Conversa entre Lula e Trump pode recuperar relação civilizada entre países, mas ainda é só promessa
Esperado encontro entre presidentes talvez favoreça a recuperação de relações normais e civilizadas entre os dois países, mas é cedo para qualquer aposta
Bons modos e gentileza no encontro dos presidentes Donald Trump e Luís Inácio Lula da Silva em reunião da ONU, em Nova York, foram saudados por observadores e comentaristas — precipitação ou realismo? — como sinal positivo para o relacionamento dos dois países. Pode ter sido um sinal promissor, mas insuficiente para apagar o significado político do recente tarifaço contra o Brasil e, mais que isso, as agressões a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e a seus familiares.
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, acusou o ministro Alexandre de Moraes de promover "processos politizados" e o comparou, juntamente com sua mulher, ao casal criminoso Bonnie e Clyde.
A grosseria de Bessent pode parecer "natural" e previsível, mas, ainda assim, a imposição de danos financeiros à mulher de Moraes, por meio da Lei Magnitsky, é uma agressão absolutamente injustificável e indesculpável.
O mesmo ataque já havia sido dirigido pelo governo americano a outros membros do Judiciário brasileiro. Esses atos foram noticiados como "sanções" ou "punições", mas essas palavras são impróprias.
Indivíduos, grupos, organizações privadas e entes políticos, incluídas nações, podem ser sancionados ou punidos quando violam alguma regra formalmente reconhecida e validada. Mas nenhuma norma desse tipo foi rompida pelos acusados, nem mesmo a discutibilíssima Lei Magnitsky, criada nos Estados Unidos, aceita ou replicada em outros países, mas nunca elevada, por acordo celebrado e reconhecido entre governos, à condição de norma internacional.
Eleito para governar seu país, o presidente americano tem pretendido "punir" o Brasil pela suposta violação de uma regra sem validade internacional. Isso é simples e indisfarçável tentativa de agressão. Talvez o assunto seja superado em seus previstos contatos com o presidente brasileiro. Mas a mera ameaça de "sanção" ao Brasil é uma aberração política e diplomática.
De toda forma, Trump já tentou intervir na vida política do País e no funcionamento do Judiciário brasileiro, ao cobrar de Brasília o fim de uma ação legal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de envolvimento numa conspiração golpista. Além de tentar interromper esse procedimento, o presidente americano ainda exigiu do Executivo brasileiro, sem sucesso, uma interferência no poder Judiciário.
A esperada conversa entre Lula e Trump talvez favoreça a recuperação de relações normais e civilizadas entre os dois países, mas é cedo para qualquer aposta. Se o contato ocorrer e for produtivo, poderá resultar na eliminação total do tarifaço imposto ao Brasil.
Esse tarifaço foi anunciado pelo presidente americano como um ato motivado pela intenção de favorecer o ex-presidente Jair Bolsonaro, personagem de uma cena ocorrida na Casa Branca — e divulgada internacionalmente — de sujeição a Trump. A esperada conversa entre os dois presidentes poderá, se der tudo certo, resultar em maior cooperação entre a maior e a segunda maior economia das Américas.