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Como as empresas estão se reinventando para o mercado livre de energia

Expansão depende de estabilidade regulatória, sinais econômicos, dados e novos modelos de negócio para ampliar base e engajar consumidores

26 jun 2026 - 11h26
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RIO - A expansão do mercado livre de energia, especialmente com a chegada da baixa tensão, tem mobilizado as empresas, reguladores e novas tecnologias a colocar o consumidor no centro das discussões. Durante debate setorial nesta semana no Energy Summit, no Rio de Janeiro, executivos destacaram que o avanço depende de estabilidade regulatória, sinais econômicos para empoderamento do consumidor, melhor uso de dados e adaptação das corporações a um novo perfil de cliente.

Na avaliação do vice-presidente da EDP, Tomás Baldaque da Silva, o maior desafio está justamente na entrada da baixa tensão, que possui dinâmica muito distinta do mercado atacadista. Segundo ele, será necessário compreender a diversidade de diferentes perfis para oferecer soluções personalizadas.

Em painel do Energy Summit, especialistas mostraram consenso de que os sinais econômicos e o protagonismo do consumidor determinarão o nível de sucesso da abertura do mercado de energia
Em painel do Energy Summit, especialistas mostraram consenso de que os sinais econômicos e o protagonismo do consumidor determinarão o nível de sucesso da abertura do mercado de energia
Foto: Pedro Kirilos/Estadão / Estadão

"O primeiro desafio é entender os diversos perfis de clientes que vamos ter e estruturar serviços diferenciados", afirmou. O executivo também destacou que a competitividade exigirá digitalização plena dos processos, investimentos em tecnologia da informação e modelos de negócios mais eficientes e adaptados ao contexto brasileiro.

Além disso, Baldaque aponta que a abertura sustentável do mercado depende de estabilidade institucional, com clareza no papel das distribuidoras e confiabilidade nas regras. Para ele, é essencial garantir que novos entrantes cumpram seus compromissos e que haja previsibilidade nos processos conduzidos por órgãos como a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). "Sem essa estabilidade, o movimento de migração pode gerar insegurança nos consumidores", avaliou.

Na visão do vice-presidente de comercialização da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), Sérgio Lopes, a expansão do mercado já é uma realidade, com a empresa somando cerca de 10 mil clientes e expectativa de alcançar mais 9 mil com a próxima leva de migrações.

Ele reforça que o foco deve estar no cliente final, tanto na personalização das soluções quanto na educação do consumidor sobre os benefícios na escolha do seu fornecedor. "O maior concorrente não são outras empresas, mas a falta de entendimento de que sair do mercado cativo pode trazer vantagens", afirmou.

Lopes também defende que o avanço do setor passe pelo fortalecimento do Open Energy, com dados sendo tratados como insumo essencial. "Sem informação e segurança, não há abertura equilibrada", destacou, ressaltando que o acesso a dados permitirá maior isonomia e melhor tomada de decisão por parte dos consumidores.

Já o diretor de Segurança de Mercado na CCEE, Eduardo Rossi, ressaltou o ritmo acelerado das transformações no setor. Atualmente, a entidade contabiliza cerca de 16 mil agentes, com crescimento expressivo no varejo, que ganha cerca de 2,5 mil novas cargas por mês.

Assim, o mercado livre soma 90 mil unidades consumidoras, sendo metade no segmento varejista, e podendo chegar a 200 mil na alta tensão. No entanto, o executivo alerta que o grande salto ocorrerá com a inclusão da baixa tensão, que envolverá primeiro cerca de 6 milhões de consumidores, podendo alcançar até 90 milhões ao considerar residenciais e rurais. Para dar suporte a esse crescimento, a CCEE tem investido em tecnologia, comunicação e iniciativas como o Open Energy.

Sinais econômicos e o empoderamento do consumidor

Apesar disso, Rossi enfatizou a necessidade de melhorar os sinais econômicos ao consumidor, hoje praticamente inexistentes. "É fundamental que o consumidor consiga identificar o melhor momento para consumir energia, o que beneficia tanto o bolso quanto o sistema elétrico", comentou.

Complementando o debate, o CEO da Tyr Energia, Eduardo Miranda, trouxe a perspectiva das energytechs, que surgem como protagonistas nessa nova fase do mercado. Segundo ele, essas empresas têm como missão empoderar o consumidor por meio do acesso a dados e plataformas digitais, permitindo maior controle sobre o consumo na conta de luz.

"As energytechs já nascem digitais e sabem operar em larga escala com eficiência, desafiando os modelos tradicionais", afirmou. Para ele, o diferencial está em oferecer ao consumidor ferramentas que ajudam a entender e otimizar seu consumo, ampliando a percepção de valor do mercado livre.

Miranda também destacou que o Brasil pode se tornar um laboratório global para inovação no setor elétrico, dado o tamanho de seu mercado (quase do tamanho da Europa). Países como Austrália e regiões como o Texas já demonstraram o potencial desse modelo, e o país pode atrair investimentos e até desenvolver empresas com atuação internacional.

"Viemos para desafiar quem está se reinventando, pois nós estamos inventando", disse o executivo, referindo-se à Tyr Energia, que projeta um crescimento de 64% nesse ano integrando o portfólio do grupo de investimentos e assessoria financeira Mercúrio Partners.

Ademais, há consenso entre os especialistas de que os sinais econômicos e o protagonismo do consumidor serão determinantes para o sucesso da abertura. Dessa forma, a combinação entre regulação adequada, uso intensivo de dados, inovação tecnológica e educação do consumidor deve moldar o futuro do setor. O que exigirá coordenação e ajustes para garantir um ambiente seguro, equilibrado e eficiente.

Estadão
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