento e independência energética, em vez de uma nova fonte de dependência econômica.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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