Script = https://s1.trrsf.com/update-1765905308/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Consumo focado na questão ambiental vem evoluindo, mas de forma lenta, diz CEO do Boticário

Segundo Fernando Modé, presidente do grupo, é preciso associar o compromisso ambiental futuro com entregas concretas no dia a dia

18 ago 2025 - 11h36
Compartilhar
Exibir comentários

Com uma trajetória de décadas ligada à causa ambiental — afinal, sem recursos hídricos não é possível produzir cosméticos de qualidade —, o Grupo Boticário desenvolve diversas iniciativas voltadas à preservação da biodiversidade brasileira. Segundo Fernando Modé, CEO da companhia, em entrevista ao Estadão, uma das principais preocupações está na recuperação das embalagens pós-consumo, hoje o maior desafio em termos de pegada de carbono do grupo.

Engajado pessoalmente no tema, Modé reforça ainda que a COP-30, marcada para novembro em Belém, representa uma oportunidade única de transformar em ações concretas as discussões globais sobre mudanças climáticas. Confira a seguir trechos da entrevista

Qual o principal capital natural que o Grupo Boticário procura preservar?

A água é um capital natural muito importante para nós. Dependemos dela tanto na produção quanto no uso dos nossos produtos, como xampus e sabonetes. Por isso, atuamos em várias frentes: tanto dentro do Grupo Boticário quanto por meio da Fundação Grupo Boticário, que existe desde 1990. Este ano, inclusive, a Fundação completa 35 anos de atuação na preservação dos mananciais e da biodiversidade.

A sustentabilidade entrou na trajetória do Grupo Boticário desde o começo?

A nossa história com a sustentabilidade vem de bastante tempo. Temos o costume de revisar essas metas de tempos em tempos. São mais de 20 anos conectando com esses temas, não necessariamente com a pauta climática, que entrou mais fortemente há uns 15 anos, mas com o impacto sobre o capital natural e o ecossistema no qual estamos inseridos. A nossa operação está muito concentrada no Brasil, onde temos fábricas e atividades operacionais. Nosso grande impacto é aqui, então o foco das nossas ações também está aqui.

A atuação da Fundação começou até antes da Rio-92, certo?

Exato. A Fundação foi criada em 1990, ou seja, antes mesmo da Conferência da ONU de 1992. Isso confirma os valores do Boticário desde muito cedo. A empresa nasceu em 1977 e, três anos depois, já tomou uma decisão importante: destinar parte de seu patrimônio para uma atividade voltada à conservação da biodiversidade no Brasil. Desde então, já foram investidos quase R$ 100 milhões em projetos nessa área.

Como a questão climática passou a ser abordada pela companhia?

Essa é uma agenda mais recente dentro do nosso planejamento, mas que vem ganhando força. Como falei, há cerca de 15 anos começamos a tratar diretamente das mudanças climáticas. E é importante lembrar que essa pauta está conectada com outras frentes, como o cuidado com a água, o reflorestamento, o bom uso dos recursos naturais. Não se trata apenas de carbono na atmosfera, mas de equilíbrio ecológico como um todo.

O Grupo Boticário tem metas concretas ligadas a essa agenda?

Temos metas de redução há bastante tempo. Acabamos de anunciar nossos oito compromissos, e um deles trata diretamente das mudanças climáticas. Hoje, por exemplo, usamos 99% de energia proveniente de fontes totalmente renováveis. Não falo 100% porque ainda temos contingência em alguns sites, que usam gás ou óleo diesel quando há falha no fornecimento elétrico. Mas, no geral, estamos bem avançados nesse ponto.

E como essa estratégia se estende para além da operação direta da empresa?

Nosso desafio agora é avançar para a cadeia como um todo. Isso inclui nossas lojas, nossos fornecedores e, principalmente, as emissões decorrentes da logística, tanto a própria quanto a de terceiros. Estamos trabalhando muito nisso para os próximos anos.

De que forma vocês pretendem enfrentar esse desafio logístico?

Nós acreditamos na ideia de ecoeficiência, que une economia e ecologia. Eu costumo dizer que proteger o meio ambiente não precisa estar dissociado da lucratividade. Se usamos menos combustível fóssil, por exemplo, também gastamos menos dinheiro nos fretes. Buscamos inteligência para definir melhor as rotas e criar a maior eficiência possível no transporte, para que o produto chegue mais rápido, mais barato e com menor impacto ambiental nas mãos dos consumidores.

Tecnologia também entra nesse esforço?

