Como o comunismo me ensinou a ser um capitalista melhor
As lições que tive com o comunismo aplicado me ensinaram a ser um empresário melhor sem laços políticos.
Eu tive tias donas de restaurantes e consultórios de astrologia, tios donos de empresas de engenharia e oficinas mecânicas, e nenhum deles me ensinou os valores que aprendi com minha mãe, uma enfermeira e professora adepta ao comunismo desde jovem nos sertões de Pernambuco.
Em casa ela não guardava nenhuma bandeira vermelha, livro do Mao Tse Tung ou pôster de Che Guevara. Nem "O Capital" ela tinha em sua vasta estante de livros e nunca foi filiada a nenhum partido ou organização política, mas absorvia o que achava válido do comunismo e aplicava em sua vida e na minha criação.
Ela me ensinou a defender ideias e acreditar em um ideal, a ser resiliente, a fazer a minha parte para um mundo melhor para todas as pessoas, a fazer escolhas e assumir as consequências delas.
Minha mãe foi professora voluntária no MOBRAL, programa de alfabetização criado pelo governo militar, ao mesmo tempo em que colaborava com um jornal de esquerda em Belo Horizonte. Em todo sete de setembro costurava a minha farda verde-oliva de soldado para o desfile da escola, e quando completei dezoito anos me presenteou com uma coleção de livros clandestinos, proibidos pelo regime militar. Agia sempre dessa forma, não deixando que as coisas se misturassem e, para ela, tudo tinha o seu momento, espaço e lugar.
Infelizmente ela partiu antes que eu montasse meu primeiro negócio de sucesso: uma escola de artes voltada para formação profissional em 2017: a Deuses e Monstros Escola de Artes.
O primeiro desafio foi obter recursos para montar a escola, empréstimos bancários quando não eram negados, eram inviáveis! Nos grupos de investidores-anjo foi silêncio total, nos programas de aceleração de startups foram negados recursos ou ajuda financeiras, e o que salvou foi a lembrança de uma fala de minha mãe: "causas são conquistadas por pessoas e não por empresas ou governos". Assim, mudei meu alvo, apresentei o plano de negócios debaixo do braço às pessoas físicas comuns, sem àquela denominação conhecida, e consegui um investimento inicial, depois outro um pouco maior que garantiu dois anos de funcionamento.
Nunca disse que a escola era minha, mas nossa para servir em primeiro lugar o aluno e às pessoas se interessassem pelas nossas atividades. Todos os professores e funcionários que tenho e tive foram escolhidos por suas habilidades profissionais e possibilidades de colaborar, nunca por preferência política, sexo, cor ou religião e, com isso, contratei profissionais de esquerda e de direita, ateus, católicos, evangélicos, politeístas, gays, bissexuais, heteros, negros, brancos, de terceira idade, com piercings ou tatuagens entre outros. O importante era que executassem bem suas funções e oferecessem um retorno positivo aos alunos.
Nossos professores tem acesso gratuito aos curso da escola, assim como seus filhos e, plagiando os versos da música "Cidadão - Zé Ramalho", não queria que eles ouvissem que ali não poderiam estudar.
A escola se tornou um lugar seguro para alunos e professores de todas as tribos e orientações, e ninguém nunca foi julgado por sua aparência ou vida pessoal. Isso fomentava um caldeirão cultural enorme, onde as ideias e valores eram trocados entre as pessoas, sem medo. Com professores confiantes e alunos acolhidos, os resultados dos trabalhos eram acima da média, a evasão de alunos era mínima, e as rematrículas eram garantidas em nossos diversos cursos.
Fiz questão de que a escola fosse plenamente acessível para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida, justamente porque aprendi a pensar nas pessoas e oferecer oportunidades para todas elas. Pensei em rampas, barras de apoio, design universal, tudo isso foi aplicado em todo espaço físico e materiais da escola, os professores recebendo orientações qualificadas sobre o atendimento ais alunos com TDAH, Autismo, Paralisia Cerebral e os mais diversos incidências de deficiências, com sentimento de satisfação ao dizer que todos os alunos com alguma deficiência ou dificuldade foram plenamente atendidos e concluíram um ou mais cursos.
