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Copom aponta desaceleração da economia e defende juros restritivos em ata

Comitê do Banco Central afirmou que reduzir a Selic é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta

22 set 2026 - 09h06
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Resumo
Na ata de sua última reunião, o Copom confirmou a desaceleração do PIB no segundo trimestre de 2026 e justificou o quinto corte consecutivo da Selic, agora em 13,75% ao ano. Apesar do recuo gradual dos juros, o comitê defendeu a manutenção de uma política monetária restritiva por mais tempo para conter a demanda. A postura cautelosa visa combater a desancoragem das expectativas inflacionárias e incertezas globais, buscando convergir o IPCA para a meta em um cenário de mercado de trabalho aquecido.

BRASÍLIA - O Comitê de Política Monetária (Copom) avaliou que a leitura mais recente do Produto Interno Bruto (PIB), referente ao segundo trimestre de 2026, confirmou a desaceleração apontada por outros indicadores e revelou que o movimento foi mais intenso nas atividades econômicas e nos componentes da demanda mais sensíveis ao ciclo econômico.

"A atividade econômica doméstica manteve trajetória de moderação, tal como antecipado pelo comitê", afirmou na ata de sua reunião de setembro, publicada nesta terça-feira, 22. No encontro, o comitê cortou a Selic em 0,25 ponto porcentual, de 14% para 13,75% ao ano. Foi o quinto corte consecutivo.

O colegiado reiterou que o arrefecimento da demanda agregada é um elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da economia e convergência da inflação à meta.

Copom já reduziu os juros em 1,25 ponto porcentual desde março
Copom já reduziu os juros em 1,25 ponto porcentual desde março
Foto: André Dusek/Estadão / Estadão

Acrescentou que a evolução do mercado de crédito bancário com recursos livres também é consistente com um quadro de desaceleração do crescimento, em meio a uma política monetária restritiva.

"Nota-se, em particular, redução nas modalidades de mais longo prazo, mais sensíveis à política monetária que as modalidades de curto prazo ou emergenciais, mais onerosas. Estas continuaram crescendo, porém com desaceleração na margem", disse.

Por outro lado, observou, os créditos com recursos direcionados mantiveram trajetória de expansão para pessoas físicas, na linha do crédito imobiliário, e para empresas, sustentados pelas operações com fundos garantidores.

O Copom afirmou que segue acompanhando detidamente o mercado de trabalho. Pontuou que a taxa de desemprego mantém-se em patamares historicamente baixos, enquanto o crescimento da taxa de ocupação vem apresentando desaceleração.

Segundo o colegiado, os rendimentos médios desaceleraram na margem, mesmo em termos nominais, mas ainda crescem em termos reais a uma taxa superior à da produtividade do trabalho.

"O Comitê segue atento ao debate sobre as dimensões corrente e estrutural do mercado de trabalho, enfatizando a necessidade do aprofundamento dessa análise para a avaliação dos padrões de transmissão dos níveis de ocupação para os rendimentos do trabalho e, finalmente, para os preços dos diversos setores da economia", afirmou.

Ambiente exige restrição monetária maior

O Copom enfatizou que as expectativas de inflação permanecem acima da meta em todos os horizontes. "A principal conclusão obtida, e compartilhada por todos os membros do comitê, foi a de que, em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado", seguiu.

O colegiado ressaltou ainda que o custo de desinflação sobre o nível de atividade ao longo do tempo é maior em ambientes com expectativas desancoradas. "O comitê monitora com atenção a desancoragem das expectativas de inflação para prazos mais longos e tem debatido as possíveis causas desse movimento das expectativas", escreveu.

O Copom avalia que "perseverança, firmeza e serenidade na condução da política monetária" contribuirão para a reancoragem das expectativas, fator importante para a convergência da inflação à meta com menor custo.

O documento cita ainda que as leituras mais recentes apontam para queda da inflação ao consumidor "tanto no índice cheio quanto na média das medidas subjacentes".

"Pelas duas métricas, o índice acumulado em 12 meses situa-se abaixo do limite superior do intervalo de tolerância, porém ainda acima da meta. Ainda sob a mesma perspectiva das variações acumuladas em 12 meses, nas divulgações mais recentes as variações de preços aos produtores aceleraram, tanto em bens intermediários quanto em bens de consumo", escreve.

Decisões vão depender da evolução do cenário

O Copom reiterou que a magnitude do ciclo de calibração ocorrerá à luz da evolução do cenário. O colegiado disse que os níveis de incerteza são históricos, com riscos altistas para preços.

"No contexto atual de incerteza em níveis historicamente elevados, com riscos assimétricos na direção altista para os preços, o Comitê reitera que a magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário, de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta", destacou.

A cúpula do Banco Central informou ainda que choques de oferta têm exercido influência relevante tanto sobre a trajetória recente da inflação quanto sobre sua projeção. O colegiado reafirmou, entretanto, que não deve reagir aos efeitos primários dos choques, mas que é preciso monitorar "com atenção" eventuais efeitos de segunda ordem "e reagir com firmeza caso esses efeitos se materializem".

O comitê avalia ainda que as evidências de transmissão da política monetária contracionista têm se acumulado de forma gradual na atividade econômica. "Embora a política monetária esteja contribuindo de forma determinante para o processo de desinflação, a inflação permanece pressionada pela demanda, exigindo que a política monetária mantenha caráter restritivo", diz.

Cenário demanda serenidade e cautela

O Copom reafirmou que o cenário atual é marcado por significativo aumento da incerteza, desancoragem das expectativas e riscos elevados em torno do cenário base. Por isso, demanda serenidade e cautela na condução da política monetária.

"O Comitê seguirá incorporando novas informações e acompanhando a evolução do cenário de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta", emendou.

Os juros já caíram 1,25 ponto porcentual desde março, quando o BC começou um "ciclo de calibração" cauteloso da política monetária, em meio às incertezas sobre os impactos da guerra do Irã na cadeia global de suprimentos, os preços de commodities e a própria inflação.

Antes, o Copom manteve a Selic em 15% — o maior nível em quase duas décadas — por dez meses seguidos, de junho de 2025 até março de 2026.

O colegiado também reafirmou que a decisão de reduzir a Selic é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. "Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego."

O Copom repetiu as projeções para a inflação já apresentadas no comunicado. O colegiado prevê alta de 5,2% para o IPCA em 2026, acima do teto da meta de inflação, de 4,5%, e de 3,9% em 2027. Para a inflação acumulada em 12 meses no 1º trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária, projeta alta de 3,2%.

Para os preços livres, prevê altas de 5,2%, 4,1% e 3,2%, respectivamente, nos períodos. Já para os preços administrados, projeta altas de 5,3%, 3,5% e 3,2%.

Todas as projeções partem do cenário de referência, com trajetória de juros do Relatório Focus (publicado em 14 de setembro) e bandeira amarela de energia elétrica em dezembro de 2026 e 2027. A taxa de câmbio começa em R$ 5,15 e evolui conforme a paridade do poder de compra (PPC). Os preços do petróleo seguem aproximadamente a curva futura por seis meses e, depois, sobem 2% ao ano.

Estadão
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