Temos inteligência embarcada nas nossas operações e também estamos atentos às alternativas sustentáveis, como veículos elétricos ou o uso de biodiesel e outros combustíveis renováveis. No Brasil, temos muitas soluções que ajudam a compor essa matriz. O importante é usar o que temos de favorável para gerar impacto positivo, tanto para trás da cadeia, com os fornecedores, quanto para frente, com franqueados e parceiros.

Existe uma ligação direta com a cadeia de matérias-primas naturais? E como vocês lidam com o uso da biodiversidade e das comunidades tradicionais?

Nós temos, obviamente, boa parte dos insumos que vêm desse início da cadeia, um capital natural que utilizamos. Também usamos muita coisa sintética, que se combina; não é uma única fonte. Mesmo o sintético muitas vezes vem do uso de capital natural, como minerais. Procuramos entender qual é o melhor uso, o recurso mais sustentável em toda a cadeia. Além disso, temos evoluído muito na circularidade, usando materiais que já foram utilizados, reaproveitando resíduos pós-consumo, como plástico das embalagens descartadas, que conseguimos trazer de volta para a produção. Isso é importante porque reduz a necessidade de buscar capital natural novo. Temos mais de 5 mil pontos de venda no Brasil para logística reversa, onde consumidores podem depositar embalagens pós-consumo, que são então reaproveitadas.

Fernando Mode, CEO do Grupo Boticário
Fernando Mode, CEO do Grupo Boticário
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

Qual é a estratégia de vocês em relação aos chamados três R's - reduzir, reutilizar e reciclar?

Primeiro, buscamos reduzir, depois reutilizar o que não foi reduzido e, por último, reciclar. Essa economia circular tem funcionado muito bem para nós. Nosso maior impacto vem do descarte das embalagens pós-consumo, então nosso grande impulso é trabalhar na circularidade para que o máximo possível dessas embalagens seja reutilizado. Conseguimos alcançar cerca de 40% de circularidade na matéria usada, o que é um sucesso. Claro que é um desafio diário, com muita técnica a desenvolver e uma cadeia de reciclagem que precisa ser aprimorada. Fazemos isso em conjunto com outras indústrias do setor e de outros setores também.

A proteção à biodiversidade, da qual vocês falam, está restrita às regiões próximas às plantas industriais ou é uma atuação mais ampla?

É uma atuação mais transversal, porque temos plantas que precisam de água de qualidade para produzir, e isso exige cuidado local com os recursos naturais. Mas a preocupação se estende ao uso dos nossos consumidores, que estão espalhados pelo Brasil todo. Por exemplo, na crise hídrica severa em São Paulo, há cerca de 10 anos, vimos o quanto a água é um recurso vital. Produtos como xampu e sabonete dependem da água para uso e consumo, então dificultar o acesso a esse recurso impacta diretamente o uso dos nossos produtos. Por isso, atuamos em projetos de preservação espalhados pelo Brasil, como o Oasis, iniciado em 2003, que busca proteger mananciais ao redor da Grande São Paulo. Esse projeto evoluiu para o Viva Água, presente também no Paraná e na Baía de Guanabara, no Rio. Buscamos envolver diversos atores — governos estaduais e municipais, produtores rurais, comunidades — para que esses projetos funcionem. Queremos expandir isso para outras regiões do Brasil.

A atuação da Fundação e do grupo é nacional, abrangendo os biomas e ecossistemas além das áreas de produção?

Estamos presentes em todo o País, não só onde temos produção. Temos produtos consumidos no Brasil inteiro, inclusive na Amazônia. Na região amazônica, a logística é diferente, porque os rios funcionam como estradas. Levamos produtos de barco e canoa, porta a porta. É importante lembrar que o Brasil é múltiplo e que precisamos atender de forma qualificada todas essas realidades.

Até que ponto a inovação tecnológica, especialmente a inteligência artificial, está presente na operação do Grupo Boticário?

Nos últimos anos, passamos por uma transformação forte para agregar mais inteligência aos nossos processos. Usamos várias aplicações de inteligência artificial para antecipar resultados, orquestrar processos de forma racional, principalmente para o nosso negócio principal, que é um ciclo de 21 dias de ofertas, lançamentos, preços diferentes para atender melhor os consumidores em todos os canais. Orquestrar a distribuição para que não falte nem sobre produto em cada loja, revendedora e ponto de venda é um desafio grande, que exige muita tecnologia. Para produzir os produtos de tecnologia, temos mais ou menos, hoje, 3 mil pessoas. Esses produtos são usados distintamente pelos nossos clientes franqueados, revendedores, distribuidores varejistas em geral e também pelas revendedoras de venda direta que temos. Associado a isso, são aproximadamente 500 cientistas de dados que organizam a boa informação para ser utilizada nas tomadas de decisão do grupo.