Todos os cursos eram divididos em duas etapas: disciplina aplicada e adiante parte da aula era dedicada a falar sobre comportamento empreendedor, as primeiras lições de como calcular o custo de um trabalho, o preço de venda, como montar uma proposta para um cliente, a importância de fazer o controle fiscal como MEI, contratar um contador entre outras informações importantes para a atividade profissional. Cheguei a procurar o recomendado Serviço de Apoio a Pequenas Empresas para acrescentar informações sobre empreendedorismo aos nossos cursos, e ligando ao que era ensinado. Mas na visão “geral” do responsável de quem poderia viabilizar, quem sabe uma parceria, deduzia que o segmento de artes e economia criativa não era algo que valesse a pena os esforços neste trabalho, o que me levou, mais uma vez, a procurar pessoas que acreditassem nesse projeto para acrescentar à formação dos alunos conforme eu planejava.
Aprendi desde pequeno a olhar a minha volta, e a escola ficava próxima ao aglomerado da Serra, o terceiro maior comunidade do país. O meu desejo era de oferecer bolsas integrais para alunos de baixa renda como uma forma de ajudar os jovens em sua primeira capacitação profissional de forma independente. Conseguimos inclusive realizar uma parceria com duas faculdades na concessão de bolsas parciais ou integrais nos cursos de moda, marketing e design para os futuros alunos, mas ninguém se interessou na hora de buscar investimento para isso. Nos editais e projetos que eram apoiados pelo Governo do Estado, projetos sociais importantes não eram tratados com alguma prioridade, foi quando a frase da minha mãe bateu em minha cabeça, mais uma vez.
Criei o Programa Arte Integrada Social - P.A.I.S., onde a cada quatro alunos matriculados eu conseguia gerar uma bolsa integral, com material e transporte para um aluno de baixa renda, realizando o cálculo de que a cada quatro alunos pagantes seria possível apadrinhar um aluno carente. Consegui aplicar a iniciativa na turma de Desenho Básico recebendo dois bolsistas, que responderam com ótimos resultados, inclusive com interação dos "padrinhos" que recebiam os bolsistas com muito carinho. Era pouco para o que pretendia implantar a ideia de ter turmas matinais inteiras de bolsistas, com o crescimento de alunos pagantes que nos procuravam para iniciar novas turmas, entretanto essa batalha foi interrompida em função da pandemia.
Entre 2017 a 2020 a escola participou de diversos eventos como a Feira Internacional de Quadrinhos - FIQ, a Feira Internacional de Negócios, Inovação e Tecnologia - FINIT (duas edições em 2017 e 2018), PINT OF SCIENCE, CEFETCOM, a SEMANA DA ARTE CONTRA A BARBÁRIE, além de palestras para faculdades como UNA, UEMG e UNI, quando levamos os conceitos da aplicação das artes, o mercado de economia criativa, e desenvolvemos programas de treinamento para empresas como o Curso de Desbloqueio Criativo, já conhecendo alguns os problemas de saúde mental entre funcionários e colaboradores nas empresas de diversos portes, que alavancaram a procura durante o isolamento provocado pela pandemia do Covid-19.
Começamos 2020 a todo vapor já preparando cursos novos, quando a pandemia interrompeu todo o processo, e sem expectativa segura de retorno às aulas presenciais, encerrei a parte física da escola, o que me fez adiar o presente de fim de ano aos professores na participação de um pequeno percentual nas cotas da empresa, como forma de incentivo e agradecimento ao bom trabalhos desenvolvido. Concentrei os esforços em readequar os cursos para o formato online e retomar as atividades em 2021, e agradeço às lições de luta e persistência das lições aprendidas nos velhos romances como "Nem só de Pão Vive o Homem - Vladimir Dundinstev" e "Os Bolcheviques - Adam B Ulam", entre muitos outros.
Começamos 2022 com o modelo online testado e validado pela presença dos alunos, oferecendo novos cursos para além da Capital Mineira mas para todo Brasil. Falta ainda pensar em como remodelar o P.A.I.S. para o formato online, que significa um compromisso pessoal meu com a sociedade, e será realizado.
Sem dúvida posso afirmar que eu não seria, hoje, metade do empresário capitalista que sou, sem as lições comunistas de enxergar a sociedade e o trabalhador da forma que minha mãe me ensinou, e que tenho orgulho em dizer e assumir.
"Se os fatos são contra mim, pior para os fatos" (Nelson Rodrigues).
(*) Nikki Nixon é especialista em Processos Criativos, palestrante e fundador da Deuses e Monstros – Escola de Artes.