A inteligência artificial também ajuda a entender o gosto e a preferência dos consumidores?

Com certeza. Sabemos que temos muitos "Brasis" dentro do Brasil, e mesmo dentro do CPF, cada pessoa é diferente e quer coisas diferentes ao longo do dia. Por exemplo, em relação a cosméticos, no início do dia a necessidade é diferente daquela para uma ocasião social à noite. A pessoa pode querer uma sensação de conforto ou de bem-estar em determinados momentos. O nosso objetivo é estar muito próximo desses momentos do consumidor, entendendo suas necessidades sem empurrar nada, mas estando pronto para atendê-lo.

Dentro do contexto das preferências dos consumidores, a bandeira ambiental e a sustentabilidade ajudam a vender as marcas de vocês? Dá para afirmar isso?

A gente vem sentindo uma evolução dos consumidores em relação a esse tema. Não é o tema principal de todos, mas é uma evolução constante. Espero que um dia tenhamos ainda mais consumidores conectados a essa causa. Estamos nessa batalha por crença, acreditando que temos um papel educativo para conscientizar os consumidores. Entendemos que consumidor e cidadão são duas realidades indissociáveis. O consumidor tem necessidades; o cidadão tem valores, como preservar a vida, o meio ambiente e as futuras gerações. Por isso, insistimos na conscientização e na entrega real do que pregamos. Vemos uma evolução, mesmo que mais lenta do que eu gostaria, pois sou um entusiasta da causa. Temos medido isso, por exemplo, pela participação no retorno das embalagens nos nossos pontos de coleta, que existem há mais de 15 anos e vêm aumentando a adesão. Isso é positivo porque fortalece a economia circular.

A inovação tecnológica de vocês está ligada também à prospecção de novas matérias-primas naturais, como plantas da Mata Atlântica ou da Amazônia?

Temos essa prospecção, mas não necessariamente só de ingredientes brasileiros. Olhamos o mundo todo. Também buscamos usar o capital natural de forma inteligente, aproveitando subprodutos que seriam descartados. Por exemplo, usamos cascas e sementes descartadas para fabricar produtos com propriedades abrasivas, que poderiam ser feitos com microesferas plásticas, mas que aqui reaproveitamos com resíduos naturais, evitando o uso de plástico. Fazemos isso há algum tempo em produtos esfoliantes, por exemplo. Também pesquisamos reduzir o impacto das embalagens, que são o maior impacto ambiental do nosso setor. Por questões de saúde, não podemos vender muitos produtos a granel, então as embalagens são necessárias, mas buscamos reduzir ao máximo o uso de material, para diminuir o capital natural consumido e o resíduo descartado pós-consumo. Isso é parte da nossa pesquisa constante e do nosso compromisso com a economia circular, que inclui também o reúso via refilagem.

Como o sr. percebe a relação do setor privado com a COP-30 que acontecerá em Belém? Esse tema está sendo tratado com a prioridade que merece?

Estou bastante conectado com o tema há muito tempo. A questão ambiental tem um histórico longo, desde as primeiras conferências da ONU em 1972, a Rio-92, o Protocolo de Kyoto em 1997 e o Acordo de Paris em 2015. O Acordo de Paris trouxe um limite para o aumento da temperatura global e compromissos nacionais, incluindo o Brasil. Além disso, o apoio financeiro às nações em desenvolvimento foi definido, para que tenham ajuda na adaptação. Dez anos depois, chegamos à COP-30 no Brasil.

Vejo que, apesar das conferências anuais, ainda faltam mecanismos econômicos bem definidos. Muitas nações, empresas e atores firmam compromissos futuros, mas me preocupo com o que está sendo feito no presente. Acho que temos de associar o compromisso futuro com entregas concretas no dia a dia. Não adianta só a retórica, tem de ter lição de casa. É preciso aterrissar essa agenda.

Há discussões duras a serem feitas na COP, principalmente sobre a viabilidade econômica e quem vai pagar a conta. Isso precisa ser organizado para viabilizar medidas proporcionais à gravidade do problema, que é complexo e exige esforço conjunto.

Aqui no Brasil, o quadro regulatório para o mercado de carbono ainda está engatinhando, e acho que isso poderia avançar mais para gerar um mercado mais sólido. O Brasil tem vantagens comparativas estratégicas, como a produção de biocombustíveis, e isso pode ser uma vantagem mundial. Mesmo que o contexto geopolítico atual não favoreça um consenso global, este é o momento para o Brasil se destacar, mostrando que somos diferentes, com capacidade de entregar conhecimento e engajamento importantes.

Estadão
Compartilhar
TAGS
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade